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O corpo na era da digitalização. Ainda somos humanos?

TEXTO Flavia Pinheiro

01 de Março de 2015

Em suas práticas artísticas, Marcos Donnarumma, relaciona o corpo e a tecnologia com interfaces biofísicas

Em suas práticas artísticas, Marcos Donnarumma, relaciona o corpo e a tecnologia com interfaces biofísicas

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 171 | mar 2015]

Nas viagens familiares de final de semana,
meu pai tinha o costume de abrir o capô do seu carro Diplomata só para ter certeza de que tudo funcionava bem. Se preciso, montava e desmontava alguma parte. Minha mãe trocava as peças do velho liquidificador e a máquina de lavar roupa funcionava como nova depois de inúmeros consertos. Eu, que desde o três anos usava óculos e frequentava as aulas de dança, assisti no cinema aos futuros corpos possíveis: as intervenções genéticas em A mosca (1986), de David Cronenberg, e as possibilidades iminentes de inteligência artificial em Blade runner (1982), de Ridley Scott.

A relação entre arte, ciência e novas tecnologias, tanto analógicas como digitais, estão presentes na vida cotidiana e aparecem integradas a muitas práticas que involucram o corpo. A tecnociência que me vendeu o futuro como a possibilidade de superar a materialidade, através do cruzamento da biologia e da informática, pelo processo de digitalização dos corpos e da manipulação genética, vem contribuindo, em contrapartida, para a manutenção de uma hegemonia de controle e vigilância desses corpos. A especulação de que a realidade virtual substituiria a realidade material e de que o corpo em vida sofreria um processo de desmaterialização e libertação ainda está no campo das tecnofantasias.

A história do meu corpo, assim como a da civilização ocidental, está acoplada à história das técnicas e dos seus usos. Estas afetam distintos aspectos da sociedade e, internamente, como somos, nascemos e vivemos. A utilidade das ferramentas e das técnicas nos permitiram construir entornos habitáveis, permeáveis e retroalimentados, que são redefinidos constantemente de acordo com as respostas percebidas. Penso que o corpo no Ocidente tenha atravessado uma era mítica que o delineava como uma figura de barro, mágica e maleável. Passou pela “Idade dos Relógios” (séculos 17 e 18), na qual era entendido como um mecanismo. Concebido como um motor de calor, responsável por queimar glicogênio nos músculos, chegou à “Era do Vapor” (séculos 18 e 19) e, finalmente, um sistema eletrônico na “Era da Comunicação e do Controle”. Emergem, assim, as promessas de digitalização e virtualização da vida. Os discursos agenciados dos dispositivos das novas tecnologias, da cibernética, da tecnologia de informação e da biologia molecular programam um devir-mundo pós-orgânico, pós-humano e pós-biológico.

Sendo assim, a arte contemporânea converteu o corpo humano em um dos temas paradigmáticos das últimas cinco décadas. O italiano Marco Donnarumma e o japonês Daito Manabe, nas suas práticas artísticas, relacionam o corpo e a tecnologia com interfaces biofísicas. Os trabalhos de Orlan, Stelarc, Marce.lí Antúnez e Eduardo Kac também tencionam esse paradigma. Todos, porém, se utilizam de um meio contínuo para a recepção. Em oposição ao futuro imaginário divulgado na minha infância, a arte digital, até o momento, não existe. Que sorte! Continuo dançando! A percepção é analógica e falar de digital apenas sublinha o meio pelo qual algo foi desenvolvido.

Os meios analógicos estão constituídos de valores contínuos, ou seja, nunca podem ser exatamente determinados. Por outro lado, os meios digitais estão constituídos por números precisos, discretos e pontuais. Por exemplo, desenhamos com um lápis uma linha reta de 10 cm sobre uma folha. Quando olhamos a linha de perto, verificamos um monte de imperfeições. Podemos talvez perceber alguma curva ou ver que, em algum ponto, a linha é um pouco mais grossa. Não podemos definir exatamente onde começa e onde termina a cor negra do lápis e o branco da folha. Se desenhássemos outra linha, tentando copiar a anterior, com certeza seria diferente, porque se trataria de uma construção analógica de uma linha sobre o plano. Ao nos aproximarmos de uma linha desenhada pelo computador, podemos distinguir com exatidão os pontos que formam a linha negra e os pontos que formam o espaço em branco. Essa linha está representada por números exatos e pode ser repetida inúmeras vezes da mesma maneira. Os trabalhos realizados em suportes digitais podem, então, aproveitar os benefícios desses meios para automatizar processos de criação, gerar estruturas modulares, realizar trabalhos que interagem com o espectador etc. No entanto, a maneira de aceder ao trabalho artístico é através do nosso corpo e dos nossos sentidos, ou seja, da percepção analógica do mundo.

Vemos intensidades de luz com os nossos olhos, percebemos as mudanças de vibração com os nossos ouvidos e sentimos as mudanças de pressão, temperatura e textura na nossa pele, pelo toque. Os espaços virtuais, imersivos da dança telemática, por exemplo, são percebidos de forma analógica. A existência da arte digital pressupõe uma forma de perceber as representações digitais… digitalmente! Isso implicaria uma mudança nos sentidos e talvez uma maneira de perceber através de computadores.

Eu ainda uso óculos… Ao pensar o futuro desde o passado, gosto da promessa de que a tecnologia podia aproximar os humanos da sua humanidade. É na materialidade do corpo obsoleto atravessado por diferentes técnicas que posso aderir à informação do mundo. Pergunto: Como manter-me viva? Prefiro tocar as pessoas às telas do celular. É em contraposição à tecnocracia hegemônica, desenvolvimentista, digitalizada, virtualizada e que etiqueta tudo com data de validade que considero o uso da tecnologia como uma tática, uma alternativa inventiva de sobrevivência da vida, uma outra maneira de respirar.

Estão presentes, neste texto, ideias de Bruno Latour, Donna Haraway, Paula Sibila, Ihde Don, Roy Ascott, Richard Barbrook, Jones Steven, Slavoj Sizek, Rodrigo Alonso, Gilles Deleuze, Marcuse, Giberto Sparza, Leonello Zambon, Jorge Crowe, Leo Oliván e Cesar Aira. 

FLAVIA PINHEIRO, bailarina, performer, atriz, professora e pesquisadora.

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