Recife Anda Luz reinventa elementos vazados no design contemporâneo
Com abertura no sábado (8), no Murillo La Greca, exposição de Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo transforma referências mouras, o cobogó recifense e a paisagem gráfica da capital em 27 painéis de design
05 de Agosto de 2026
Sofia Lobo e Maria Eduarda Belém misturam fragmentos de diferentes lugares e épocas para criar imagens gráficas
Foto Divulgação
Antes de se tornar um dos elementos centrais da arquitetura moderna brasileira, o cobogó nasceu no Recife, no final da década de 1920, como solução para filtrar a luz, favorecer a ventilação e criar transição entre espaços internos e externos. Seu princípio guarda relação com uma tradição mais antiga: a dos muxarabis, estruturas vazadas de origem árabe difundidas pela Península Ibérica e incorporadas, ao longo do tempo, à arquitetura brasileira.
É desse encontro entre a herança moura, a invenção recifense do cobogó e a paisagem construída da cidade que surge Recife Anda Luz, exposição de Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo. A mostra reúne 27 composições gráficas transformadas em painéis de diferentes dimensões, produzidos em MDF e recortados a laser — e marca a apresentação pública do Remolina, estúdio de arte, design e paisagem criado pela dupla.
O título faz uma aproximação sonora com Andaluzia, região espanhola marcada pela presença moura e pelo uso de pátios, treliças e elementos vazados. Ao mesmo tempo, fala do movimento da luz sobre a cidade e das imagens que ela produz ao atravessar grades, cobogós, vitrais e fachadas. Nas peças, a luz não apenas ilumina: projeta sombras, redesenha os padrões e passa a fazer parte da obra.
A coleção nasceu de uma pesquisa sobre a paisagem gráfica do Recife. As designers percorreram lugares como o Cinema São Luiz, o Teatro do Parque, o Teatro de Santa Isabel, os mercados de Santo Amaro e de São José, o Museu do Trem e a Ponte Velha, além de observar grades residenciais, vitrais, pisos e fachadas pela cidade. As referências não aparecem como reproduções literais — Maria Eduarda e Sofia misturam fragmentos de diferentes lugares e épocas para criar novas paisagens gráficas.
"Nenhuma delas representa um lugar específico. Todas são meio misturadas", explica Sofia Lobo. Em uma mesma composição podem coexistir o desenho do piso do Teatro de Santa Isabel, um vitral de Marianne Peretti, uma grade residencial e formas presentes na obra de Francisco Brennand.
"É uma leitura gráfica da paisagem do Recife, traduzida em uma peça de design", afirma Maria Eduarda Belém. "A ideia é revelar a cidade por meio da luz, da sombra e da relação entre cheios e vazios", completa Sofia.
REFERÊNCIAS
O cobogó, criado pelos engenheiros Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis — cujas iniciais deram nome ao elemento —, ultrapassou as fronteiras de Pernambuco e foi incorporado a projetos centrais da arquitetura moderna brasileira. Assim como ocorre nos muxarabis e nas treliças, sua composição geralmente se baseia na repetição regular de um mesmo módulo.
Em Recife Anda Luz, as designers rompem com essa lógica: propõem composições abertas e assimétricas, formadas pela combinação de diferentes referências. "Queríamos romper com essa repetição. Criamos peças que podem funcionar como módulos, mas não dependem da simetria para construir um padrão", explica Maria Eduarda. Alguns desenhos preservam elementos reconhecíveis, como o traçado do Marco Zero ou uma grade em forma de abacaxi encontrada em residências de Casa Amarela e do interior de Pernambuco. Em outros, as referências se dissolvem completamente em novas tramas.
MOSTRA
A exposição reúne a coleção completa e nove composições ampliadas, instaladas em diálogo direto com o espaço do museu. Algumas peças ficam afastadas das paredes para que os desenhos vazados se multipliquem em projeções de sombra.
"A ideia é mostrar tanto a peça quanto o desenho que a sombra produz. Quando a luz incide de forma direta, ela reproduz o padrão; quando muda de direção, a imagem se transforma", explica Maria Eduarda.
Os painéis transitam entre obra artística e objeto de design, com potencial de aplicação em projetos de interiores — divisórias, biombos, revestimentos e estruturas de separação de ambientes. "A ideia é trazer para dentro dos espaços a estrutura que observamos na cidade — não apenas o desenho das grades, mas também a luz e as sombras que elas projetam", afirma Sofia.
Para o artista e designer Ramsés Marçal, é justamente esse trânsito entre campos que torna o projeto singular: "Mais do que reinterpretar elementos da arquitetura recifense, Recife Anda Luz investiga como eles podem dar origem a novas formas de projetar. Ao articular pesquisa, experimentação e linguagem visual, Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo constroem um trabalho que amplia as possibilidades de diálogo entre arte, design e arquitetura."
PESQUISA
Recife Anda Luz amplia uma investigação iniciada por Maria Eduarda e Sofia na residência artística Se Permuta, em Havana, em 2018, quando as duas começaram a transformar paisagens e elementos arquitetônicos em composições gráficas recortadas em tecido. "Na época, aquelas composições foram apresentadas como obras em tecido. Com o tempo, começamos a imaginar como essa linguagem poderia ganhar novos suportes e dialogar com outros contextos", conta Maria Eduarda. Nos painéis da exposição, a linguagem gráfica encontra a rigidez do MDF, a precisão do corte a laser e a dimensão imaterial da luz.
A parceria entre as duas designers já vinha sendo construída em trabalhos anteriores, como Plantas Mágicas de Pernambuco, apresentado no Museu Cais do Sertão — uma coleção de padrões inspirados nos usos medicinais e ritualísticos da flora pernambucana, aplicados a túnicas de algodão. O Remolina investiga paisagens e repertórios culturais para transformá-los em objetos, imagens, superfícies e experiências espaciais, atravessando as fronteiras entre arte, design, arquitetura e paisagismo. Recife Anda Luz é o primeiro trabalho apresentado publicamente sob a identidade do estúdio.
ARTISTAS
Maria Eduarda Belém é artista, mestra e doutoranda em Design pela Universidade Federal de Pernambuco. Integra o coletivo Gráfica Lenta, desenvolve pesquisa sonora no duo Disk Mistério e participou de projetos como Loiça Coral, Mata Branca e ECO. Sofia Lobo é designer e ilustradora, com atuação em estamparia e design de superfícies desde 2006. Passou por marcas como Estúdio Zero e Ovo e é fundadora da Estampa Banana e da Sra. Fuyu.
Recife Anda Luz é um projeto viabilizado pelo Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) da Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife.
SERVIÇO
Recife Anda Luz
Onde: Museu Murillo La Greca — Rua Leonardo Bezerra Cavalcanti, 366, Parnamirim, Recife — PE
Quando: Sábado (8), das 13h às 17h. Visitação: 11 de agosto a 26 de setembro de 2026. Horários: terça a sexta, das 9h às 12h e das 14h às 17h; sábados, das 10h às 17h
Quanto: Entrada gratuita