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Lenine apresenta Eita no Recife

Cantor e compositor interpreta repertório do novo disco em show no sábado (8/8), às 21h, no Teatro Guararapes

31 de Julho de 2026

Foto Gilda Midani/Divulgação

A interjeição que batiza o novo projeto de Lenine traduz o impacto de um recomeço. Longe de significar um silêncio criativo absoluto — já que em 2018 o artista lançou sete músicas inéditas no registro ao vivo Em Trânsito —, o álbum EITA marca, de fato, o seu retorno às gravações de estúdio após um hiato que se estendia desde o aclamado Carbono (2015). Sem lançar novas composições desde o projeto ao vivo de 2018, a volta pra casa acontecerá no dia 8 de agosto de 2026, no Teatro Guararapes, trazendo a transposição cênica de uma obra gerada no isolamento e na intimidade familiar.

O distanciamento dos estúdios tradicionais não foi um cálculo de mercado, mas o reflexo do desgaste emocional provocado pela crise sanitária global e pelo recente cenário político do país. Após enfrentar um período de apatia que afetou sua relação com a música, Lenine reencontrou o desejo de criar dentro de sua própria casa. Em parceria direta com o filho e produtor Bruno Giorgi, o músico desenvolveu uma obra híbrida: um disco-filme de 11 faixas gravado em plano-sequência, onde o som e a imagem possuem o mesmo peso narrativo.

No palco do Teatro Guararapes, as composições recentes serão articuladas com o repertório histórico do artista. Músicas novas como "Confia em Mim", "Meu Xamêgo" e "O Rumo do Fogo" ganham a companhia dos arranjos percussivos e do violão característico que definem a identidade de Lenine desde os anos 1990. O conceito visual e sonoro do espetáculo é uma reverência explícita a grandes mestres da música brasileira, como Naná Vasconcelos, Dominguinhos, Hermeto Pascoal e Letieres Leite.

Essa fusão estética dialoga diretamente com as origens do músico. Em 1993, ao lado de Marcos Suzano no divisor de águas Olho de Peixe, Lenine já rompia os padrões da MPB ao misturar o sotaque recifense a pulsações urbanas e contemporâneas. Em EITA, essa hibridagem se renova através do uso de batidas eletrônicas que modernizam os ritmos tradicionais, sem permitir que a obra fique restrita ao regionalismo convencional.

O álbum "EITA" subverte a lógica dos videoclipes tradicionais; ele nasceu integrado a um longa-metragem de 52 minutos dirigido por Bruno Giorgi. O filme-disco foi captado em uma única tomada contínua, sem cortes, no estúdio montado na residência da família.

Essa decisão artística exigiu um rigor técnico absoluto de toda a equipe. Qualquer falha técnica ou erro de execução após os 40 minutos de gravação invalidaria o processo, obrigando os músicos a reiniciarem o registro do zero. No filme, a iluminação se transforma de acordo com a atmosfera de cada faixa, integrando a crueza técnica do ambiente ao lirismo das composições de Lenine. Para a turnê, essa identidade visual é transportada para os palcos por meio de um desenho de luz que reproduz as sombras e os enquadramentos da obra cinematográfica.

ENTREVISTA
CONTINENTE Seu último disco de inéditas em estúdio foi Carbono (2015), embora em 2018 você tenha lançado canções novas no registro ao vivo Em Trânsito. Como o isolamento da pandemia e o cenário do país mudaram sua relação com a música nesse período?
LENINE Passei dez anos sem lançar um disco de estúdio. Em 2018, lancei Em Trânsito, gravado ao vivo, embora contivesse sete inéditas, número suficiente para compor um álbum de estúdio; a diferença estava de fato na natureza da gravação ao vivo. Com a pandemia e o cenário caótico, fui acometido, como grande parte da população, por um estado depressivo e uma profunda sensação de desconstrução da realidade. Esse período me afetou intensamente. Não fosse pelo suporte do meu núcleo familiar, talvez eu não tivesse retornado, pois cheguei a acreditar que já havia dado minha contribuição artística. Hoje, compreendo que foi uma miopia de minha parte imaginar que eu poderia viver sem o que faço.

