BUHR mantém a chama do caos urbano em Feixe de fogo
Álbum foi gravado em diferentes cidades brasileiras, como Fortaleza, Sobral, Salvador, São Paulo e Recife, trazendo em sua sonoridade a marca da criação coletiva
TEXTO Yuri Euzébio
30 de Junho de 2026
Foto Priscilla Buhr/Divulgação
Sete anos após Desmanche (2019), seu último álbum, e cerca de um ano da decisão de passar a assumir o sobrenome como sua identidade de pessoa não-binária, a cantora, compositora e instrumentista BUHR lança Feixe de fogo, quinto álbum solo de estúdio.
"Eu corro em cima da brasa acesa / No medo onde ninguém mergulha”, dizem os versos iniciais da faixa título, que abre a produção, e sintetiza muito da carreira de BUHR, artista destemida, que não tem amarras e nem medo de mergulhar de cabeça em sua visão e naquilo em que acredita. Composto por onze faixas autorais, Feixe de fogo sai pelo selo Sound Department e foi gravado em diferentes cidades brasileiras, como Fortaleza (CE), Sobral (CE), Salvador (BA), São Paulo (SP) e Recife (PE).
"'Feixe de fogo' foi a primeira música desse disco, a que deu a largada nesse processo, foi feita do jeito que é o meu de fazer, cantando e tocando um tambor", conta BUHR. "A ideia de um fogo aceso acompanhou toda a criação do álbum, pela estrada entre cidades e estradas subjetivas, de aeroportos, rodoviárias, vans e BRs multidimensionais. Foi sempre uma fogueira, um lampião, um isqueiro, uma lanterna mantendo o calor e guiando, pelos dois anos de criações e gravações”, complementa.
O álbum utiliza elementos do rock, música percussiva e reggae mesclados a sintetizadores e samples. A direção artística e a produção musical são assinadas por BUHR e Rami Freitas. É um trabalho urbano, que versa sobre estar em movimento, deslocamentos, temporalidades e tensiona à rigidez das fronteiras geográficas, temporais e cronológicas. Nasce de uma artista em pleno movimento dentro do caos de diferentes cidades.
“Eu estava com algumas letras e músicas novas e fazendo outras pensando no disco novo e convidei Rami Freitas para produzir junto comigo. A partir daí a gente foi pensando junto nas instrumentações, nos arranjos, em quem convidar, sempre dando uma direção, mas também deixando espaço para cada pessoa que chegou junto colocar suas ideias, suas personalidades nos arranjos”, afirmou.
De acordo com a cantora, seu processo de identificação como pessoa não binária veio bem antes do álbum, mas a ideia de tornar isso público aconteceu durante a realização de Feixe de fogo. “Essa necessidade de tornar isso público veio porque passei a ver também como um processo coletivo, esse de descobrir novas palavras pro que sempre esteve ali e também descobrir os caminhos de outras pessoas e se reconhecer neles, foi sim durante as gravações e a finalização do disco. Isso tudo influenciou também o tempo do disco e atuou nele fortemente. A decisão de tirar o Karina e passar a ser BUHR é uma parte importante de Feixe de Fogo”, explica.
Foi em um anúncio simples no Instagram, no dia 7 de agosto de 2025, que a artista informou que a partir dali gostaria de ser chamada por BUHR. Simples assim, sem muita justificativa. Quatro letras e um som, feito barulho de fantasma.
Ainda nesse sentido, BUHR detalha que sua condição sempre esteve posta, mesmo quando ainda não tinha a palavra para isso na língua. “Essa é uma questão da minha constituição, de quem eu sou, não é algo que passou a existir quando tornei público. Na música 'Eu sou um monstro', do disco Selvática (2015), eu já falava sobre isso. Inclusive a capa de Selvática, que foi muito propagada pela imprensa com 'artista exibe os seios', 'artista exibe o torso nu', 'cantora mostra as tetas'...Eu não estava exibindo nada, mostrando nada, eu só estava sem camisa. Talvez seja muito difícil, provavelmente impossível, um homem cis entender que existem pessoas que simplesmente nunca sentiram a liberdade imensa de tirar a camisa em público”, disse.
BUHR explica que só agora sentiu-se pronta para tornar público algo que sempre fez parte de sua identidade. “Agora me sinto talvez mais inteira, livre de melindres que sempre me atrapalharam na vida, no trabalho, que sempre me subjugaram. Isso aconteceu aos 51 anos, veja bem, o tanto de tempo que fiquei amordaçada pela violência machista, sem o direito de respirar publicamente do jeito que me é natural. A poesia, a música, o teatro sempre foram e seguem sendo minha força, onde eu sempre pude viver fora dessas rédeas todas do dia a dia”.

