Museu da Abolição abre exposições sobre herança afro-brasileira
Institiuição lança seu primeiro projeto museográfico, após a reforma realizada entre 2020 e 2022, com as exposições Que herança você vai poder? e Restituir o Possível
09 de Junho de 2026
Foto Divulgação
O Museu da Abolição — MAB, equipamento federal vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), reabre na segunda-feira (15), às 18h, com as exposições Que herança você vai poder? e Restituir o Possível. Após a restauração do sobrado que abriga a sua sede, concluída em 2022, e um período de retomada parcial de atividades, a instituição apresenta agora um projeto museográfico formado por exposições concebidas especialmente para o espaço, acervo e missão institucional.
Situado bairro da Madalena, no Recife, o MAB tem como missão preservar, pesquisar, divulgar e difundir a memória, os valores históricos, artísticos e culturais e o patrimônio material e imaterial dos afrodescendentes, estimulando a reflexão e o pensamento crítico sobre a abolição e seus desdobramentos para a construção da identidade e cidadania brasileiras.
Entre 2020 e 2022, o Sobrado Grande da Madalena passou por ampla restauração arquitetônica. As obras incluíram a recuperação da estrutura do casarão tombado como patrimônio nacional em 1966, além da revitalização do jardim, novo projeto paisagístico, instalação de uma arena de eventos coberta na área externa e construção do prédio anexo para abrigar lojas e café.
Reaberto ao público após as obras, o museu retomou atividades e recebeu diferentes iniciativas culturais. No entanto, até agora, nenhuma exposição havia sido realizada para marcar esse processo de reabertura e renovação. As mostras que abrem em 15 de junho inauguram, portanto, uma nova etapa institucional. “Ao longo desses anos, o MAB não esteve fechado. O museu, desde sua reabertura após a reforma, seguiu ativo, sendo palco de diversas mostras e atividades diversas. O que celebramos agora é um momento em que lançamos o nosso novo projeto museográfico pensado e trabalhado especialmente para a instituição, com um olhar atento para o seu acervo e para a sua missão enquanto equipamento cultural”, pontua a diretora substituta do MAB, Fabiana de Lima Sales.
O projeto foi financiado com recursos do FDD (Fundo de Defesa de Direitos Difusos, vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e gerido pela Secretaria Nacional do Consumidor), também houve descentralização de recursos do Ibram para firmar parceria com a UFPE, que realizou o trabalho curatorial.
EXPOSIÇÕES
Ocupando integralmente o primeiro piso do sobrado, Que herança você vai poder?, com curadoria de Alex de Jesus e equipe de consultores, reúne 26 artistas e 31 obras — entre produções do acervo do museu, trabalhos comissionados especialmente para a mostra e peças emprestadas. A exposição parte de uma pergunta estruturante: “O que restou, de fato, após 1888?”
O texto curatorial constata que a abolição da escravatura, formalizada pela Lei Áurea, foi mais simbólica do que efetiva. O Estado brasileiro não ofereceu políticas de reparação, inclusão social ou acesso à terra, educação e trabalho para os mais de 700 mil negros libertos, produzindo um cenário de exclusão estrutural que ecoa até os dias atuais. Diante dessa herança precária, a arte se apresenta como campo de enfrentamento e resistência.
“O que parte da arte brasileira escancara é o fracasso da abolição como projeto de cidadania. A suposta liberdade concedida em 1888 não rompeu com o regime racial, apenas o atualizou sob novas formas de segregação e silenciamento. Através de performances, instalações, vídeos e objetos, artistas contemporâneos reencenam essa história inacabada, convidando o espectador a uma tomada de consciência crítica. Uma libertação na qual o gozo seja possível”, escreve o curador.
A exposição questiona as heranças que foram ofertadas e pergunta “o que com elas vamos poder?”. O percurso da mostra é distribuído em três eixos: presente, passado e futuro. As obras de cada uma das seções vem tensionar e refletir sobre essas heranças. O passado traz trabalhos que mostram que a abolição não foi uma ruptura, mas um deslocamento da violência. A liberdade foi concedida, mas os direitos à terra, à cidadania, à possibilidade de narrar a sua própria história seguiram sendo negados.
No eixo presente, emerge o racismo estrutural e as obras provocam o espectador a olhar para essa ferida que durante anos foi negada, sob o manto de uma suposta democracia racial. A abolição é entendida não como um ponto final, mas como um projeto em curso. O que já leva o espectador ao futuro, que não é nem uma promessa distante, nem uma solução imediata. Ele surge como um campo aberto de caminhos e possibilidades, um horizonte transformador que faz com que os ciclos se quebrem e a história não se repita.
