Driblar é um verbo que poucos podem usar na primeira pessoa com a excelência desejada. Inclusive, ou, sobretudo, no futebol, de onde é a palavra. Se quiséssemos compor um dicionário das ideias feitas, como o fez Flaubert, poríamos Drible, e na definição: Garrincha. O Mané Garrincha que driblou tantos no campo que pôs um nome em genérico em cada uma das ‘vítimas’ de suas fintas: João.
Os melhores poemas sobre Garrincha são de autoria de Sérgio de Castro Pinto. Os dois integram esta série que estamos publicando a cada partida da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Um deles está animado e dito em voz alta. São ambos intensamente visuais. O segundo, por sinal, foi escrito também a partir de uma imagem: o poeta olhou uma fotografia dele desfilando num carro alegórico, e escreveu:
"se não driblas, o alambrado
é a tela de um viveiro
onde te fazes prisioneiro.
se driblas, és um mágico
a liberar os muitos pássaros
do teu nome
enquanto os cartolas dão tratos à bola
e te fintam fora do gramado.
hoje, onde o pássaro que foste?
no ar entre aéreo e sonado
com que desfilas as tuas penas
na alegoria de um carro?"