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O tempo em estado bruto

Luca Benites faz um movimento em direção ao Recife e sua cena artística trazendo a pergunta que atravessa toda a sua obra: o que fazemos com o tempo que recebemos?

17 de Agosto de 2026

Foto Divulgação

Antes de esculpir, Luca Benites projetava prédios, casas e praças. Formado como arquiteto, passou anos pensando na estrutura, escala e proporção para depois criar peças que não abrigam ninguém, mas que convidam quem passa a parar por um instante. Esse diálogo entre arquitetura e escultura é evidente no seu trabalho. Continua ali, num certo rigor de engenharia por trás de cada obra, na forma como pensa o material, estrutura e lugar antes mesmo de desenhar. É esse olhar, formado numa carreira que pertence a coleções como o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (Rio de Janeiro) e a Fundação Pablo Atchugarry (Punta del Este, Uruguai), por exemplo, que agora se propõe a dialogar com Pernambuco.

Benites descreve sua vinda ao Recife como parte de um movimento de expansão. Depois de mais de 30 anos morando fora do Brasil, com uma trajetória consolidada entre Europa, América Latina e Estados Unidos, com mais de 100 exposições em cidades como Brasília, São Paulo, Barcelona, Xangai, Miami, Copenhague, Xangai, Busan, Barcelona e Madri, o artista tem se dedicado a aproximar seu trabalho de outras regiões do Brasil. Para iniciar essa jornada no Nordeste, ele escolheu a capital pernambucana. Recife vive um momento de crescimento em sua cena de artes visuais, que reúne galerias já estabelecidas e iniciativas mais recentes, como a chegada da Galeria Base, e uma feira de arte consolidada nacionalmente, a Art.PE, que chega este ano a sua quinta edição. 

A primeira dessas conversas acontece de forma discreta. No dia 20 de agosto, o artista participa de um encontro reservado a colecionadores e convidados (cujo host será João Marinho), com talk e apresentação de obras a convite da Galeria Base Recife. O encontro funciona como um primeiro passo da presença que Benites pretende expandir na região.

ARTISTA
Nascido em Brasília, em 1981, Luca Benites é artista e arquiteto integra coleções como o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC Niterói), o parque de esculturas da Fundação Pablo Atchugarry, o MACA, Museu de Arte Contemporâneo Atchugarry, e o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (MACS), além de importantes coleções privadas no Brasil e no exterior. Recentemente, teve sua maior exposição individual em sua cidade natal, Brasília, chamada “AÇO”, no Museu Nacional da República, com curadoria de Marcello Dantas. Vive e trabalha em São Paulo.

Filho de diplomatas, formou-se em arquitetura pela Universidade ORT, no Uruguai, e chegou a manter escritório próprio e a lecionar projeto arquitetônico na Faculdade. Em 2010 trocou Montevidéu por Barcelona para se dedicar por inteiro à arte. A formação técnica, longe de ficar para trás, virou ferramenta central de trabalho. “Quando começo a criar uma obra, não penso apenas na ideia ou na forma. Ao mesmo tempo, imagino como ela será construída, movimentada e instalada. Isso torna o processo muito mais eficiente e me dá autonomia: não dependo de outros profissionais para tomar essas decisões técnicas”, conta o artista, ressaltando a importância de seu conhecimento arquitetônico.

É essa dupla formação que lhe permite assinar esculturas monumentais, algumas com dezenas de toneladas, sem depender inteiramente de terceiros para calcular estabilidade, fundação ou logística de transporte. É também fruto de uma vida vivida em trânsito. Morar na China, Veneza, Miami, Barcelona ou Uruguai deram a Benites uma rede internacional de parceiros, indústrias, fundições e fornecedores que tornam viável produzir uma obra grandiosa em qualquer ponto do planeta.

A FOGUEIRA
Em 2017, numa pequena cidade da Áustria chamada Ebnit, Benites reuniu praticamente tudo o que havia produzido em 20 anos de carreira (pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, maquetes) e ateou fogo. Foram sete horas de queima — 298 obras. O gesto, batizado Projeto Fogo, é o divisor de águas de sua trajetória, mas o próprio artista faz questão de dizer que, naquele momento, sequer sabia o que aquilo significava. “O Projeto Fogo nasceu como projeto artístico, mas se tornou algo muito mais pessoal, um processo de transformação que mudou profundamente minha vida. Percebi que a felicidade não depende de acumular coisas, bens ou conquistas. Ela está muito mais ligada às experiências que vivemos e à capacidade de deixar para trás aquilo que já não faz sentido”, pontua.

