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Lenda urbana do Recife chega à TV

TEXTO Cleodon Coelho

01 de Outubro de 2013

Ísis Valverde será protagonista da minissérie global 'Amores roubados'

Ísis Valverde será protagonista da minissérie global 'Amores roubados'

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado ao especial | ed. 154 | outubro 2013]

O Recife sempre alimentou lendas urbanas.
Basta lembrar figuras como Biu do Olho Verde, a Loura do Banheiro e a Perna Cabeluda, habitantes do imaginário da cidade desde que o frevo é frevo. Mas, dentro da família das famosidades assombradas, uma personagem feminina vem ganhando cada vez mais força. É A emparedada da Rua Nova, que – depois de inspirar uma peça local de grande sucesso – vai chegar às telas de TV no comecinho de 2014, em forma de minissérie, com o nome de Amores roubados. Finalmente, o Brasil vai ter a chance de conhecer a trama criada pelo escritor Joaquim Maria Carneiro Vilela, fundador da Academia Pernambucana de Letras, morto há 100 anos. Criada ou perpetuada? Esse é um dos tantos mistérios que cercam a história da moça.

A emparedada da Rua Nova retrata o drama de uma jovem, filha única de uma família abastada, que engravida de um malandro chamado Leandro – o mesmo que seduz sua mãe. Para não passar por constrangimentos (era o final dos anos 1800, não custa lembrar), Jaime, o poderoso chefão da família, tenta casá-la com um sobrinho seu. Mas, como o rapaz se recusa, ele condena a filha ao fim trágico: manda “emparedá-la”, viva, em seu próprio quarto. O sobrado da Rua Nova, no centro do Recife, onde a trama macabra foi ambientada, ainda está de pé. E, ao longo dos anos, não faltaram relatos de pessoas que dizem ter ouvido gritos, choros, móveis arrastados e batidas nas paredes.

A adaptação de A emparedada da Rua Nova para a TV foi ideia do jornalista e roteirista George Moura, pernambucano radicado há 17 anos no Rio de Janeiro. Moura teve o primeiro contato com o livro nos anos 1980. Seu então sogro, o médico, escritor e diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco, Reinaldo de Oliveira, foi quem o apresentou à história. Quando caminhava pela Rua Nova, vez por outra George se pegava pensando na emparedada. “A hipótese de que o livro teria sido baseado em fatos ocorridos, quem sabe, nas redondezas, sempre me atraiu. Desde aquela época, havia um desejo de fazer algo com ela”, relata à Continente.

O exemplar presenteado por Dr. Reinaldo, raríssimo nos dias de hoje, é guardado como um tesouro. Mas isso não o impediu de emprestar o volume ao diretor José Luiz Villamarim, há cerca de 15 anos, com a devida observação: “Aqui tem uma história que eu queria muito contar”. Na época, George era seu assistente de direção na novela O rei do gado. Zé Luiz leu e se apaixonou. “É uma história sem barriga”, atesta. Até sair do papel, no entanto, muitas águas rolaram. O pernambucano foi editor de texto do Fantástico, assinou os roteiros dos filmes Linha de passe e Gonzaga – de pai pra filho e recebeu seis indicações ao Emmy International Awards, o Oscar da televisão. “Só há cerca de dois anos levei o projeto ao Manoel Martins, diretor de entretenimento da Globo. Ao conversarmos sobre o meu desejo de adaptar o livro, ele perguntou: ‘Você já pensou em fazê-la contemporânea?’”.

George Moura se entusiasmou com o desafio lançado. Transportou o folhetim do século 19, ambientado no Recife, para o sertão pernambucano do ano de 2014. “Essa conjunção se deu porque a história é universal. E o Sertão hoje se modernizou, do ponto de vista econômico, mas ainda é arcaico em muitos aspectos. É desse choque que nasce a ideia central da adaptação”, conta o roteirista, que teve como colaboradores Flávio Araújo, Sérgio Goldenberg e Teresa Frota. Os inúmeros ganchos da narrativa chamaram a atenção de George, desde que leu o romance pela primeira vez. “O caráter folhetinesco da trama, uma história de paixões e vingança, atual até os dias de hoje por seu ritmo trepidante, com certeza vai prender o telespectador, da mesma forma que prende o leitor”, aposta. E, assim, nasceu Amores roubados.

No início de 2013, José Luiz Villamarim e George Moura dividiram os créditos de outra adaptação: O canto da sereia, romance de Nelson Motta sobre uma cantora de axé assassinada em cima de seu trio elétrico, no meio do carnaval baiano. A mesma Ísis Valverde, que interpretou a irresistível maria-chuteira Suellen, na novela Avenida Brasil (que Villamarim dirigiu ao lado de Amora Mautner), e a cantora Sereia, está de volta em Amores roubados. Ela será Antônia, a moça bem-nascida que engravida e motiva a tragédia familiar. Nas gravações, realizadas durante dois meses em Petrolina, a mineira Ísis fez amizade com as meninas da cidade, para que o sotaque pernambucano seja o mais fiel possível.

O elenco não economiza em nomes estelares. Ísis, Cauã Reymond, Murilo Benício, Patrícia Pillar, Dira Paes, Cássia Kis Magro... e Irandhir Santos. Sim, ele mesmo. Depois de sete anos, o ator pernambucano voltará à telinha, veículo em que estreou protagonizando A Pedra do Reino, microssérie adaptada do romance de Ariano Suassuna por Luiz Fernando Carvalho, cujo resultado dividiu opiniões. Cuidadoso com suas escolhas, Irandhir atravessa um momento de grande projeção no cinema e acaba de ganhar o Kikito de melhor ator por seu trabalho no filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. A atriz pernambucana Magdale Alves, protagonista do sucesso teatral Mamãe não pode saber e que atuou em minisséries como Amazônia – de Galvez a Chico Mendes, também está na trama. “Villamarim e eu conversamos muito até chegarmos à escalação final”, acentua George, ciente do ótimo elenco que tem à disposição de sua história.

Não custa lembrar que, nos últimos anos, o público pernambucano pôde acompanhar outra adaptação de A emparedada da Rua Nova. No entanto, a montagem teatral O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas optou por um tom farsesco, baseado nos melodramas que eram encenados em circos. O espetáculo rodou o Brasil, participando de festivais como o Porto Alegre em Cena e do projeto Palco Giratório, do Sesc. Mas, enquanto o público que vai ao teatro se diverte com a sátira da Trupe Ensaia Aqui e Acolá, a versão televisiva promete muito mistério e um clima noir, mesmo num ambiente tão solar. “É uma linda história de amor e uma terrível história de vingança. E também uma geografia física e humana pouco vista na TV brasileira. Um sertão contemporâneo, onde existe a criação de bode, fabricação de vinhos e exportação de frutas para Europa, Japão e Estados Unidos”, detalha George.

Mas é a história da jovem enganada e, depois, castigada pelo pai, que deve comover o público de Amores roubados. “A emparedada oferece uma imagem impactante de repressão ao universo feminino. Acredito que, por isso, ela ecoe ainda em nosso imaginário povoado de assombrações, cicatrizes do passado. Traz a medida da justiça que deve ser feita, está ali aguardando por ela em seu claustro eterno. A história registra muitos desses casos, as lendas não nos deixam esquecer”, reforça o autor e encenador pernambucano Newton Moreno, que levou Assombrações do Recife Velho, inspirado na obra de Gilberto Freyre, aos palcos. Lenda ou verdade, a história de A emparedada da Rua Nova segue seduzindo leitores e, brevemente, telespectadores. 

CLEODON COELHO, jornalista.

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