Apesar da mudança, a artista mantém nas plataformas digitais todas as suas obras com o nome em que foram gravadas. “Fiz questão de deixar os discos com as capas originais que foram lançadas, porque é o que já foi, está feito e não faz sentido pra mim editar agora. Isso inclusive me prejudicou em algumas plataformas, em que existe a regra de ter que editar o nome nas capas antigas, sob a punição de ficar com dois canais diferentes, um 'BUHR' e outro 'Karina Buhr', como se fossem duas artistas diferentes, e isso dificultar várias coisas no caminho desse disco e dos outros. Mas, sinto muito, não vou mudar isso e se querem me deixar com dois perfis e me prejudicar, que façam, não vou mudar”, explicou.
“Tenho 30 anos de história com o nome Karina Buhr e já me apagaram de várias formas boa parte deles, faço questão de seguir ali onde estive, no caminho tortuoso que me trouxe aqui e celebrar que cheguei aqui, seja lá onde for, mas consegui, apesar de todos os boicotes misóginos, seguir vivendo da minha arte. Essa efemeridade do digital não mexe no que fiz antes porque está feito, lembrando que comecei a tocar quando mulher não podia tocar tambor na maioria dos lugares, toda hora eu ouvia absurdos que visavam minar minha vontade de seguir tocando, eu criava músicas com homens e não era creditada, me tratavam como enfeite e não como criadora”, arrematou.
As canções de Feixe de fogo nasceram das experiências de BUHR entre deslocamentos, atravessando cidades. “As faixas foram ganhando forma aos poucos e ao mesmo tempo, sob o domínio do ritmo das viagens e de cada pessoa que tocou e de como eu e Rami mexíamos nesse material depois das gravações. Rami editou muita coisa, criou muitas camadas, mergulhou na experimentação de timbres e texturas e gravou muitos synths e guitarras, além de todas as baterias do disco”.
“O jeito de gravar também foi diferente em cada lugar e cada música. A maioria das músicas tem gravações feitas em todas essas cidades. Diferente de todos os meus outros discos, onde uma banda só gravou todas as faixas, e muitas vezes vários instrumentos ao mesmo tempo, às vezes até a voz, em Feixe de Fogo muda bastante a formação de uma pra outra.”
O disco foi desenvolvido em cinco cidades diferentes do país - Recife (PE), São Paulo (SP), Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Sobral (CE) -, e traz, em sua sonoridade, os locais, as pessoas e a presença da artista nesta construção coletiva. As faixas de Feixe de Fogo extrapolam rótulos e gêneros. Contudo, existe uma homogeneidade na potência dos ritmos e da poesia oral característicos de BUHR.
Entre as parcerias, a cantora trans Moon Kenzo, voz de Sobral (CE) em “70 cigarros”, a cantora baiana Josyara, a percussionista Negadeza cantam e tocam na faixa “Oxê”, Russo Passapusso participa nos vocais e na coprodução da faixa “Desmotivacional”. O repertório também conta com contribuições de nomes como Edgard Scandurra, Fernando Catatau, Arto Lindsay, Maestro Ubiratan Marques e Dadi. A capa tem foto de Priscilla Buhr, direção de criação e design de Guile Farias e direção de arte de biarritzzz.
Feixe de fogo é a continuação da relação umbilical entre a artista e as manifestações da cultura popular. Baiana de Salvador, foi no Recife que BUHR se encontrou e desenvolveu as linguagens artísticas que se fizeram presente em todas as produções. “Minha escola principal foi e é o Carnaval e as manifestações de rua de Pernambuco e, mais especificamente, o Maracatu Piaba de Ouro, de Mestre Salustiano e o Maracatu Estrela Brilhante do Recife. Só pude tocar tambor porque Mestre Walter França me acolheu e me estimulou, a mim e também a Cristina Barbosa, Virgínia Barbosa e Neide Alves, minhas companheiras de baque, numa época em que não tinha uma placa de 'proibido mulher no tambor', mas era”, contou.
“Fui pra muito cavalo marinho em Condado, Chã de Camará e Chã do Esconso em Aliança, Itambé, Nazaré. Aprendendo na convivência com mestres como Biu Roque, Mané Roque, Mestre Inácio, Grimário, Manoelzinho Salustiano, Maciel Salu. Minha primeira música, 'Sibito Baleado', fiz em uma rabeca de Mané Pitunga. Minha segunda música, 'O Trem', que gravei com a Comadre Florzinha, é um cavalo marinho. Feixe de fogo é a continuidade de todas essas vivências.”
Não à toa, a artista fez questão de que a turnê de Feixe de fogo iniciasse no Recife no último dia 24 de abril no Teatro do Parque. “Fiz questão de começar por Recife, porque amo minha cidade, no meio de tantas cidades que também se tornaram minhas de alguma forma, amo o centro do Recife e Feixe de fogo tem muito a ver com isso tudo. Fiz questão de que todo material visual também fosse feito no Recife, com equipe toda também da cidade”, concluiu firme, como parece ser de seu feitio tanto na arte, quanto na vida.