O risco vivido ali era real, financeiro e simbólico. Aquelas eram justamente as obras que sustentavam sua carreira até então. Boa parte de seu círculo o via, à época, como alguém prestes a jogar fora quase vinte anos de esforço. Benites discorda até hoje da palavra destruição. Com as cinzas, o artista passou quase dois anos produzindo pouco, dedicado, sobretudo, à escrita e à reflexão, um período de silêncio que precede quase toda virada importante em sua obra. Quando voltou a criar, foi para encapsular aquele material em ampulhetas, pinturas e instalações. O tempo, que já rondava seu trabalho, tornou-se então seu tema mais valioso. 

PLANOS
Vitta, Silêncio, Cronos, Momento, De tempos em tempos, Raízes… são alguns dos títulos de obras que Benites produziu e que funcionam como um glossário pessoal sobre a passagem do tempo. Formalmente, sua produção artística se organiza em sucessões de planos, placas, lâminas, camadas que se sobrepõem em ritmo quase musical, e que o próprio artista associa a unidades de tempo: um plano poderia ser um dia, uma sequência de planos um mês, um ano. “Ao longo dos últimos dez anos venho investigando o tema do tempo sob diferentes perspectivas, escalas e materiais. Existe uma unidade formal que atravessa toda a minha produção: uma estética baseada na sucessão de planos que, ao se relacionarem entre si, constroem as formas e materializam essa reflexão.”

Nos últimos anos, Benites tem se dedicado bastante a obras site-specific, produtos de encomendas, concebidas exclusivamente para um lugar, uma arquitetura, um contexto. Cada projeto nasce de uma leitura profunda do ambiente antes mesmo de qualquer desenho. “A arte é um reflexo do pensamento. Se o pensamento evolui, a forma também precisa evoluir. Não parto da necessidade de repetir uma forma ao longo dos anos, mas dá vontade de desenvolver uma ideia daquele momento específico da minha vida”, completa. Talvez por isso seu trabalho seja mais reconhecido pela reflexão sobre o tempo do que por uma formalização estética fixa.

Uma das obras bem representativas de todo esse processo é “Minha moeda”, peça que nasceu bem no fim daquele hiato pós-Fogo, quase como um agradecimento disfarçado de escultura. Formada por círculos (aço inoxidável) faz uma alusão ao valor das decisões na vida e agradece as conquistas alcançadas. “Foi como se eu tivesse lançado a minha moeda para o universo e perguntado: e agora, vai dar certo ou não? Muita gente dizia que eu estava louco por destruir vinte anos da minha produção. A aquisição pelo  Museu de Arte Contemporânea de Niterói, por exemplo,  foi como se o universo respondesse: você está no caminho certo”.

NORDESTE
A ligação de Benites com Pernambuco não nasceu apenas de um plano de carreira. Surgiu, primeiro, do seu casamento. Sua esposa é pernambucana e, nos últimos três anos, ele já perdeu a conta de quantas vezes veio à cidade. É a partir dessa proximidade cotidiana, e não de um cálculo de mercado, que o artista descreve o que encontra por aqui. “Sempre que vou a Pernambuco, percebo a forma como as pessoas se relacionam com a natureza, com o mar e, principalmente, com o próprio tempo. A vida não é feita só de trabalho, mas também de descanso, de família, sem culpa”.

É esse encontro entre uma pesquisa sobre o tempo e uma cidade que já convive com essa reflexão que Benites espera compartilhar com colecionadores, curadores, jovens artistas e o público em geral. “Mais do que fazer críticas, meu trabalho busca provocar perguntas”, resume. “Quero despertar inquietações sobre o que realmente viemos fazer aqui e como estamos vivendo nossa própria história. No fundo, tudo se resume a uma pergunta muito simples: estamos vivendo ou apenas sobrevivendo?”

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