A mostra reúne artistas como biarritzzz, Tiago Sant'Ana, Caetano Dias, Yanne Mendes, Paula Trojany, Tiganá Santana e o coletivo Frente 3 de Fevereiro, entre outros, que tensionam, cada um a seu modo, as narrativas hegemônicas sobre a história da abolição e a atualidade do ser negro no Brasil. O vídeo é um suporte central da exposição — presente em trabalhos de Izidoro Cavalcanti, Bisoro, Rodrigo Ribeiro Andrade, Samuel Brasileiro e Natália Maia —, explorando as fronteiras entre arte e cinema, entre a galeria e a rua.
A música também se faz presente: dos maracatus captados por Lula Cardoso Ayres às cosmologias africanas de Tiganá Santana, passando pelo funk do Baile da Paz, pelo Dynamite Som, por Nekinho e pelo Lamento Negro. Arquivos fotográficos e documentais completam o percurso expositivo, incluindo imagens e registros históricos de personalidades negras do Recife.
A lista completa de artistas inclui: Alberto Pereira, Anti Ribeiro, biarritzzz, Bisoro, Caetano Dias, Clélio Freitas, Daniel (Frente 3 de Fevereiro), David Felício, Diogum, Gê Viana, Géssica Amorim, Ianah, Izidoro Cavalcanti, Jeff Alan, Lia Letícia, Lucas Silva, Mestre Maia, Nilton Pereira, Paula Trojany, Rodrigo Ribeiro-Andrade, Samuel Brasileiro, Thiago Martins, Tiago Sant'Ana, Tiganá Santana, Yanne Mendes e Yhuri Cruz.

No piso térreo, nas salas destinadas às exposições temporárias, o museu apresenta Restituir o Possível, com curadoria de Isabelle de Oliveira Ferreira e Wellington Ricardo da Silva (coletivo Mandume Cultural). A mostra apresenta um recorte do Acervo de Cultura Material Africana do MAB/Ibram, composto por 109 peças — esculturas, máscaras e regalias — provenientes de 12 países africanos e mais de 20 etnias.
O acervo chegou ao museu em 2016, por meio da Lei Federal nº 12.840/13, que destina bens culturais apreendidos pela Receita Federal a museus federais. Grande parte das peças permaneceu em reserva técnica desde então. A exposição apresenta parte desse patrimônio, além de inserir o MAB no debate internacional sobre a restituição de bens culturais africanos.
A proposta expositiva desloca a ideia de restituição do campo material para o simbólico e sensível: trata-se de reconhecer que o que foi deslocado e reconfigurado pelo colonialismo permanece vivo nas práticas, nos corpos e nas criações negras contemporâneas. Cada peça é apresentada não apenas como forma estética, mas como testemunho de cosmologias e tecnologias que o olhar colonial tentou reduzir a categorias fixas.
Ainda no piso térreo, logo na entrada do museu, duas montagens importantes passam a dar as boas-vindas aos visitantes. Na sala memorial, será possível conhecer um pouco sobre a história do sobrado que abriga o museu e também conhecer como se deu a própria fundação da instituição.
HISTÓRIA
A sede do Museu da Abolição é o Sobrado Grande da Madalena, casarão tombado como patrimônio nacional em 1966 e que tem uma história intimamente ligada à abolição. O imóvel foi a antiga residência do abolicionista João Alfredo Corrêa, primeiro-ministro de D. Pedro II responsável por assegurar a aprovação parlamentar da Lei Áurea (13 de maio de 1888) e por ter papel decisivo na promulgação da Lei do Ventre Livre (1871).
O museu foi criado em 1957 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, por meio da Lei Federal nº 3.357, em homenagem aos abolicionistas João Alfredo e Joaquim Nabuco, e inaugurado oficialmente em 13 de maio de 1983. Desde 2009, é administrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
“Este novo momento do MAB, marca não apenas a abertura física, mas a retomada de nosso diálogo com os públicos e o fortalecimento do compromisso com a participação social e com a valorização das memórias, histórias e culturas afro-brasileiras. Seguimos construindo um museu capaz de acolher diferentes vozes, experiências e perspectivas, reconhecendo que sua construção acontece de forma coletiva, numa troca permanente com a comunidade. É nesse encontro que o museu se mantém vivo, relevante e conectado”, conclui a museóloga Daiane Silva Carvalho.
SERVIÇO
Exposições Que herança você vai poder? e Restituir o possível no Museu da Abolição
Onde: R. Benfica, 1150 - Madalena, Recife - PE
Quando: Abertura: 15 de junho de 2026 (segunda-feira), 18h. Visitação: A partir de 16 de junho. Segunda a sexta, das 9h às 17h. Sábado, das 13h às 17h
Quanto: Entrada gratuita