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Guilherme Almeida em mostra na Galeria Base

"Querência", primeira individual do artista baiano no Recife, abre ao público na quarta-feira (25), às 18h, e reúne mais de 20 obras, muitas delas inéditas

24 de Março de 2026

Foto Divulgação

O pintor baiano Guilherme Almeida (BA, 2000) realiza sua primeira exposição individual no Recife. Na quarta-feira (25), às 18h, a Galeria Base Recife abre as portas para Querência, que reúne mais de 20 obras desenvolvidas dentro de sua pesquisa mais recente. Com texto crítico de Matteo Bergamini, a mostra mergulha na representação da paisagem como território afetivo, de memória e mistério.

Querência marca também a comemoração do primeiro ano da Base Recife, inaugurada em março de 2025. A galeria tem como proposta abrir novos caminhos e trazer artistas ainda pouco conhecidos na cena recifense. “Trazer uma individual de Guilherme Almeida, um artista que tem trabalhos no acervo do museu Reina Sofia, em Madri, que tem tido uma recepção muito positiva na cidade, me parece muito simbólico desse movimento que temos feito com a Base Recife ao longo deste último ano”, avalia a galerista Gabriela Maranhão.

O título da mostra carrega em si a chave poética de todo o conjunto. Querência é um termo de origem espanhola que significa inclinação afetiva, lar, morada ou refúgio. Refere-se a um local de segurança, aconchego ou "onde se quer estar". Para Almeida, o conceito ganha uma dimensão cíclica e instintiva. "Querência tem vários significados, mas, no sentido da minha pesquisa, é essa ação de retorno ao seu lugar de origem que alguns animais fazem. Um exemplo são as baleias que viajam, percorrem o mundo todo, mas sempre dão à luz no mesmo local. As tartarugas, pelo mesmo motivo, nascem no território e depois viajam o mundo todo, mas retornam para o seu local. Querência é isso: é o retorno, a permanência, a lembrança desse lugar", explica o artista.

As obras que compõem Querência nascem de um olhar voltado para as paisagens da infância e do cotidiano do artista. Crescido na Cidade Baixa de Salvador, onde o mar está a poucos minutos e a Ilha de Itaparica aparece no horizonte, Almeida carrega essa geografia como matriz de sua produção. A ela somam-se as memórias das idas ao Recôncavo Baiano, terra de sua família, onde a Mata Atlântica fechada emerge.

É desse território afetivo que surgem as duas séries centrais da exposição: Silêncio da Mata e Querência, ambas desenvolvidas a partir de 2025. Nelas, o artista investiga a pintura como forma de apreender não a natureza em si, mas a sua percepção — aquilo que se vê quando a luz é pouca, quando a distância embaralha as formas ou quando a memória sobrepõe camadas ao real. A figura humana, antes presente em seus trabalhos, cede lugar à paisagem como protagonista, embora seus vestígios permaneçam: um barco, uma linha de pesca, um balde. 

FIGURAÇÃO E ABSTRAÇÃO
A produção apresentada no Recife é resultado de um percurso que o artista iniciou em 2016, nas oficinas de pintura do Museu de Arte Moderna da Bahia. Ali, o contato com os materiais e as tintas o levou a uma primeira fase abstrata. Mais tarde, já na faculdade, buscou unir a pintura aos desenhos que fazia desde criança — quando sonhava em ser cartunista — e chegou às figuras humanas sem rosto que marcaram seus trabalhos dos últimos anos.

Em Querência, Almeida não abandona a figuração, mas a recoloca em outro lugar. O que lhe interessa agora é o jogo entre o que existe e o que se vê — pintar o real, mas de forma que ele se apresente na tela como não real. A abstração, para ele, reside na percepção visual da obra, na exploração de texturas e camadas, na economia de recursos para criar profundidade e atmosfera. “Eu digo que ainda estou no figurativismo. Acho que a figuração ainda tem um lugar muito grande na minha produção. Mas a percepção visual do trabalho... esse é o grande jogo. Eu quero pintar o que de fato existe, mas que, visualmente, olhando para a tela, não é real. E essa busca do não real que me faz chegar à abstração”, revela Almeida. “Eu nunca quis pintar nada realista demais. Sempre quis explorar os materiais.”

Essa exploração material é evidente nas pinceladas densas e na construção de texturas que lembram, segundo Matteo Bergamini, um diálogo com a história da arte. “Eu não pinto, eu limpo o pincel: o meu método é acabar com a tinta presa nele”, disse o artista ao crítico em seu ateliê, uma frase que revela o gesto quase escultórico de cravar a tinta na tela.

Bergamini aponta Turner, Monet e Magritte como a tríade de referências que atravessa a produção recente de Almeida. Do impressionismo, o artista guarda menos a pesquisa da luz do que a textura — a materialidade da tinta cravada na tela, quase esculpida. Do surrealismo, herda o gesto de deslocar elementos de seu lugar esperado: peixes fora d'água (talvez aprendendo a voar), linhas de pesca sem pescadores, barcos flutuando no céu, garças de tamanhos desproporcionais. Esses elementos surgem nas telas como aparições, criando uma atmosfera que Bergamini descreve como "inversões de perspectiva" em que a paisagem se torna viva para além da própria ideia.

A exposição reúne majoritariamente trabalhos inéditos. Além das pinturas das séries citadas, Almeida apresenta um desenho e um vídeo — linguagem que sempre desejou explorar e que agora realiza pela primeira vez, pensando cenário, câmera e paisagem como extensão de sua poética. Cinco obras foram apresentadas anteriormente no Museu de Arte Contemporânea da Bahia, em 2025, e agora integram o conjunto da mostra no Recife.

O ARTISTA
Guilherme Almeida (2000) é artista visual e designer. Começou a trajetória nas artes de forma autônoma até que em 2016 entrou no curso de pintura do Museu de Arte Moderna da Bahia. Trabalha com pintura e escultura a partir de materiais trazidos do seu cotidiano para apresentar questões complexas e irônicas com relações de poder e espaço. Tem seu olhar voltado para os valores da liberdade e beleza de famílias afro-brasileiras, os sonhos de crianças negras e estereótipos racistas que aumentam seu interesse de subverter tais normas. Trazendo em seus trabalhos o orgulho roubado, lugares de poder e autoestima. Criando personagens em narrativas exaltando beleza, vitórias e riquezas da cultura negra. Sua prática é influenciada por experiências pessoais e pelo cenário sócio-político brasileiro, abordando questões como memória ambiental e identidade racial. Seu trabalho comunica histórias subjacentes, promovendo um diálogo que incorpora nesses temas, camadas de histórias ocultas e uma contemplação meditativa do que acontece agora.

SERVIÇO:
Exposição Querência, de Guilherme Almeida, com curadoria e texto crítico de Matteo Bergamini
Onde: Galeria Base (Rua Professor José Brandão, 163. Boa Viagem)
Quando: 25 de março, às 18h. Visitação: Período: de 26 de março a 23 de maio de 2026; segunda a sexta, das 10h às 18h
Informações: @galeriabase_recife @galeriabase / www.galeriabase.com.br

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