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Virtuosi: poucos recursos, grande repertório

Festival chega à 27ª edição oferecendo uma programação de câmara de alto nível, que une jovens talentos nacionais a solistas mundialmente premiados

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

16 de Abril de 2026

Vasco Dantas, Gabriele Leite, Rafaell Altino, Adriane Queiroz e Nilson Galvão Jr são algumas das atrações dessa edição

Vasco Dantas, Gabriele Leite, Rafaell Altino, Adriane Queiroz e Nilson Galvão Jr são algumas das atrações dessa edição

Foto Leopoldo Conrado Nunes

Estreado em 1998, o Virtuosi — atualmente denominado Virtuosi Rafael Garcia, em memória ao seu fundador — começou como um festival de música de câmara de três noites de duração, no Teatro da UFPE. Em menos de uma década, havia-se expandido de tal forma que as atrações camerísticas passaram a dividir espaço com récitas operísticas em versão concertante e repertório sinfônico de ponta, estrelando lendários solistas da Europa, Ásia e Américas e uma orquestra formada pelos cameristas que protagonizavam os demais concertos.

Após a pandemia, a alta do dólar e o estancamento do teto de recursos disponibilizados por editais culturais e entes governamentais (quando não o corte, por parte destes) brecaram essa expansão, de modo que o número de concertos do Virtuosi se reduziu ao patamar original. Porém, a qualidade artística se mantém inalterada, como confirmam as atrações já divulgadas na Continente.

A primeira delas se apresentou, ontem (15) à tardezinha, em um palco montado na Av. Rio Branco, no bairro do Recife: a violonista paulista Gabriele Leite. Natural de Cerquilho, localizada entre as cidades de Tietê e Tatuí, Gabriele reside em Nova York, onde faz doutorado, e já lançou dois álbuns. O segundo deles, Gunûncho, que evidencia composições de sua autoria, veio a público em novembro passado e recebeu destaque neste site.

Gabriele, que volta à cena hoje à noite (16), no Teatro de Santa Isabel, estudou dos sete aos 12 anos no Projeto Guri, o maior programa de educação musical do país, em funcionamento desde 1995 e constituído por mais de 600 polos em 400 municípios do estado de São Paulo.

De lá, a instrumentista passou ao Conservatório de Tatuí, o maior da América Latina, no qual se aperfeiçoou por mais cinco anos, e por fim rumou para a capital, a fim de se graduar pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ou seja, além de exímia violonista, Gabriele se transformou em símbolo da inclusão que os projetos sociais e o sistema público de ensino visam a promover.

QUINTA-FEIRA (16)
No Santa Isabel, Gabriele retoma composições tocadas ontem e se junta ao violista Rafaell Altino para interpretar uma adaptação de A história do tango, de Astor Piazzolla. Logo em seguida, Rafaell — filho de Rafael Garcia e de Ana Lúcia Altino, diretora artística do Virtuosi Rafael Garcia — fará duo com o pianista português Vasco Dantas, executando sonatas de César Franck e Sergei Rachmaninov.

Enquanto Rafaell, radicado na Dinamarca, é presença obrigatória no Virtuosi, Gabriele e Vasco — residente no Porto e vindo ao Recife direto de Joanesburgo, na África do Sul — estreiam em dueto em Pernambuco lastreados, é verdade, pelos seus respectivos currículos (que acumulam tantas premiações a ponto de decidirmos não as enumerar ou pinçar as principais dentre elas nesta matéria), mas selecionados por Ana Lúcia graças a uma antiga, e talvez a mais importante, ferramenta profissional: o networking.

Gabriele é agenciada pelo produtor cultural, empresário artístico e documentarista recifense Geraldinho Magalhães. Por sua vez, Vasco tomou conhecimento do Virtuosi por meio da pianista e soprano britano-canadense Rachel Fenlon — atração da edição anterior do festival, em dezembro de 2024 quando interpretou (cantando e tocando) a integral do ciclo de canções Winterreise (Viagem de inverno), de Franz Schubert.

SEXTA E SÁBADO
Vasco e Rafaell participam ainda do recital de sexta-feira (17) à noite, desta vez com repertórios separados. Primeiro, Rafaell interpreta três sonatas de Brahms, acompanhado ao piano por sua mãe: as de número de opus 38, 78 e 120 (esta, original para viola; as duas primeiras, adaptadas das originais para violoncelo e violino, respectivamente).

Depois, Vasco traz um instigante programa, intitulado Fados, folias e outras danças portuguesas, em que reúne obras de compositores nacionalistas lusitanos nunca tocados em Pernambuco, como Alexandre Rey Colaço e José Vianna da Motta, fechando-as com uma de Rachmaninov. Algumas das peças portuguesas fazem parte do álbum Poetic scenes (2020), lançado durante a pandemia.

Já na noite de encerramento, no sábado (18), a soprano paraense Adriane Queiroz, integrante do elenco permanente da Ópera Estatal de Berlim desde 2002, se apresenta com a Orquestra Jovem de Pernambuco (Ojope), sob direção do maestro Nilson Galvão Jr. — que já traça planos para a aposentadoria do violoncelo, com o objetivo de se dedicar integralmente à regência. O programa consta de árias de diversas escolas operísticas, cantadas em francês, italiano, tcheco, alemão e espanhol, com adaptações escritas pelo compositor paraibano Carlos Anisio para acompanhamento de orquestra de cordas.

NOVA GERAÇÃO
Ainda não havíamos mencionado que a abertura dos três concertos no Santa Isabel ficará a cargo de jovens talentos brasileiros selecionados via redes sociais. Hoje, sobe ao palco a flautista Sabrina dos Santos, professora do Conservatório Pernambucano de Música, acompanhada pelo pianista Luis Felipe Oliveira, natural de Gravatá e produtor em ascensão de eventos de música clássica no estado.

