MAJU estreia espetáculo cênico-musical "Por um fio"
Música, poesia, performance e ritual conduzem o público por uma travessia sobre memória, ausência e transmutação, com apresentação no sábado (12), no Espaço Cênicas, no Recife Antigo
09 de Setembro de 2026
Foto Deveraldo Barros/Divulgação
É do território de instabilidade, onde o desequilíbrio deixa de ser ameaça para se tornar linguagem, que nasce Por um fio, novo espetáculo cênico-musical da artista pernambucana MAJU, que estreia no Recife propondo uma experiência em que música, poesia, teatro, dança, performance e interpretação em Libras se entrelaçam na construção de uma obra sobre a coragem de continuar. A apresentação de estreia acontecerá sábado (12), às 20h, no Espaço Cênicas, Recife Antigo.
Por um fio convida o público a atravessar uma experiência em que arte e existência caminham juntas. Ao longo de cerca de 90 minutos, MAJU conduz a plateia por um picadeiro simbólico onde um corpo insiste em permanecer vivo diante da iminência da queda. A imagem do fio, delicado, quase invisível e, ao mesmo tempo, capaz de sustentar uma travessia inteira, atravessa toda a dramaturgia como metáfora daquilo que nos prende à vida.
"Um único fio é capaz de sustentar uma queda? Do que é feito o fio que nos ata à vida? Qual o fio que desata a morte?" As perguntas não procuram respostas definitivas. Tornam-se matéria cênica para investigar memória, ausência, sobrevivência e transformação, construindo uma poética em que cair e permanecer deixam de ser movimentos opostos para se tornar partes de uma mesma travessia.
A criação nasce de um período de profundas transformações na trajetória artística de MAJU e converte experiências de ruptura em matéria estética sem recorrer ao relato autobiográfico. Em vez de narrar uma história íntima, o espetáculo amplia essa vivência para tocar questões universais sobre luto, permanência, reinvenção e a capacidade humana de reconstruir sentidos quando tudo parece deslocado. É justamente nessa delicada transformação do íntimo em experiência coletiva que reside uma das maiores forças da obra.
Com direção assinada pela própria artista, Por um fio dissolve as fronteiras entre concerto, performance e teatro. O violão, o violoncelo, a percussão, as vozes convidadas, a dança, a Libras e as ações performativas não aparecem como elementos independentes, mas como partes de uma única dramaturgia. Cada canção funciona como uma corda bamba; cada gesto amplia a narrativa musical; cada imagem aproxima o espetáculo da experiência ritual.
A dramaturgia se organiza em três movimentos que acompanham o ciclo da noite ao amanhecer. No primeiro ato, "Despedida/noite", instala-se um território de instabilidade, onde a ausência começa a corroer as estruturas daquilo que parecia sustentar a existência. O corpo permanece exposto ao risco, tentando manter-se de pé entre ruínas afetivas e simbólicas.
No segundo movimento, "Delírio/madrugada", a travessia se aprofunda. A casa se confunde com o próprio corpo, que dança suas ruínas enquanto experimenta outras formas de existir. A queda deixa de representar apenas ameaça e passa a constituir linguagem, abrindo espaço para a invenção de novas possibilidades de presença.
É no terceiro ato, "Consagração/amanhecer", que a paisagem se ilumina. Surge o fogo como força transformadora, símbolo daquilo que resiste mesmo depois da devastação. Entre canções, poemas e ações performativas nasce "Nossa Senhora do Fogo", figura mítica criada por MAJU como guardiã do que ainda arde e padroeira das que sobreviveram a si mesmas. Não é uma personagem religiosa, mas uma poderosa imagem poética da permanência, da reinvenção e da vida que insiste em florescer mesmo depois da travessia.
ARTISTA
Poeta, cantora, compositora e pesquisadora do corpo, MAJU desenvolve uma produção que atravessa música, poesia, dança, teatro e performance, investigando as relações entre memória, presença e invenção. Autora do livro Voar é a ordem, da Editora Patuá, e do single "O dia que descobri o meu lado do rio", a artista estreou em 2026 como diretora teatral com o monólogo Vózes e vem consolidando uma trajetória marcada pelo diálogo entre diferentes linguagens artísticas. Desde 2022, participa de festivais como o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), Festival Pernambuco Meu País e Festival Palavra Cifrada, além de idealizar projetos colaborativos como o "Rua Sem Saída", espaço de criação e encontro entre artistas no Recife.
SERVIÇO
Espetáculo "Por um fio", com Maju Cavalcanti
Onde: Espaço Cênicas – Rua Vigário Tenório, 199, Recife Antigo:
Quando: Sábado (12), às 20h
Duração: 90 minutos