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O frevo não parou no tempo e se renova

Novas composições de artistas veteranos e da nova geração oxigenam o repertório da música carnavalesca, mas falta investimento na divulgação e formação de público

TEXTO José Teles

06 de Fevereiro de 2026

Flaira Ferro é uma das mais ativas artistas da nova geração em defesa da renovação do frevo

Flaira Ferro é uma das mais ativas artistas da nova geração em defesa da renovação do frevo

Foto Bruno Campos/PCR

A pergunta provocativa, feita a duas das mais atuantes ativistas do frevo da atualidade, Flaira Ferro e Isadora Melo: “O que você responderia a uma pessoa que lhe dissesse que não se faz mais frevos, que o frevo não se renovou, que o frevo parou no tempo?”

Flaira está envolvida com o frevo desde criança. Aluna da lenda Nascimento do Passo, ganhou notoriedade pelo excepcional talento em fazer o passo. Adulta tornou-se compositora, cantora, atriz, ativista cultural. Isadora Melo é cantora, compositora, e atriz, participa de vários fronts da música pernambucana, incluindo a Orquestra Malassombro, liderada pelo marido e parceiro Rafael Marques.

O que Isadora responderia à hipotética pergunta?

Isadora Melo atua em diversas frentes. Foto: Juana Carvalho/Secult-PE/Fundarpe

“Acho que a pessoa dizer que o frevo parou no tempo é porque não está no rolê, é ignorante mesmo do que está acontecendo. Há uma movimentação muito bonita e tem a ver com o tempo, com o cinema [pernambucano], com o Paço do Frevo. Tem a ver com o interesse das pessoas em fazer frevo, de renovar. São muitas frentes. Há muita gente está sendo instrumento desta renovação. Eu estou compondo mais faz uns anos. Este ano a gente lançou no “Compasso do frevo”, feito especialmente para sala com este nome no Paço do Frevo. É de Rafa, em parceria com comigo, e tem o selo do Paço. Também está no álbum [do Boi] da Macuca, a convite de (Henrique) Albino, cantada por Karina Buhr e Isaar. Além disso, gente compôs, para a Malassombro, “Quentura demais”, falando de frevo-canção. Tem uns frevos de bloco que a gente fez. A gente está com a previsão de lançar este ano ainda um álbum de frevo. Provavelmente, vai ser mais na pegada de frevo de rua e frevo-canção, com algumas músicas já gravadas.”

Existe um interesse em consumir, inclusive este um reconhecimento do povo na rua pelo projeto Um frevo por dia, em que Isadora e diversos artistas postam todos os dias um vídeo cantando um frevo). “Estou com dez anos do primeiro disco, e é muito massa ver como Um frevo por dia interessa às pessoas. Agora minha conta está com um milhão de engajamentos, que são pessoas que compartilharam, interagiram de alguma forma. Tem alguns vídeos que estão com mais de 200 mil visualizações. Convites surgiram a partir de Um frevo por dia, enfim, é um projeto que é massa, porque a gente vê que mesmo os frevos menos conhecidos do público pegam. A gente faz voz e bandolim, estamos trazendo a comunidade do frevo, maestro Forró, Nena, junta com a galera que está fazendo músicas novas.

“Assim a perspectiva de alguém dizer eu não está se produzindo é como alguém dizer que a MPB parou nos anos 60, 70 ou 80, 90”, comenta Isadora. “Na verdade, música boa existe o que falta é grana para a fazer ela circular e as pessoas acessarem. Os mecanismos mudaram, mas existe muito interesse pelo frevo, a gente vê nos cortejos do frevo cheio de gente. Inclusive Rafa compôs agora, um frevo instrumental encomendado para o Cariri, chamado “Pirueta”, acho que vai ser gravado. Eu vejo que o interesse, a produção e continua, Acho que existe uma crescente de interesse pelo frevo.”

O que Flaira responderia à hipotética pergunta?