Amanhã, será a vez do ipojucano Matheus Cabral, grande revelação da classe de contrabaixos da Orquestra Criança Cidadã no núcleo que o projeto social mantém no distrito de Camela desde 2014. Por fim, no sábado, a soteropolitana Aline Casado, filha do pianista pernambucano Alexandre Casado, mostrará por que já venceu concursos pianísticos em três continentes antes mesmo de completar 18 anos.

Ao abrir uma convocatória via Instagram, a expectativa de Ana Lúcia Altino era alcançar apenas instrumentistas pernambucanos. No entanto, houve mais de 30 inscrições de todo o país. “O que faz um menino se inscrever em um negócio em que só vai tocar 20 minutos, no máximo, e nem a passagem é paga?”, surpreende-se a diretora artística, para então avaliar: “Uma, é que o Virtuosi é reconhecido, senão as pessoas não queriam tocar no Virtuosi, no Teatro de Santa Isabel; segundo, é a falta de palco para jovens músicos”.

REDUÇÃO
De fato, fora dos principais centros de ensino musical, continuam a ser raros os espaços — inatos ou adaptados — em condições de receber recitais em uma capital com tradição cultural de mais de três séculos (e são menos os que dispõem de um piano). Alguns templos de denominações protestantes e instituições culturais ligadas a outras artes, afortunadamente, impedem que esse dado se torne mais dramático e desolador.

Mais ainda: novos programas voltados à música clássica não vêm encontrando acolhida sequer em editais de rádios públicas, em um país cuja geração atual acaba de ser descoberta como a que mais ouve esse gênero no mundo. Dado esse contexto, Ana Lúcia prepara mais um desdobramento do Virtuosi, subintitulado Nova Geração, não obstante antevendo a tensão de praxe quanto à captação de patrocínios.

Ana Lúcia Altino, pianista e diretora artística do Virtuosi Rafael Garcia
Foto: Leopoldo Conrado Nunes

Para um evento que já chegou a realizar seis edições em um ano — Brasil, na Serra (em Garanhuns), de Gravatá, Sem Fronteiras, Século XXI e o Virtuosi propriamente dito (mãe de todos os demais) —, e agora se resume a três, que, juntas, se equiparam à quantidade de concertos da edição principal de 2007 (a melhor de todas, por sinal), compreende-se o desalento da pianista e produtora. Isso porque não falamos de outras edições bissextas, como as que tiveram lugar em Belo Jardim, Goiana e em uma turnê por três capitais sul-americanas (Montevidéu, Buenos Aires e Santiago).

Ana Lúcia analisa essa problemática, que mencionamos no início da matéria: “Hoje, uma passagem aérea custa 10 mil, 12 mil reais, para se trazer um artista da Europa. A vida ficou mais cara. A logística ficou muito mais cara do que o artista. No Virtuosi, metade do orçamento agora é para a logística”. E se questiona: “Vendo aquela época, eu me pergunto: ‘Como eu conseguia trazer aquele tanto de gente?’”.

Ela lembra que recebia apoio de governos e universidades, tanto do Brasil quanto do exterior (lembremo-nos, por exemplo, de quantos consulados davam apoio cultural a concertos até certo tempo atrás e quantos dão agora). Com a pandemia, os fomentos minguaram. “Cada Virtuosi é como se fosse o primeiro: eu passo o pires como se fosse o primeiro, como se as pessoas não soubessem que existe o Virtuosi”, lamenta, ressalvando que, ultimamente, o festival tem recebido suporte em nível municipal.

Apesar de tudo, a diretora artística consegue renovar a motivação, no alto de seus quase 82 anos de idade: “Para o público, vale a pena [vencer as dificuldades de captação]”. Portanto, apesar das impossibilidades para formatar uma série de concertos instrumentalmente robusta como dantes, o Virtuosi vem conseguindo sustentar a atitude que o impulsionou há quase três décadas: oferecer, com poucos recursos, um grande repertório.

CARLOS EDUARDO AMARAL, crítico de música clássica, escritor do catálogo da Cepe Editora e compositor, está realizando a cobertura do Virtuosi com exclusividade para a Continente

PROGRAMAÇÃO

XXVII VIRTUOSI RAFAEL GARCIA

MASTERCLASS - Viola e canto
ESCOLA TÉCNICA ESTADUAL DE CRIATIVIDADE MUSICAL
Rua da Aurora, 439 - Boa Vista
Dia 14/4, das 10 às 12h - Viola Rafaell Altino
Dia 16/4, das 10h às 12h - Canto Adriane Queiroz

CONCERTOS
TEATRO DE SANTA ISABEL
Praça da República, s/n, Santo Antônio

Dia 16/4
19h
Sabrina dos Santos, flauta
Luis Felipe de Oliveira, piano

19h30
Gabriele Leite, violão
Participação de Rafaell Altino, viola

20h30
Duo Viola & Piano
Rafaell Altino & Vasco Dantas

Dia 17/4
19h
Matheus Cabral, contrabaixo
Luis Felipe de Oliveira, piano

19h30
Sonatas de Brahms Rafaell & Ana Lucia Altino

20h30
Vasco Dantas, piano  

Dia 18/4
19h30 
Alice Casado, piano

20h
UMA NOITE NA ÓPERA
Adriane Queiroz, soprano
Orquestra Jovem de Pernambuco
Nilson Galvão, regente

SERVIÇO
XXVII VIRTUOSI RAFAEL GARCIA
Concertos no Teatro de Santa Isabel
Masterclass: inscrição gratuita através do https://forms.gle/wJ83sejQfxeJ1b1r7/ 
Informações: (81) 3203-6023 e @virtuosi
Quanto: Entrada franca

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