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“Ombela“ é apresentada no Xambá

Com produção de O Poste Soluções Luminosas, além da atuação de Agrinez Melo e Naná Sodré, espetáculo de teatro autoral tem sessão única gratuita em Olinda, nesta sexta (23/10)

23 de Outubro de 2026

Em Ombela, os elementos da encenação, como cenário, indumentárias, iluminação e maquiagem, recebem um tratamento africano que está dentro da atemporalidade - Dudu Silva (foto)

Em Ombela, os elementos da encenação, como cenário, indumentárias, iluminação e maquiagem, recebem um tratamento africano que está dentro da atemporalidade - Dudu Silva (foto)

Foto Dudu Silva/Divulgação

O espetáculo de teatro “Ombela”, com mais de dez anos de existência, ganha uma apresentação pela primeira vez no quilombo. Nesta sexta-feira (23 de outubro), a peça pernambucana autoral é apresentada no Quilombo Xambá, em Olinda/PE (Rua Severina Paraíso Silva, nº 65 - Bairro São Benedito), às 19h, com entrada gratuita e classificação indicativa a partir dos 16 anos. 

Com produção do grupo e espaço pernambucano O Poste Soluções Luminosas, “Ombela” tem a atuação das atrizes Agrinez Melo e Naná Sodré, ambas protagonistas e mulheres negras ligadas às pautas de gênero e identidade racial. Vale dizer que “Ombela” — palavra africana da língua Umbundo — significa chuva. A peça teatral também reúne textos/poemas do escritor angolano Manuel Rui, atualmente com 81 anos de idade, e da língua Umbundo, a mais falada em Angola. 

A nova apresentação do espetáculo — onde uma chuva ganha corpo, duas gotas ganham voz e uma história atravessa mundos — é fruto do projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, realizado com fomento da Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério da Cultura do Governo Federal.  

“Além de ser interpretada em português, ‘Ombela’ é composta por partes faladas e cantadas na língua banta, falada pelos Ovimbundos das montanhas centrais de Angola. No espetáculo, existe tanto a presença de textos nessa língua como poemas do professor Manuel Rui, um dos principais ficcionistas de Angola, além de dramaturgo e escritor de ensaios, crônicas, poesias, contos, romances e peças teatrais. A montagem também é baseada justamente nos textos dele”, conta a pernambucana Agrinez Melo, natural do Recife. 

Criado em 2014, o espetáculo é composto por indumentárias/vestuário — com concepção artística da própria Agrinez Melo —; cenário, iluminação e toda a encenação, ideias que são realizadas pelo pernambucano Samuel Santos; e pela consultoria/estudos em Antropologia, assumida por Daniele Perin. Além disso, a montagem destaca-se pela composição da trilha sonora, com direção musical da artista pernambucana Isaar, cantora, compositora e musicista do Recife, e preparação musical feita pela artista pernambucana Sumara Ramos, cantora, compositora e arranjadora/preparadora vocal. 

“A encenação contribui para reflexões étnicas a respeito da cultura africana no Brasil, com a poesia como elo de transição entre o mundo real e o mundo mágico. Os elementos da encenação, como cenário, indumentárias, iluminação e maquiagem, recebem um tratamento africano que está dentro da atemporalidade. Ombela está envolta de uma atmosfera mágica, buscando ambientar o tempo espaço num lugar lúdico, sagrado, mas sem ser intocável, pois há abertura para participação do público, pois a encenação busca questionamento social e filosófico do posicionamento humano em relação à continuação de sua espécie e do resgate de sua ancestralidade, utilizando a água como mote, para o desencadear de vários outros temas, com igual importância para a sobrevivência”, destaca Naná Sodré. 

Na peça Ombela, tudo começa com a chuva. Depois de cair sobre a terra, a chuva deixa duas gotas. A sua apresentação/sinopse diz: “A chuva cai sobre a terra e deixa duas gotas que se transformam em entidades de formas variadas absorvidas pelo processo de humanização. Essas gotas começam a representar arquétipos do universo feminino, síntese poética onde a chuva reorienta e transfigura os sentidos da vida”. E continua: “Ao longo da jornada aqui na terra vemos elas tomarem formas variadas absorvidas pelo processo de humanização que passam. ‘Ombela’ transforma a beleza da mulher e nos interroga quem somos nós e para onde vamos”, completa.  

Neste ano de 2026, houve uma sessão de Ombela no Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza/CE (CCBNB Fortaleza), pela Mostra BNB das Artes Cênicas, no mês de março. Já em setembro deste ano, seis apresentações foram realizadas no Espaço O Poste (centro do Recife - bairro da Boa Vista), em temporada pelo projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”.  

A estreia de Ombela ocorreu no Espaço O Poste, em 2014. No ano de 2015, a peça entrou na programação da 20ª edição do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, conquistando o prêmio especial sobre a pesquisa de matriz africana. Em nível Nordeste, no ano de 2019, o espetáculo foi encenado no Festival de Teatro Lusófono (FestLuso), realizado no Theatro 4 de Setembro, em Teresina (Piauí). Já em 2022, a peça foi apresentada internacionalmente, chegando a Portugal, pelo Festival Tanto Mar Apresentações. 

PESQUISAS
Com a Escola O Poste e a encenação de Ombela, o Poste Soluções Luminosas reúne reconhecimentos nacionais, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Vale citar que sobre a obra a Revista USP/SP publicou um artigo intitulado “Ombela: uma cena ancorada no imaginário africano”, escrito por Elton Soares Siqueira. O recorte da pesquisa é feito em cima dos procedimentos estéticos e metodológicos que contribuem para expressar na cena a ancestralidade africana.  

Por conta da pesquisa de Pós-Doutoramento (Horizonte da Cena), o espetáculo “Ombela” e o repertório do grupo compõem o mapeamento nacional de poéticas pretas contemporâneas com o título "Poéticas dos corpos aqui e alhures: afetividades, dramaturgias, narrativas e performances", tendo como foco a cena teatral negra no Recife. A poética de “Ombela” (a chuva) também é analisada diretamente numa dissertação de mestrado, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Essa pesquisa analisa os procedimentos estéticos e a presença da ancestralidade no teatro de grupo, por meio d'O Poste.   

PROJETO
Neste mês de outubro, o circuito acontece gratuitamente pelos terreiros e quilombos de Pernambuco, que começou justamente com a apresentação do espetáculo “Ombela”, no Ilê Axé Oyá Guerê, no bairro de Santo Amaro (Recife), no dia 09/10. Já no último sábado (17/10), o Quilombo dos Camarás, em Camaragibe/PE, recebeu a peça teatral “O Irôko, a Pedra e o Sol” 

Além do espetáculo Ombela e da peça O Irôko, a Pedra e o Sol, A Receita chega ao Ilê Axé Oxum Ipondá, em Olinda, no bairro de Jardim Fragoso, no dia 27/10 (terça-feira), e ao Quilombo da Povoação, no distrito de Tejucupapo, que pertence ao município de Goiana/PE (Zona da Mata Norte), no dia 30/10 (sexta-feira). Todas essas produções teatrais autorais e pernambucanas são assinadas pelo grupo e espaço O Poste Soluções Luminosas.  

SERVIÇO
Ombela (espetáculo de teatro)
Onde: Quilombo Xambá (Rua Severina Paraíso Silva, nº 65, bairro de São Benedito, Olinda/PE) 
Quando: Sexta-feira (23), às 19h
Quanto: Entrada gratuita 
Classificação indicativa: 16 anos de idade

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