“Diria primeiro que é uma grande mentira. Tem uma infinidade de artistas fazendo diferentes projetos com frevo. Só de cabeça, eu cito o trabalho sensacional da Orquestra Malassombro, este projeto especial do Frevo Macuca, o projeto Frevo do Mundo, a Spokfrevo, (maestro) Forró, Albino, tem Amaro (Freitas), PC Silva que lança frevos com constância com Julian Holanda, Vinicius Barros, Homero Ferro com o Frevália, que lançou algum tempo atrás, e Lais Senna. A gente fez uma edição do Reverbo, em dezembro de 2025, com mais de 15 frevos, a maioria deles inéditos. Sem falar dos veteranos, Antonio Nóbrega, que tem uma produção ativa, e Ademir Araújo [Maestro Formiga]”.

Ela não poderia deixar de adentrar uma faceta do frevo que não apenas domina como é veterana, o passo:

“E até aí sem mencionar a galera da dança, que são grandes motores não só do passo, mas também da música, porque são propulsores de movimento, que requerem uma renovação de pensamento de articulação estética da música. Um exemplo é Rebeca Gondim, uma passista extraordinária que tem feito diversos projetos de dança contemporânea utilizando o passo como base, influenciando trilhas sonoras interessantes. E mais: Inaê Silva, Gabi Carvalho, Alison Lima, Otavio Bastos, Valeria Vicente, Ferreirinha, Zenaide, Totonho de Olinda, Os Brincantes da Ladeira, Mestre Wilson de Olinda, Guerreiros do Passos, Adriana de Olinda. Meu Deus do Céu, inúmeros grupos em atividade permanente, que estão aí fazendo o ano todo a cultura viva. Dizer que não tem mais frevo é fechar os olhos para uma realidade que está acontecendo o ano todo.”

Para Flaira Ferro, o que não mudou e se torna um gargalo para quem faz o frevo é a falta de uma ação estruturada de divulgação e formação de novos públicos. “Quando a gente pára para pensar na propagação do frevo, porque não adianta só você lançar, a gente vê que o mercado mudou. Existem outras estratégias de propagação de uma música, assim é muito importante trazer para pauta a questão da política cultural formação de público, estímulo na educação, nas rádios, na comunicação social. O frevo como produto cultural de massa precisa ser de investimentos, para que fique tocando igual ao investimento que colocam em outras músicas, como o sertanejo, o k-pop. Isso aí não é só porque viraliza na Internet, é porque existe uma indústria fonográfica de massa botando muita grana. Então, é obvio, que a pessoa que diz que não tem mais frevo é porque está desinformada, mas é uma limitação também de política cultural. Tem que pensar o frevo com uma coisa de valor que deve ser estimulada nos veículos de comunicação.

A cantora e passista reforça que eexiste uma infinidade de artistas produzindo frevo. “Um dos espaços importantes de salvaguarda para manutenção do frevo o ano todo, sem dúvidas, é o Paço do Frevo [do qual é presidente do Conselho Consultivo]. Tem projetos ao longo do ano todo. Dizer que não tem frevo, é uma grande balela. Mas é preciso que se faça com que não fique uma música tocada apenas entre a gente; que se torne um grande investimento”.

FREVÔOOOO

DJ Dolores devendou o "enigma do frevo". Foto: Leo Motta/PCR

Embora possa parecer exagero, para 2026 foram lançados mais frevos do que traziam os suplementos carnavalescos anuais da Gravadora Rozenblit nos anos 1960, o auge do frevo como produto comercial. Há 60 anos. A Mocambo, como era popularmente conhecida, produzia para o Carnaval dois LPs e, no máximo, quatro compactos (o que hoje se chama de single). Natural, eram para serem consumidos até o Carnaval. Conhecida como “a gravadora do frevo”, música carnavalesca pernambucana foi o que a Rozenblit menos lançou pela sazonalidade. Até compositores notórios pelos frevos, a exemplo de Capiba, têm o gênero como parte menor de sua obra, já que os criavam apenas para o período de Momo. Já na época atual, com o interesse cada vez maior em torno do frevo, a tecnologia a seu favor, autores e autoras têm composto frevos o ano inteiro, intensificando a produção com a aproximação da folia.

