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Bienal: A emersão de Istambul

Evento consolida força da metrópole turca e convida o visitante a desvendar o mapa da cidade, do gueto à praia

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Fevereiro de 2016

Conjunto de esculturas do argentino Adrián Villar Rojas foi um dos símbolos da 14ª Bienal de Istambul

Conjunto de esculturas do argentino Adrián Villar Rojas foi um dos símbolos da 14ª Bienal de Istambul

Foto Jorge Baumann/Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem especial | ed. 281 | fev 2016]

Visitar a Bienal de Istambul é como reviver
as impressões do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880) sobre a cidade turca, que segue exercendo fascínio em orientais e ocidentais. Não estamos mais no século 19, mas era na Istambul dessa época que o autor de Madame Bovary se encontrava, quando registrou, em cartas, o quanto “ficou impressionado com a variedade da vida de suas ruas fervilhantes”. Assim conta Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura, em seu livro de memórias Istambul. De acordo com o turco, Flaubert “profetizava que dali a um século a cidade seria a capital do mundo”. Pamuk lembra que com Istambul – cujo posto de capital da Turquia foi perdido para Ancara nos anos 1920 – aconteceu o contrário: “Depois do colapso do Império Otomano (em 1922), o mundo quase chegou a esquecer-se da existência de Istambul”, tida pelo autor como um lugar pobre, triste e acanhado naquele período.

A antiga Constantinopla, que já esteve sob o comando dos Império Bizantino e do Otomano, não chegou a tanto quanto imaginou Flaubert, nem permaneceu no ostracismo descrito por Pamuk. Mas está entre as maiores e mais visitadas urbes do mundo, sendo uma metrópole plena de efervescência cultural, mesmo com sua tendência ao conservadorismo político, social e religioso, que também dá sua carga de tinta nessa terra de contrastes. Afinal, vida é o que não falta no maior centro urbano da Turquia, com seus mais de 15 milhões de habitantes e sua vocação para ser ponto de encontro entre artistas turcos e de inúmeras partes do mundo. Daí porque não ser à toa a força dessa bienal, de sua arte e da cidade como um todo.


Trabalho de artistas e não artistas foram expostos na área conceitual da exposição da bienal no Istanbul Modern. Foto: Sahir Ugur Eren

Andar pelo circuito expositivo da Bienal de Istambul é, no mínimo, uma aventura instigante e curiosa sobre a qual Flaubert certamente teria escrito, se chance houvesse tido. Pelo menos em 2015, na 14ª edição da mostra, com curadoria de Carolyn Christov-Bakargiev (conhecida por sua ousadia e competência), essa constatação não foi mera alegoria – certamente para boa parte do público que a visitou. Imagine definir o tracejo complexo da geografia de Istambul, cortada por águas, povos, paisagens, transportes, espaços e vias de toda natureza, como o palco difuso de uma bienal que exigiu, no mínimo, tempo e disposição de seus visitantes. E, aqui, as palavras são um testemunho pessoal disso.

O resultado certamente desafia qualquer realização cultural minimamente organizada. “A 14ª edição foi uma das mais dispersas exposições na história da Bienal de Istambul: 36 locais em diferentes partes da cidade foram utilizados, incluindo espaços transitórios na terra e na água”, atesta Bige Örer, diretora do evento. Além de se concentrar no Istanbul Modern, com uma grande mostra representativa, a bienal se espalhou por galerias, museus, espaços culturais e casas abadonadas. Seu circuito incluiu também locais de difícil acesso a quem não domina o idioma turco e o mapa da cidade, como uma antiga casa de banhos (a Küçük Mustafa Paşa Hamamı), no Bairro de Fatih, onde instalações e um vídeo de animação do egípcio Wael Shawky foram expostos. Realmente impressionante, para não dizer estonteante. Não só pelo trabalho artístico ou pela arquitetura da tradicional casa de banhos, hoje desativada, mas pela experiência de caminhar por Fatih, um local mulçumano da cabeça aos pés – literalmente.


Hoje desativada, antiga casa de banhos do Bairro de Fatih recebeu obra do artista egípcio Wael Shawsky. Foto: Divulgação

Só percorrer o bairro, localizado na parte antiga, já é uma experiência de fruição para o visitante estrangeiro com curiosidade minimamente aguçada. Para as que não usam véu, bem dizer uma presença de atitude performática. Para quem gosta de observar a cidade de dentro, simplesmente uma coleção de memórias visuais, com direito a cenas típicas de homens reunidos para tomar chá e jogar gamão na esquina; crianças brincando na rua, em frente às suas casas modestas de madeira; e mulçumanas estendendo roupa no varal ou simplesmente olhando as vitrines de lojas que vendem exclusivamente roupas para cobrir o corpo todo. Não por acaso, a artista Nilbar Güreş já havia escolhido o bairro como local para um de seus trabalhos de performance, no qual se veste de noiva-lutadora de boxe, nos moldes ocidentais, e vai à praça “guerrear”.

