Monólogo “Vózes” propõe deslocamento político e poético sobre ancestralidade
Espetáculo idealizado e encenado pela atriz e trabalhadora da saúde mental Bárbara Buzatti estreia na sexta-feira (12), no Teatro Arraial Ariano Suassuna, transformando a escuta de ancestrais em tecnologia de cuidado
05 de Junho de 2026
Ensaio do monólogo "Vózes"
Foto Divulgação
As vozes que nos acompanham ao longo da vida podem ser também formas de cuidado, transmissão de saberes e tecnologias ancestrais de existência. É a partir dessa perspectiva que a atriz, criadora e trabalhadora da saúde mental Bárbara Buzatti estreia o espetáculo Vózes, na sexta-feira (12), no Teatro Arraial Ariano Suassuna, no Recife. Dirigido por Maju Cavalcanti, o monólogo parte das memórias das avós da artista para construir uma experiência cênica que atravessa teatro, canto, arquivos sonoros e ritualidade.
O espetáculo nasce de uma investigação íntima sobre as vozes que constituem subjetividades, coletividades e heranças afetivas. Em cena, Bárbara revisita registros familiares em VHS, conversas de WhatsApp, áudios, vídeos e escritos, transformando a oralidade e as lembranças em dramaturgia. “É como se eu dispusesse do meu corpo para deixar as minhas avós falarem através dele”, resume a artista.
A criação ganhou novos contornos após a perda das duas avós de Bárbara, em 2025. “Marília, minha avó materna, eu perdi no Carnaval. Lourdes, minha avó paterna, foi embora no Natal. Acho bonito que elas tenham ido em momentos de celebração. Corpos que se despediram em festa”, relembra. “O espetáculo vem como forma de dar contorno para essa dor que, ainda que cumpra a ‘lei natural dos encontros’, não é menos intensa. É um trabalho que dá suporte a essa passagem do tempo”.
A pergunta que conduz Vózes acompanha Bárbara há muitos anos. “Cresci convivendo e ouvindo minhas ancestrais contarem as histórias de vida dessas mulheres”, conta. Em 2018, ela iniciou uma série de entrevistas com a avó materna, Marília, registrando memórias e relatos que hoje integram o espetáculo. “Mas foi somente após perder esses grandes pilares que a pergunta saiu de dentro de mim para ganhar outra materialidade no meu corpo em cena”, pontua.

Foto: Divulgação
VOZES COMO MEMÓRIA
Distante da ideia de “escutar vozes” apenas pela via da patologização, Vózes propõe um deslocamento poético e político sobre o tema. Trabalhadora da saúde mental, Bárbara afirma que o espetáculo nasce também de uma tentativa de ampliar os sentidos da escuta. “Ouso trazer para o campo da criação as vozes como recursos simbólicos, tecnologia de cuidado comigo mesma, de autocuidado”, explica.
A sonoplastia ocupa lugar central na montagem e foi construída a partir de camadas de arquivos familiares. “Mergulhei nesse estudo das falas, dos ruídos, das conversas de WhatsApp. A sonoplastia é composta de diversas camadas desses áudios, respeitando a confusão dos ruídos, das sujeiras sonoras”, conta.
Além das vozes das avós, a paisagem sonora inclui registros da mãe, pai, irmãos, tias-avós, bisavós, primos e avôs da artista. “São as vozes da minha casa, de onde eu vim.” A trilha conta ainda com violão ao vivo de Larissa Veloso e a composição “Estrela de nós dois”, escrita pelo avô da artista, Dauro Buzatti.
GESTO ÉTICO E ESTÉTICO
Ao colocar as avós como eixo simbólico da criação, Vózes propõe também uma reflexão sobre a invisibilização das transmissões orais e intergeracionais. “É um gesto ético, estético e político”, afirma Bárbara. “Trago minhas avós como sujeitos, como mulheres desejantes, não apenas na perspectiva comum do cuidado”, completa.
Segundo ela, as mulheres de sua família, apesar de viverem contextos muito diferentes, compartilhavam algo em comum: “um desejo enorme pela vida”. “Talvez essa afirmação da vida seja o que mais me marque enquanto sujeito”, diz.
CRIAÇÃO COLETIVA
Com figurinos elaborados a partir de roupas das próprias avós da artista, assinados pela marca Molier, Vózes conta com direção de Maju Cavalcanti, que foi fundamental para transformar as memórias pessoais em linguagem cênica. “O desafio, guiado com muita delicadeza por Maju, foi externalizar essas ritualísticas e avivar as cenas”, explica Bárbara.
ARTISTA
Mineira de Belo Horizonte e radicada no Recife, Bárbara Buzatti é atriz, criadora e trabalhadora da saúde mental. Sua pesquisa artística atravessa memória, ancestralidade, oralidade e práticas de cuidado, articulando teatro, performance, música e ritualidade. Em Vózes, seu primeiro monólogo autoral, transforma arquivos íntimos e experiências familiares em matéria cênica para investigar as vozes que constituem subjetividades e coletividades.
SERVIÇO
Estreia do espetáculo Vózes, com Bárbara Buzatti e direção de Maju Cavalcanti
Onde: Teatro Arraial Ariano Suassuna (Rua da Aurora, 457 - Boa Vista)
Quando: Dia 12 de junho (sexta-feira), às 19h
Quanto: R$ 67 (inteira) e R$ 33,50 (meia-entrada). Ingressos à venda na bilheteria ou na Sympla