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'Trilogia Vermelha': Em cena, pedagogia da libertação

Espetáculo sobre Paulo Freire, segunda peça da pesquisa que aborda três figuras históricas do país, reflete sobre o papel da educação no Brasil

TEXTO Ulysses Gadêlha

01 de Janeiro de 2016

Os atores em cena interpretam o educador pernambucano Paulo Freire

Os atores em cena interpretam o educador pernambucano Paulo Freire

Foto Diego Di Niglio

“Desde o início do novo milênio, o teatro está, novamente, assumindo o mundo”, afirma o professor de estudos teatrais da University of Kent (ING), Patrice Davis. Em seus textos, ele redefine o teatro político como uma peça documental que interage com a realidade. Essa é uma das vertentes do trabalho realizado por Júnior Aguiar, na Trilogia vermelha, que engloba três espetáculos sobre personalidades políticas do Brasil: h(EU)stória – O tempo em transe, sobre o cineasta Glauber Rocha; pa(IDEIA) – Pedagogia da libertação, sobre o educador Paulo Freire; e pro(FÉ)ta – O bispo do povo, sobre Dom Helder Câmara. A primeira montagem, h(EU)stória, ocorreu em 2014, no Teatro do Arraial. Neste mês de janeiro, os coletivos Grão Comum e Gota Serena apresentam o espetáculo pa(IDEIA).

A encenação aborda os 70 dias da prisão do educador pernambucano Paulo Freire no Recife, após o golpe de 1964. Relata o exílio do professor por 16 anos pela América Latina, Europa e África, e narra suas experiências como secretário de Educação da cidade de São Paulo. Estão no elenco os atores Daniel Barros, Júnior Aguiar e Márcio Fecher. A pesquisa, a encenação, o roteiro e a iluminação também são assinados por Aguiar, que idealizou o projeto e tem a figura do cineasta Jomard Muniz de Britto como inspiração. “Nossa pesquisa e nossa dramaturgia alertam recorrentemente que a educação é um instrumento essencial na transformação da humanidade”, afirma o realizador, sobre o espetáculo pa(IDEIA) – Pedagogia da libertação. “Cabe ao teatro trazer para os palcos a reveladora história da educação brasileira, por séculos relegada ao segundo plano e, por décadas, escamoteada”, completa.

“A cor vermelha simboliza a luta diária do coração humano em abrigar os sentimentos mais vivos da humanidade, como o amor, a paixão e a ira. Queremos o vermelho como conceito, como forma e conteúdo, como tema e argumento dos nossos desejos mais inflamados, simbolizando um estado de criação latente por abrigar ‘verdades desconcertantes’ que necessitam ser amplificadas”, refere-se Aguiar. Para o realizador, a trilogia contribui para um aprofundamento da cena contemporânea entre ator e espectador, estabelecendo diálogos diretos e tonificados sobre a realidade que nos constitui nessa coexistência.

“Ao promover a aproximação temática entre arte, educação e religião de forma dialética, criamos espaços para exercitar, como atores criadores, a teatralidade desses discursos dissonantes que tanto nos interessa na atualidade”, esclarece.

Além da trilogia, outro espetáculo político que ganhou repercussão no estado foi o solo Soledad – A terra é fogo sob nossos pés, de Hilda Torres e Malú Bazán. Soledad Barrett Viedma, guerrilheira assassinada pela agressiva ditadura militar brasileira, é revivida por Hilda, mesclando política e vida pessoal da paraguaia. Em consonância com a Trilogia vermelha, Soledad confronta a conjuntura política atual com movimentos pedindo a volta da ditadura militar ou gritando “chega de Paulo Freire”. Assim, a realidade provoca os realizadores a fazer essa reflexão simbólica.

“Esses reencontros com o real levam-nos de volta à política por caminhos muito diferentes daqueles de outrora; não mais como agitprops ou grandes painéis históricos, mas por meio de formas concretas: investigações de campo, montagem de citações usadas literalmente, debates sociopolíticos dentro da representação”, caracteriza o professor Patrice Davis. 

ULYSSES GADÊLHA, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

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