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Nita Monteiro realiza sua primeira individual no Recife

A exposição Fragmentos de uma história familiar, com curadoria de Paula Borghi, estreia na Christal Galeria na quinta-feira (15)

13 de Outubro de 2026

A artista Nita Monteiro

A artista Nita Monteiro

Foto Jennifer Brito/Divulgação

A Christal Galeria inaugura, na quinta-feira (15), às 19h, Fragmentos de uma história familiar, exposição individual de Nita Monteiro, com curadoria de Paula Borghi. É a primeira individual da artista fluminense no Recife, cuja temática central gira em torno da casa e dos objetos de memória. 

Com visitação segue até 22 de novembro, a mostra reúne trabalhos que investigam memória, família e os vestígios que permanecem quando uma casa e suas histórias se desfazem. São obras em técnica mista, com base têxtil, que combinam costura, bordado, desenho em lápis de cor, colagem, assemblage, mosaico e miçangas, além de uma obra sonora. 

A matéria-prima vem do próprio ambiente doméstico: fragmentos de cabeceiras de cama, azulejos, lustres, espelhos, gavetas, toalhas de mesa e fronhas, que chegam à artista por herança familiar, por presentes de amigos ou garimpados em lojas de usados e mercados de pulgas. “Eu vou coletando coisas, histórias, trechos de livros. Às vezes é uma imagem que eu vi, alguma coisa que alguém me contou, uma história da minha família. Isso vai ficando comigo por algum tempo, até que vira uma obra em algum momento”, comenta a artista.

O ponto de partida da exposição é a obra principal, Casa dos Milagres, construída sobre um lençol de casal vermelho que Nita encontrou e guardou. Nele, uma árvore cresce sobre uma casa em estado de abandono, com fundação de ossos, morcegos pendurados nos galhos e borboletas, enquanto um cupinzeiro, baratas e formigas consomem a estrutura por baixo. A casa funciona também como casa de bonecas, montada com um conjunto de móveis em miniatura que passou por várias mãos até chegar à artista e que reaparece, fragmentado, nas assemblages.

Casa dos Milagres, de Nita Monteiro. Foto: Jennifer Brito/Divulgação

“A árvore, para mim, é esse ser do meio, que sustenta céu e terra. Ela tem uma imagem muito forte, muito bonita de vida, mas também de regeneração e de transformação. A casa está nesse processo de morte, fragmentada, fraturada, ao mesmo tempo que tem muita vida nascendo ali”, explica Nita. O ciclo de vida e morte atravessa toda a mostra, inclusive na escolha dos materiais, objetos abandonados, quebrados ou sem uso, que ganham uma segunda vida nas obras. “Tenho falado cada vez mais sobre o ciclo da vida. Vida, morte e vida. A morte não como um lugar de fim, mas um lugar de regeneração”, completa.

Para a curadora, a escrita de Nita não vem da palavra, mas é têxtil: é com a agulha que a artista conta suas histórias, numa costura que reúne caquinhos em tecidos, desenhos, assemblages e sons. Paula Borghi lê a árvore como árvore genealógica e também como casa, que cresce em direção ao céu enquanto suas raízes avançam para o centro da terra, equilibrando vida e morte num mesmo símbolo.

A expografia se divide em dois espaços. No corredor de entrada, que conduz à sala principal, está a série A rainha e o morcego, formada por quatro assemblages: A primeira noite da rainha e do morcego, A segunda noite, A terceira noite e A quarta noite. No centro de cada uma, uma toalhinha branca antiga recebe um desenho em lápis de cor e bordado de um morcego sugando uma flor, cena inspirada num documentário sobre a migração dos morcegos no México, em que as fêmeas atravessam o deserto para dar à luz do outro lado. Na sala principal, está Casa dos Milagres.

A mostra traz ainda duas fotografias de um álbum de família anônimo dos anos 1970, encontrado pela artista e provavelmente feito na região de Paraty e Angra dos Reis, onde ela cresceu. Uma mostra pessoas num fusca estacionado num lugar chamado Destino; a outra, o pescador de pedras, retrata um homem de costas que lembra o pai da artista quando jovem. “Acho que as pessoas acabam fazendo muito isso no meu trabalho, conectando com as suas próprias memórias e histórias”, diz. Essas obras devem ser exibidas inicialmente na ArtPE (que acontece de 14 a 18 de outubro) e depois retornam para a exposição. 