Hélder Aragão, ou melhor, DJ Dolores, disponibilizou nas plataformas o álbum O enigma do frevo, em novembro de 2025, um trabalho conceitual, em que empregou as algumas ferramentas disponíveis para disseminar cultura, uma série, oito capítulos, na web, um site com o material que reuniu para realizar o projeto. Grosso modo, é o seu “Estudando o Frevo”. E neste estudo não poderia faltar uma debruçada sobre o totem do carnaval pernambucano : a “Marcha nº1”, do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas (atribuído a Mathias da Rocha e Joana Batista). DJ Dolores reprocessa “Vassourinhas”, que já foi alvo de várias investidas desde as primeiras décadas do século passado, e não apenas no Recife.

Para 2026, “Vassourinhas” voltou ao disco com outra estampa, a cargo do caruaruense Ortinho, que procedeu, lá em São Paulo, uma reforma colocando letra em “Vassourinhas’, gravada com a cantora Maria Alcina, e intitulada ‘Vassourinhas de Rosa”.  Ele percebeu posteriormente que sua versão, inadvertidamente relaciona-se com “Vassourinha aquática”, na qual Alceu Valença também pôs letra no histórico frevo: “A letra de Alceu fala do personagem, do artista, do palhaço, e a minha fala do que está olhando para o palhaço, do folião. A minha linguagem é a de quem estava vendo, e Alceu a de quem está fazendo o artista ser olhado. A minha letra com a letra de Alceu é um diálogo, do artista, do boneco, não sei o quê, com o cara que está saindo para a rua para ver aquilo. Eu falo do ponto de vista do que está embaixo, e Alceu de quem está em cima do palco".

FREVO POSSÍVEL

Ex-gestor cultural público e artista plástico, Fernando Duarte é também compositor, e chegou ao quarto álbum de frevo, o terceiro da série Um frevo impossível influenciados confessa, na obra de Carlos Fernando e o projeto Forroboxte, do compositor (mais letrista) Xico Bizerra “Não toco nenhum instrumento, não canto, nem tenho nenhuma pretensão de ser artista de palco. Fiz este disco com amigos. Desde o primeiro Frevo impossível, optei por artistas alternativos, não quis convidar pessoas famosas, do mainstream do frevo. Poucas participações foram exceções, Geraldo Maia, pessoas com trabalhos reconhecido, Cássio Sete, Alex Mono, e, agora, Mazo Melo”, esclarece o compositor.

Mesmo sem se arvorar a cantor, Fernando Duarte interpreta suas composições com os convidados, neste disco, entre outros, Kleber Araújo, Silvia Regina, Marcelo Cavalcante, Laura Silvini, Isabela de Holanda e Riva Le Boss. Das dez faixas, apenas uma é assinada em parceria com Julio Cesar Vila Nova.

 VETERANOS

Em relação à grande parte dos que lançam frevo novos, o cantor e compositor André Rio e o guitarrista o Luciano Magno são os decanos, estão no batente desde fins dos anos 1980, mas continuam criando frevos. André Rio vem com “Frevo ao pé do ouvido”, com uma base instrumental de Luciano Magno e Fábio Valois, os três mosqueteiros do frevo. Um frevo de bloco, de arranjo sofisticado, meio jazzy, meio bossa nova, com participação especial de Maria Flor: “A letra é minha e a música de Luciano. Me distancio do formato orquestral expansivo do frevo de bloco para apostar num arranjo minimalista compacto e construído com rigor. Um frevo que não só convoca à dança, convida também à escuta das nuances melódicas, harmônicas e poéticas”, comenta André Rio. Tocam também com eles, Bráulio de Castro (baixo), Gilberto Pontes (sax), Rodrigo Barros (bateria), e Temilson Cavalcanti (percussões).

