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Idas e voltas de Maurício Silva

Aller et Retour, do artista pernambucano radicado na França, será inaugurada na quinta-feira (10), às 18h, na Número Galeria, em Boa Viagem

TEXTO Carol Almeida

04 de Setembro de 2026

Maurício Silva exibe suas idas e vindas inéditas e outras obras de 50 anos de trajetória artística

Maurício Silva exibe suas idas e vindas inéditas e outras obras de 50 anos de trajetória artística

Foto Alonso Laporte/Divulgação

A importância de Pernambuco para o artista Maurício Silva é proporcional à dele para a arte local. “Criei, junto com vários amigos, uma parte da história da arte pernambucana dos anos 1980 até os anos 2000, mais ou menos”. 

Radicado na França há algumas décadas, Maurício vem de visita a cada dois anos ou em intervalos menores, se alguém por aqui o convidar para expor. Aí aproveita para passar uns três meses. Quase nada para quem ama tanto Recife, Olinda, as praias e os amigos. Fui encontrá-lo numa manhã de quarta-feira na casa da amiga/irmã Pérside Omena, no Poço da Panela. O bairro já foi sua morada em tempos idos. E dele guarda maravilhosas recordações. 

Nada a ver com a panelinha da elite que se esconde por ali. Maurício gosta é do poço da comunidade ribeirinha. Maurício gosta é do panelão cheio de amigos e coletivos artísticos. Já integrou vários: Carga e Descarga, Oficina Guaianases, Corgo, Caras Paranambuco, Gráfica Lenta, Ateliê do Cais, Ateliê 66… Nesses coletivos conviveu com nomes como Christina Machado, Dantas Suassuna, Flávio Emanuel, Joelson, José Paulo, Maurício Castro, Márcio Almeida, Frederico Fonseca, José Patrício, Alexandre Nóbrega…

Sempre que vem pra cá, fica impressionado com a produção de muitos jovens artistas. Arrisca citar alguns nomes, mas já avisando que provavelmente esquecerá muitos. Fala de Daaniel Araújo, Rayana Raio, Guto Oca… Carlos Mello abriu a Galeria Boi, no Agreste, descentralizando a arte. 

Teve que fixar morada em Meudon, nos arredores de Paris, porque o filho tinha sérios problemas respiratórios com nosso clima tropical úmido. A esposa também é francesa. Mas um dia ele pretende voltar. Um dia. Quer conhecer a Amazônia. Tantos lugares lindos. “Quando encontrava Naná Vasconcelos, ele me disse que se sentia mais brasileiro quando estava no exterior. É interessante. Não que eu não goste da França. Mas um dia quero voltar a morar aqui e visitar a França de vez em quando”. 

Em terras afrancesadas Maurício dá aula de artes plásticas para crianças e tem um ateliê e uma casa localizados em uma zona industrial que a especulação imobiliária está doida para colocar abaixo. Por perto viveu o escultor Rodin. Por perto há um labirinto subterrâneo de onde retiram o blanc de Meudon, um pó mineral usado para limpeza doméstica, polimento de metais e pinturas. A prefeitura quer pôr abaixo porque acha que vai afundar. Maurício não concorda porque o labirinto está por lá há mais de 200 anos. 

Viver na França funciona também como uma maneira de estar com a antena apontada para todos os lugares do mundo que produzem arte e artesanato. "Tenho uma vontade enorme de pintar o que as pessoas fazem na Groenlândia, por exemplo. Paris é um centro do mundo, queiram ou não queiram os juízes". 

Nessa vinda ao Recife, já reuniu amigos em um evento no bar Super 8, na boêmia Rua Mamede Simões, para assistir ao filme Atelier Temporaire et Éphémère do Poço da Panelinha, média-metragem de 20 minutos dirigido pelo cineasta Camilo Soares. Além de uma exposição relâmpago coletiva. Na ocasião, foi entregue o Prêmio Nobre da Pá, uma sátira sobre os prêmios supervalorizados mas que, no final das contas, não passam de pura marmelada: todo mundo já sabe quem vai ganhar. Quem ganhou foi o ator Lula Terra.        

Com muita ironia, Maurício faz arte há 50 anos, e levará para a Número Galeria, em Boa Viagem, sua próxima exposição, Aller et Retour (ida e volta em francês), com sete trabalhos inéditos em que reúne a coleção de tickets de metrô de Paris que acumulou ao longo de anos vivendo em Meudon. 

Na mesa vermelha onde conversamos, uma pilha de sacos pardos recebeu o carimbo “Saco de Arte/Arte de Saco”, que também estará na exposição com abertura marcada para o dia 10 de setembro, às 18h. “Adoro essa ideia, porque, às vezes, a gente fica com saco de arte. Porque enche o saco”. Por enquanto, só os sacos numerados estarão à venda pelo preço módico de R$ 5 mil. Ou não. “Eu estou querendo fazer depois com um saco de tecido também impresso. Nesse, talvez, eu coloque alguma coisa dentro”. 

Saco mesmo é lidar com o mercado, com a produção. “Gosto mesmo é de fazer. Essa outra mise en scene é muito chata. Mas agora o artista tem que fazer também, senão não vende”. 