Percorre a galeria um trabalho sonoro feito com áudios de fitas VHS da infância da artista, gravados em momentos com a família, misturados a ruídos de chuva, goteiras, morcegos e objetos domésticos. A água aparece também no movimento de muitas assemblages, como símbolo de vida e de destruição. “Meu trabalho tem muito essa ambiguidade. É uma coisa muito bonita, muito poética, mas, ao mesmo tempo, de coisas duras, difíceis, trágicas. Eu acho que as histórias não precisam ser ditas na sua totalidade para as pessoas conseguirem se mobilizar, de alguma forma, pelas obras”, afirma.

Nas obras, objetos herdados, como peças do enxoval de bebê da artista e fronhas dos avós, convivem com objetos de pessoas anônimas. “Vejo uma beleza muito grande nessas coisas que foram tão vividas pelas pessoas que eu amo ganharem uma outra vida, estarem por aí no mundo. Eu acho bonito, fico feliz”, conta Nita.

Em seu texto de curadoria, Paula Borghi escreve que a artista costura os fragmentos. “Em seu texto têxtil, compartilhando o íntimo e, ao mesmo tempo, preservando os segredos dos que já se foram. Aqui, nem tudo precisa ser dito em voz alta; algumas coisas são contadas nas entrelinhas”. E completa: “Uma vez que a vida, assim como a casa, está sempre em construção, a artista parte da compreensão de que a vida é circular, que tudo é cíclico”.

Nascida em Volta Redonda (RJ), em 1990, e criada em Angra dos Reis, Nita Monteiro vive e trabalha em São Paulo. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela USP por insistência da mãe, arquiteta, mas fugia para o prédio das artes plásticas, quase em frente, onde fez disciplinas e aulas de gravura. Depois de um estágio no MAC USP e de anos como produtora de galeria, deixou o emprego em 2019 para assumir a carreira de artista. Por volta de 2022, trocou o nome Ana Paula por Nita, apelido da avó, que também se chamava Ana. “Assim como faço tudo no meu trabalho, de juntar caquinho e de apropriação, acabei pegando o nome dela também, como identificação, referência e homenagem”, conta.

A formação em arquitetura segue presente. O trabalho final de graduação da artista já tratava das memórias das casas de infância e de como a memória se espacializa nos objetos de afeto. “A pesquisa que eu faço hoje tem muito a ver com esse trabalho. Meu trabalho tem se especializado cada vez mais em objetos mais instalativos, que precisam pensar a arquitetura”, diz. 

Em 2025, a artista realizou sua primeira individual, Seja Bem-vindo. Se vier por bem, pode entrar, no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e foi selecionada para o 34º Programa de Exposições do CCSP. Participou da Contextile, Bienal de Arte Têxtil Contemporânea, em Portugal, recebeu o Prêmio Aquisição no 49º SARP e tem obras nas coleções do Museu Nacional da República, do MARP, do Museu Nacional de Belas Artes e do Instituto REC Cultural, no Recife.

Ao reunir histórias da própria família e de pessoas anônimas, a exposição recorre a um imaginário doméstico reconhecível em muitos lares. Como observa Paula Borghi, não conhecer a procedência dos objetos “não torna menos real a vida que os atravessou”. É dessa matéria que Nita parte. “São objetos que tiveram história, que já tiveram vida e que, de repente, estão nesse lugar de abandono, perderam o uso. Eu uso essas matérias, que de certa forma estão nesse processo de morte, e dou uma segunda vida para elas”, resume a artista.

“Vejo Nita como uma artista de enorme potencial, que desenvolve uma pesquisa muito singular dentro da arte contemporânea brasileira. Seu trabalho possui uma linguagem própria, marcada pela sensibilidade com que transforma objetos, materiais e memórias em obras que nos convidam a olhar novamente para aquilo que faz parte da nossa vida cotidiana”, detalha a galerista Chris Asfora.

A Christal vem apostando e investindo na trajetória da artista, apresentando seu trabalho em importantes plataformas do mercado de arte, como a SP-Arte e a ArtRio. A exposição representa mais um passo nesse direcionamento. A artista foi escolhida para estar em cartaz na galeria durante a realização da ArtPE, momento em que o Recife vai receber colecionadores, curadores e muitos nomes do circuito da arte.

SERVIÇO
Fragmentos de uma história familiar, de Nita Monteiro, com curadoria: Paula Borghi
Onde: Christal Galeria - Rua Estudante Jeremias Bastos, 266, Pina, Recife
Quando: Abertura: 15 de outubro, quinta-feira, às 19h. Visitação: de 16 de outubro a 22 de novembro. Segunda a sexta, das 10h às 18h

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