Luciano Magno, com uma longa lista de serviços prestados à música pernambucana e brasileira, é um campeão do frevo instrumental. Venceu dois concurso de música carnavalesca da Prefeitura do Recife (que deixaram inexplicavelmente de ser promovidos) e um da Fundaj. Este ano, ele liberou para streaming os frevos” Frevando em Genneve” e “O Galo entrando”. O primeiro é parceria com o maestro Spok, e foi inspirado numa de suas idas à Suíça; o segundo é para o Galo, clube de que Luciano Magno participa há décadas.

FREVO ‘N’ ROLL

Kira Aderne mescla influências do rock e de J. Michiles. Foto: Jorge Farias/Secult-PE/Fundarpe

No II Festival do Frevo, promovido em 1969, pela TV Rádio Clube/Tupi, um das músicas concorrentes foi centro de polêmica, “Frevo principalmente alegre”, de Mario Griz e Ângelo Agostini, defendida por Expedito Baracho. Os guardiães da tradição detectaram na composição elementos de pilantragem, um modismo musical da época, cujo maior expoente era Wilson Simonal. Os autores precisaram se defender, alegando que se havia pilantragem no frevo deles não tiveram esta intenção. O que diriam os próceres do frevo se escutassem “Com você eu brinco até o Carnaval”? A música é de Kira Aderne, vocalista e guitarrista da banda Diablo Angel, de Caruaru, mas militando lá e no Recife. Com o grupo, ela gravou este frevo (and roll) com guitarra, baixo, bateria, teclados e um naipe de metais. Paradoxalmente, este frevo canção, entre novos os lançamentos, é o que mais se aproxima do estilo de autores como J. Michiles, em cuja obra, confessa a autora, se inspirou para criar esta música.

Também do Agreste vem o single “A vida inteira”, frevo de bloco de Revoredo (de Garanhuns) e Gabi da Pele Preta (Caruaru), que tem uma crônica como letra. Os dois formam uma dupla, não oficializada, e vêm trabalhando juntos já tem um tempo.  A composição é assinada por Revoredo e a caruaruense Rogéria Dera. O arranjo é de Rafael Marques (Orquestra Malassombro) e a produção do próprio Revoredo.

MACUCA

Com todos os frevos acima citados, há quem ainda considere que não se faz mais frevo? Então é submetê-lo a um tratamento de choque, qual seja, fazê-lo escutar o álbum Frevo Macuca, que reúne algumas das mais talentosas cabeças musicais pernambucanas em torno de sua música carnavalesca mais popular. Liberdade é o combustível que move esta turma no projeto idealizado por Rudá Rocha, conselheiro de arte e cultura do Boi da Macuca, com direção e produção musical de Henrique Albino. Ele congregou uma constelação de estrelas do instrumental local, com um coral caprichado, que inclui Surama Ramos, Sue Ramos, o próprio Henrique Albino e Ricardo Pessoa.

O disco traz doze frevos inéditos, com participações de Lenine, Juliana Linhares, Jorge Du Peixe, Almério, Siba, Flaira Ferro, Buhr, Isaar, Juba Valença, Zé Manoel, Surama Ramos, Mãe Beth de Oxum, Tiné, Urêa, Jéssica Caitano, Isadora Melo e Silvério Pessoa. Já as composições levam as assinaturas de, entre outros, Henrique Albino, Rudá Rocha, PC Silva, Flaira Ferro, Mavi Pugliese, Tiné, Chinaina, Zé Manoel, Mãe Beth de Oxum, Isadora Melo, José Demóstenes, Jéssica Caitano e Emerson Araújo.

Os frevos pairam entre tradição e a vanguarda, enfatizando a sonoridade das tradicionais orquestras de frevo de rua, mas, exclusivamente, com sopros e percussões, sem o uso de instrumentos harmônicos como cordas e teclados. Na época da Rozenblit, o principal título do seu suplemento carnavalesco era o LP da série Capital do Frevo, com os mais destacados compositores e intérpretes de então. Bem comparando, Frevo Macuca é o Capital do Frevo do século 21,

Todos os discos e frevos avulsos citados estão disponíveis nas plataformas de música para streaming ou no YouTube.

 

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