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Conde da Boa Vista: A sociedade recifense se encontrava aqui

Edificações da década de 1960 do trecho inicial da avenida, entre as ruas da Aurora e do Hospício, exibem os primeiros traços da arquitetura moderna no local

TEXTO MARCELO ROBALINHO
FOTOS ISABELLA VALE

01 de Abril de 2011

Foto Isabella Vale

[conteúdo vinculado à reportagem de "Pernambucanas" | ed. 124 | abril 2011]

O Pirapama integra um conjunto arquitetônico
especial do centro do Recife, segundo os especialistas, juntamente com outros edifícios importantes, a exemplo do Duarte Coelho, sede do tradicional cinema São Luiz, e do Santa Rita, outro projeto do arquiteto Delfim Amorim – o primeiro a ter caixas de ar condicionado na sua composição. Os três prédios estão situados no primeiro trecho da Avenida Conde da Boa Vista, que vai da Rua da Aurora à Rua do Hospício, esta, denominada Rua Formosa, até o século 19.

“A Conde da Boa Vista formava um eixo importante com a Avenida Guararapes, que era um lugar fabuloso e teve o seu auge nos anos 1940 e 1950, sendo considerado o ‘lugar quente’ da época para a sociedade recifense. Com a decadência da Guararapes, entre os anos 1960 e 1970, vem a expansão do Bairro da Boa Vista, que é quando surge o Pirapama, e a Conde da Boa Vista assume um lugar de destaque. É nesse momento que a arquitetura moderna vai se instalar na avenida, no lugar dos antigos sobrados. Ora com características qualificadas, como é o caso do Pirapama, ora com edifícios com sacadas e balcões de alvenaria, muito comuns no Rio de Janeiro, como se fossem asas de avião, a exemplo do prédio do Clube Náutico Capibaribe”, explica o arquiteto José Luiz Mota Menezes, vice-presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.

Para o professor da UFPE Luiz Amorim, esse primeiro intervalo da avenida requer atenção, especialmente pela qualidade das construções existentes. “Esse trecho representa um tecido urbano bem-definido, com uma arquitetura muito clara do período em que foram construídos e certa unidade entre as edificações, da mesma forma que a Guararapes tem uma unidade própria. Então, é uma área que merece tratamento cuidadoso. Inclusive, não é qualquer profissional que pode intervir nas edificações. Caso contrário, a gente corre o risco de perder esse patrimônio”, afirma o arquiteto.

Ele recorda que, nos anos 1980, Abrahão Sanovicz, um arquiteto paulista já falecido, foi contratado pelo Banespa para fazer o projeto da sede do banco na esquina oposta ao Edifício Pirapama, entre a Conde da Boa Vista e a Rua do Hospício, onde hoje funciona uma galeria com lojas e farmácia. “Quando Abrahão veio ao Recife, conhecer de perto o terreno, viu o Pirapama e ficou impressionado com a qualidade do projeto. Ele procurou saber quem era o responsável pela concepção do edifício e, no seu projeto arquitetônico, buscou travar um diálogo entre o Pirapama e a sede do Banespa. Então, aquela superfície ondulada do extinto Banespa, ainda existente na atual galeria, foi concebida como um grande painel artístico de tijolo aparente, feito mais ou menos na mesma escala e relação da massa horizontal do edifício projetado por Delfim Amorim”, relembra Luiz, que conheceu Abrahão nessa época.

BECO DA FOME
Por trás do Pirapama, outro local que fez história nas últimas décadas foi o Beco da Fome, que reúne parte dos bares do térreo do prédio. “O lugar possui esse nome porque aqui era um conhecido ponto para comercializar lanches e comidas mais baratas. Era cheio de estudantes de escolas e faculdades da região. Eles falavam: ‘Vamos lá naquele lugar que mata a fome’. A partir disso, pelo que sei, as pessoas batizaram aqui de Beco da Fome”, relata Vera Lúcia de Farias, proprietária do Bar do Timão, conhecido por reunir os torcedores do time do Corinthians em Pernambuco. Criado em 1993 pelo seu falecido marido, Fernando Gomes de Farias, o bar viveu sua fase áurea nos anos 1990, quando o Beco era cheio, congregando artistas e boêmios.

“O Beco era uma loucura de tanta gente. Às vezes, chegávamos às 10 da manhã e já havia gente esperando para que abríssemos o bar. O local era muito animado. Tinha jornalistas, advogados, poetas, escritores, hippies e andarilhos”, relembra Elma de Lima, funcionária do Bar do Timão, desde 1994.


Hoje, o Beco da Fome contabiliza uma perda de mais de 50% do movimento devido à concorrência com os ambulantes, afirmam os comerciantes

Na opinião de Vera, o movimento começou a cair depois que a Rua Sete de Setembro foi liberada para o comércio de camelôs, nos anos 2000. “Começamos a perder a clientela porque os ambulantes vendiam tudo mais barato, além do que a área ficava uma sujeira. Quando era vivo, meu marido foi ameaçado de morte por denunciar o problema na imprensa”, comenta Vera. Atualmente, ela contabiliza uma queda no movimento de mais de 50%. “Estamos junto à prefeitura pleiteando melhorias para o local.”

Alheios a isso, alguns clientes se mantêm fiéis ao lugar. O pesquisador Sérgio Gonçalves, 44, por exemplo, é frequentador do Beco há 10 anos. “Sempre venho aqui de três a quatro vezes por semana para um happy hour. Como trabalho entre o Centro e o Bairro de Campo Grande, aproveito para encontrar os amigos, beber uma cerveja e colocar o papo em dia. Antigamente, o submundo rolava aqui, sendo tradicional por congregar pessoas de todas as tribos. Hoje, ainda tem de tudo, mas o local ficou menos politizado, porque os intelectuais não estão vindo mais.”

De acordo com o arquiteto Luiz Amorim, o Beco da Fome fazia parte originalmente do terreno do Pirapama, sendo uma área privativa, e que foi concebida como uma parte complementar ao edifício. “Pelo projeto, haveria lojas voltadas para a Conde da Boa Vista e lojas voltadas para essa rua privativa, que depois João Cleofas doou para a cidade. Não era uma rua fechada, mas fazia parte do terreno. Ele doou porque comprou os terrenos de trás e ali construiu o Edifício João Murilo, também conhecido como Pirapaminha, um outro projeto do Delfim Amorim, mais singelo que o Pirapama e com salas menores, mas com algumas semelhanças”, explica..  

MARCELO ROBALINHO, jornalista e doutorando em Comunicação em Saúde na Fiocruz.
ISABELLA VALE, fotógrafa.

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