CONTINENTE O álbum Eita foi produzido em parceria com seu filho, Bruno Giorgi. Como foi trabalhar tão de perto com ele e manter o controle total da sua obra?
LENINE O Bruno já é meu produtor desde o disco Chão. Portanto, há 15 anos ele me ajuda nos álbuns e shows. Ele não se envolve só na produção, mas na mixagem, na masterização e em todos os processos do fazer musical. Trabalhar com ele não era uma novidade. Quanto ao controle do que faço, sempre foi assim. Descobri muito cedo, quando fiz o primeiro disco com o Lula Queiroga (Baque Solto), que eu tinha que produzir minha própria música. Percebi ali que, se eu não fizesse, ninguém iria fazer. Foi um aprendizado na estrada, me jogando de cara para entender como produzir, arranjar, gravar e executar tudo.

CONTINENTE O novo disco homenageia o Nordeste unindo tradição e modernidade. Como funcionou o processo de misturar nossos ritmos locais com referências urbanas e eletrônicas?
LENINE O álbum EITA tem como protagonista o Nordeste, elemento central de todo o projeto. Essa temática, aliada à intimidade, define a essência da obra, que é permeada por experiências pessoais. Cada colaboração e os distintos núcleos sonoros desenvolvidos para as canções foram conduzidos por meio de um processo de grande proximidade e troca. No que se refere à fusão entre minha formação no Recife e as referências globais que absorvi, considero que essa hibridagem sonora e poética sempre esteve presente no meu trabalho. Sou o somatório de tudo o que ouvi, vi e li; mantenho-me sempre curioso e em constante aprendizado.

CONTINENTE O projeto visual do álbum foi gravado inteiramente em plano-sequência. Como foi o desafio técnico dessa filmagem e de transpor essa precisão para os palcos?
LENINE A ideia de fazer um filme surgiu quando eu e o Bruno estávamos produzindo o disco, na certeza de que aquele trabalho era repleto de uma imagética muito presente. Estávamos fazendo um disco para se ver. O passo seguinte foi realizar o sonho de fazer cinema, um filme para se ouvir. A premissa foi filmar o álbum na sequência exata em que ele acontece, em tempo real, o que foi muito instigante. Sempre tive um certo incômodo com o formato do videoclipe; achava desconfortável dublar no estúdio algo já pronto, interpretando um personagem escolhido pelo diretor. O plano-sequência foi escolhido para ser fiel à própria mecânica do disco. Quando vou fazer um álbum, a primeira coisa que defino é o título e as imagens em volta dele. Faço um esqueleto e só depois vou atrás das canções. Com o EITA foi assim. Eu sabia, por exemplo, que a primeira canção tinha que falar sobre a confiança, a primeira coisa que perdemos na pandemia. Ao me por a fazer o filme, precisei ser fiel a esse processo criativo.

CONTINENTE Qual é o peso emocional de voltar à sua cidade natal para se apresentar no Teatro Guararapes com um projeto que simboliza um recomeço?
LENINE Tocar no Recife é sempre carregado de emoção. Não só porque revejo amigos e família, o que é fundamental, mas também porque recarrego as minhas baterias. Estou há mais de 40 anos fora do Recife. O Recife que trago dentro de mim talvez, em parte, nem exista mais, mas essas memórias são formadoras da minha personalidade musical. Toda vez que eu volto é emocionante, e não está sendo diferente agora com o EITA, ao mostrar o projeto na minha terra natal.

SERVIÇO
Lenine - Tour "EITA"
Onde: Teatro Guararapes (Centro de Convenções, Olinda/Recife)
Quando: 8 de agosto de 2026, sábado, às 21h
Quanto: Na bilheteria do teatro e via plataforma Cecon Tickets

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