“E também tem o mesmo saco quando eu vou para uma exposição que não é legal. Essa tênue linha que separa o que é uma coisa boa e o que é uma coisa ruim. Quem é que pode dizer o que é bom e o que é ruim? É muito doido. Aqui em Pernambuco, a gente tem exemplos de artistas que são renomados no mundo e vendem por milhões de dólares uma obra que não entra nunca no circuito artístico, numa bienal e tal”. Nem precisa citar o nome. É aquele que deixou de falar português para falar inglês. 

As Tampas de Crush também ganharão um preço exorbitante. O que vale é impressionar as pessoas. São tampas de garrafa feitas de material dourado que ganharam a pintura semelhante à do refrigerante de laranja dos anos 1980. A tampa vinha com um brinquedo e passou a ser adjetivo de pessoa legal. Maurício conseguiu 22 delas com uma pessoa que confeccionava objetos para propaganda. Na época em que o photoshop não existia.

Já a Pata de Elefante - que é de rinoceronte - vem repleta de moedas para denunciar a crueldade com esses animais. A pata foi encontrada no lixo da região do Poço da Panela há alguns anos. A cineasta Liz Donovan já contou a história dessa pata famosa. 

A exposição também terá uma performance surpresa dirigida por Maurício e que contará com interação do público presente. Sintam-se convocados.  

O artista também pretende filmar o curta-metragem “meio doidão” Sirôtt e a filosofia da batata. Já está com o storyboard todo pronto. Alter-ego de Maurício, Sirôtt diz frases “doidonas” como “ser livre é comer o foie gras que o diabo amassou”. Sirrôt sempre conversa com Joelson, também conhecido como Biu. E Biu sempre discorda do "filósofo". "Biu é duro e doce como um doce de batata doce". O artista também pretende inserir sua versão filosófica de um vídeo de Caetano Veloso se queixando de quem não gosta da música popular brasileira: 

“Tem muita gente que tem problema com a gente de música popular, porque a gente é foda. Não tem outra explicação. Pra um cara fazer o que fez com o meu filme, fazer o que fez com o livro do Chico, é um diagnóstico definitivo. É problema porque a gente é foda. A verdade é essa. Chico Buarque é foda, eu sou foda. A verdade é essa: Milton Nascimento é foda, Gilberto Gil é foda, Djavan é foda. A verdade é essa.”

Eurocêntricas gravuras eletrônicas é feito de colagens de gravuras da revista francesa Beaux-Arts (belas artes em francês). As imagens foram colocadas sobre papel de cocô de elefante. “Chamo de eurocêntricas gravuras porque essa revista é toda feita na Europa e circula na Europa, e o que tem mais é a arte europeia, você só tem arte europeia. Há matéria sobre arte na África e no Brasil, mas muito poucas. Tem matéria com a África, tem matéria com todas do Brasil, mas é muito pouco”. 

Faz 20 anos que Maurício não brinca o Carnaval em Olinda, cidade que frequentou quando criança. “Eu tinha um tio que tinha um bloco de carnaval que era o Bêbo Morrendo. No meio do caminho, quando o cara não aguentava mais beber e caía no chão, a gente colocava umas velas em volta e seguia o bloco”.  

Em Olinda também conheceu a Oficina Guaianases, tão importante para o início da sua carreira artística - e pensar que cursou Geografia antes de se entender artista. Lá ele conheceu e conviveu com João Câmara, Liliane Dardot, Zé Alves de Moura, Zé Carlos Viana… Lá aprendeu a fazer litografia. 

Em Olinda, nos anos 1980, criou ao lado do artista Joelson o projeto Arte da Barbearia. Dentro da minúscula barbearia de um senhor chamado Isnar Colombo - primeiro presidente do Homem da Meia-Noite, segundo Maurício -, nos Quatro Cantos. "Como vai o senhor?", perguntava Maurício. Isnar respondia: "Tudo bem, são poucas, pequenas e continuadas". 

Em plena semana pré-Carnaval, a barbearia abriu uma exposição com obras de pequenas dimensões de tantos artistas quanto possível. "Fizemos uma brincadeira com a imprensa dizendo que teria até obras de Picasso, Kandinsky e Paul Klee. Aí pegamos reproduções e emolduramos", brinca. 

Foi num festival de inverno da Unicap, onde cursava Geografia, que Maurício fez um curso de arte contemporânea ministrado por Ypiranga Filho. Depois conheceu Daniel Santiago e Paulo Bruscky, com quem fez curso de arte xerox.

Maurício é daqueles artistas que gostava de desenhar desde pequeno. Tinha cadernos e mais cadernos de desenho. Na escola, era o que fazia as capas dos trabalhos. Desenhava os amigos e professores. Na entrevista para a Continente, foi logo mostrando um desses cadernos, o mais atual, o que vem fazendo desde que chegou ao Recife, em 27 de junho. Uma belezura, cheio de desenhos e escritos. Um livro de artista!

SERVIÇO
Aller et Retour - exposição individual de Maurício Silva
Onde: Número Galeria (Rua Professor Eduardo Wanderley Filho, 187 – Térreo – Boa Viagem, Recife)
Quando: 10 de setembro de 2026, às 18h

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