POR ÁGUA
Saindo de Fatih, um dos pontos mais inusitados da 14ª bienal estava a uma hora e meia de barco de Istambul, em direção à parte asiática, na região metropolitana. Deslizando pelo Bósforo, era possível ao visitante vivenciar, literalmente, a proposta da mostra, cujo tema, em 2015, foi Água salgada (tuzlu su, em turco). Como sabemos, Istambul é atravessada por esse estreito, que liga o Mar de Mármara ao Mar Negro, marcando o encontro entre a Europa e a Ásia. Em direção à ilha de Büyükada, o percurso já era, em si, também uma visita. Ao ronco do motor, nós, passageiros, éramos acompanhados por gaivotas atrás de comida, enquanto o barco cortava as águas verdes acinzentadas de um percurso que ia, aos poucos, deixando para trás a composição de mesquitas e prédios tão característica de Istambul.


Diretora da bienal Bige Öser posa ao lado da curadora Carolyn
Christov-Bakargiev, responsável pal concepção da última mostra.
Foto: Ilgin Erarslan Yamaz/Divulgação

Chegando à ilha, onde não circulam carros, apenas charretes e bicicletas, a bienal entregava seu desafio ao público: percorrer sete pontos a pé, passando por prédios históricos, como o Hotel Splendid Palas (cenário de cinema), até a casa onde se exilou o intelectual comunista Leon Trotsky, entre 1929 e 1933. Neste final do percurso, o portão das ruínas de seu antigo lar abria-se à praia e a fruição culminava no encontro do espectador com um conjunto de 29 esculturas realistas fantásticas de animais emergindo do mar: a obra The most beautiful of all mothers (A mais bonita de todas as mães, em livre tradução), do artista argentino Adrián Villar Rojas. “Animais encarando a casa (…) como se estivessem esperando alguém – talvez o fantasma de Trotsky, talvez nós, visitantes da exposição – aparecer... Talvez esses animais emergindo como zumbis ou monstros do mar, em retorno de onde todos nós viemos, o caldo primordial da vida, sejam os últimos habitantes da Terra que voltaram, num futuro imaginário, para assombrar e reclamar a terra depois das catástrofes da Anthropocene (“era” definida para demarcar a intervenção humana no planeta a partir da Revolução Industrial)”, escreveu a curadora Carolyn Christov-Bakargiev, para o texto do catálogo da 14ª edição, referindo-se a girafas, elefante, rinoceronte, gorila, bois e outras espécies feitas de diferentes materiais, incluindo lixo orgânico.

Apesar de a ilha de Büyükada ter sido a “menina dos olhos” de Carolyn, foi no Istanbul Modern que concentrou sua proposta curatorial, encarada por ela como um rascunho possível no qual artistas e não artistas dividiram o mesmo espaço. Talvez por ser este um lugar estratégico, com seus 8 mil m² de área e 5,5 milhões de visitas acumuladas desde a sua inauguração, em 2004. Situado no Bairro de Beyoğlu, com vista para o Bósforo, o Istanbul Modern abrigou, na mostra, tanto trabalhos de nomes contemporâneos – como uma instalação da artista turca Aslı Çavuşoğlu e uma pintura do brasileiro Cildo Meireles (Projeto de buraco para jogar políticos desonestos, de 2011) –, quanto obras dos consagrados artistas – caso dos italianos Fabio Mauri e Giuseppe Pellizza da Volpedo, este último conhecido pela tela Il quarto stato, cuja imagem de trabalhadores camponeses em marcha ativa se tornou ícone do comunismo. No espaço, a curadora inseriu, ainda, particularmente em uma área chamada O canal, estudos de botânica de Charles Darwin, projetos dos jardins verticais do paisagista Patrick Blanc e até desenhos do escritor Orhan Pamuk, feitos em seu caderno de anotações. Fora do canal, uma das salas centrais da mostra chamava a atenção para esculturas do libanês Marwan Rechmaoui. Restos de edifícios bombardeados erguiam suas peças da série Pillar, levando à exposição questões inevitavelmente presentes entre artistas de países “em desenvolvimento”: os conflitos sociais, o crescimento urbano, o lugar das minorias. Outro ganho desse percurso sem fim, para toda a vida. 

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