“Delicado é o Espinho”, de Mozart Santos, cruza Sertão e periferia
Com curadoria de Fabiana Moraes, a mostra abre nesta quinta-feira (15), às 18h, na Arte Plural Galeria, investigando a convivência entre força e fragilidade
14 de Outubro de 2026
Artista pernambucano Mozart Santos traz novo significado à estética sertaneja
Foto Julia Thompson
A estética sertaneja clichê da dureza e aspereza é sucumbida pela delicadeza e pela ternura. Bainhas de peixeiras, penas, chifres, peles, sementes e texturas típicas daquele bioma unem fragilidade e força em um só tempo. Na exposição individual Delicado é o Espinho, o artista pernambucano Mozart Santos também desestabiliza os muros entre linguagens artísticas como pintura, escultura e instalação. Com curadoria da jornalista e pesquisadora Fabiana Moraes, a mostra abre nesta quinta-feira (15/10), às 18h, na Arte Plural Galeria. As obras inéditas ficam em cartaz até 27 de novembro.
Na pesquisa de Mozart, a matéria não é mero suporte, mas portadora de códigos culturais e modos de existência, quando o artista desloca esses elementos de seus contextos habituais e os reorganiza em composições que desafiam hierarquias entre referências populares e eruditas, tradição e contemporaneidade. É dessa lógica que nasce Colônia, obra em que buchas vegetais e um aparato sonoro formam um coletivo vivo de criaturas que se juntam porque são frágeis.
“Mais do que representar o Sertão, a mostra recusa o olhar pronto, construído pela televisão e pela indústria cultural, e devolve a esse território, e a quem dele veio (remixado, reorganizado, reelaborado) o direito à complexidade, à delicadeza e ao volume. É uma paisagem que não é só sertaneja, é brasileira, periférica, contemporânea”, aponta Fabiana Moraes.
“O Sertão não é uma imagem parada no tempo, nem um território definido pela falta. Ele está na cidade, nos corpos, nos objetos e nas formas de imaginar o mundo. Meu trabalho parte dessas memórias, mas não para reproduzi-las como herança intocável. Quero deslocá-las, criar outras relações entre materiais, símbolos e histórias que quase sempre foram vistas de maneira isolada ou reduzidas a estereótipos. Existe uma potência estética e política nessas referências, e me interessa justamente o que acontece quando elas deixam de ocupar um lugar periférico no imaginário e passam a produzir outras leituras sobre o Brasil”, explica Mozart Santos.
Em Delicado é o Espinho, o Sertão não aparece como paisagem distante, mas como aquilo que migrou com os êxodos rurais e se enraizou nas periferias das grandes cidades, do Ibura a São Paulo, para onde o próprio artista se mudou. O "animal sertanejo" que dá nome a parte das obras é também o nordestino que desembarca no Sudeste e é olhado como uma espécie estranha. É o rapaz que volta para a própria terra e tenta se relocalizar.
ARTISTA
Com uma trajetória que inclui exposições e projetos no Brasil e no exterior, Mozart Santos conta com trabalhos apresentados em instituições como o Museu da Língua Portuguesa, o MAC USP, o Centro Cultural Banco do Brasil e o Architekturmuseum der TUM, em Munique. Seu currículo reúne participações em diversos salões de arte brasileiros, entre eles o 51º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo (SARP), o 23º Território da Arte de Araraquara, o 9º Salão de Aquarelas de Piracicaba e o Salão Arte Londrina 09.
Co-criador do @projetemos, seu interesse pela arte e tecnologia atravessa sua trajetória, desde as projeções de imagens e palavras no espaço urbano até a criação de instalações que incorporam som, sensores e sistemas eletrônicos. Em sua pesquisa, tecnologias digitais e saberes manuais não são entendidos como campos opostos, mas como diferentes maneiras de produzir conhecimento, experiência e interação.
SERVIÇO
Delicado é o Espinho, de Mozart Santos
Onde: Galeria Arte Plural (Rua da Moeda, 140, Recife)
Quando: 15 de outubro, às 18h
Visitação: Até 27 de novembro, de segunda a sexta, das 9h às 18h, e sábado, das 14h às 18h
Entrada gratuita