Cineastas das periferias levam suas histórias ao São Luiz
Em sua terceira edição, Cine Maré apresenta cinco curtas-metragens neste sábado (10), com roteiros que abordam identidade, desigualdade social, memória e espiritualidade
TEXTO Pedro Cunha
09 de Outubro de 2026
Foto Divulgação
Mabson Alexandre começou a atuar aos 12 anos. Morador de Campo Grande, bairro da zona norte do Recife, gostava de interpretar, mas, à medida que buscava espaço no meio artístico, percebeu que as histórias disponíveis nem sempre reservavam personagens com os quais pudesse se identificar. O desejo de estar em cena acabou levando-o para o outro lado da criação. Passou a escrever seus próprios papéis, primeiro no teatro, depois no audiovisual. Agora, prepara-se para assistir a um filme dirigido por ele na tela do Cinema São Luiz, no Centro. Uma conquista que ele ainda tenta compreender.
“Ainda não caiu a ficha que eu vou exibir meu filme dentro de um cinema em que tantos outros filmes grandiosos já passaram por ele. É um sonho realizado, só que eu ainda não entendo, dentro de mim, como é que vai ser essa sensação”, conta, ansioso, em entrevista à Continente.
Mabson é um dos cinco realizadores selecionados para a terceira edição do Cine Maré, projeto que investe na formação e na produção audiovisual de artistas das periferias do Recife e da região metropolitana. Neste sábado (10), os filmes desenvolvidos durante o laboratório serão exibidos no Cinema São Luiz, em uma noite de celebração e premiação. Para quem passou meses entre roteiros, gravações, dificuldades de produção e expectativas, a sessão representa mais do que a conclusão de um trabalho.
O curta de Mabson, A Última Presença, acompanha Luciano, um homem que completa 30 anos e vive uma manhã aparentemente comum ao lado da mãe. A chegada inesperada de Aurora modifica o rumo da história, conduzindo o protagonista por lembranças e acontecimentos em que amor, memória, espiritualidade e ausência se confundem. O curta tem 15 minutos e mobilizou uma equipe de mais de 27 pessoas.

A escolha do enredo não é casual. Mabson queria construir personagens que escapassem dos lugares habitualmente destinados a pessoas negras em determinadas produções. “O que me fez escrever foi a necessidade e a urgência de me colocar em histórias que falassem além de violência, além de servidão ou de marginalização”, explica o jovem de 33 anos.
Seu percurso ajuda a compreender uma das questões que movem o Cine Maré: o talento existe, mas nem sempre encontra as condições necessárias para se desenvolver. Em um estado que construiu uma cinematografia reconhecida dentro e fora do Brasil, a distância entre desejar fazer cinema e conseguir realizar um filme ainda pode ser grande para quem vive longe dos circuitos tradicionais de formação, financiamento e produção.
CABO DE SANTO AGOSTINHO
A história de Luiza Côrte nasce de uma realidade que conhece de perto. A das ruas quentes de Pontezinha, no Cabo de Santo Agostinho, das casas próximas umas das outras, dos ônibus lotados e das vendedoras que trabalham sob o sol. São experiências que inspiraram Talitabu, curta de 14 minutos e 22 segundos dirigido por ela nesta edição do Cine Maré.
Na trama, Talita tenta ganhar a vida vendendo tabu, uma espécie de doce popular, mas enfrenta dificuldades nas vendas. Ao desenvolver uma consciência sobre sua condição social, decide experimentar um ingrediente secreto recebido de uma misteriosa travesti. A narrativa mistura cotidiano, crítica de classe e elementos fantásticos, tendo como cenário uma cidade marcada por diferenças que nem sempre aparecem nas belas praias do litoral.
“A minha vivência em Talitabu se dá pela personagem ser uma travesti não binária, sendo não monogâmica, mas também por ela viver num bairro onde o calor é maior”, relata Luiza. A diretora também reconhece no filme situações que conhece de perto: o transporte público cheio, o suor escorrendo durante os deslocamentos e o contraste com a rotina de quem circula pela cidade em carros com ar-condicionado.
O interesse está menos em apresentar a periferia como cenário de carência e mais em reconhecer ali um lugar de criação, humor, contradições e possibilidades narrativas. A experiência cotidiana, diz Luiza, fornece matéria para o cinema, mas não limita aquilo que seus realizadores podem imaginar.
A jovem de 26 anos sonha alto. Quer escrever novelas, dirigir, atuar e ver suas produções circulando por salas comerciais, festivais e outros espaços. Entre os desejos, está até uma futura chegada ao Oscar. Ela não trata essas ambições como algo distante demais para ser mencionado. “Quero muito ver pessoas que eu nem conheço assistindo meu filme lá no São Luiz e, quem sabe, fazer essa pessoa gostar do meu filme, querer conversar comigo, querer saber mais, querer esperar outros projetos meus”, deseja.
A diretora já tem outros roteiros, alguns concluídos, outros em desenvolvimento. O desafio é conseguir financiamento para transformá-los em filmes. A experiência do Cine Maré, portanto, não elimina os obstáculos de uma carreira artística, mas permite que o trabalho saia do papel e encontre público.
O mesmo movimento aparece nas outras três produções desta edição, que apresentam diferentes maneiras de observar a cidade e seus habitantes. Em Via Crucis, dirigido por Ariel Castiel, uma mulher negra trans carrega uma cruz de madeira pelas ruas do Recife e transforma sua caminhada em uma experiência de contestação religiosa e política. O curta de 15 minutos e 51 segundos aproxima símbolos cristãos, referências afro-diaspóricas e questões relacionadas à existência e à perseguição.
Já Crônicas da Cidade de Barro, de Pajé IB, apresenta um Recife dividido entre riqueza e abandono. A trama acompanha um jovem estilista da periferia e um policial civil cujos caminhos se cruzam durante uma investigação sobre sequestros políticos. O filme de 15 minutos aborda justiça, herança e conflitos familiares.
Em Fúcsia, João Pedro Costa escolhe acompanhar Cissa, uma mulher aposentada que decide viver intensamente enquanto lida com a lembrança da irmã falecida, a palhaça Irene. Com 15 minutos e 52 segundos, o curta se movimenta entre a realidade e o delírio.

As cinco produções não obedecem a um único modelo narrativo. Há drama familiar, suspense, fantasia, crítica social e experimentação. Essa diversidade contraria uma expectativa ainda comum de que o cinema realizado a partir das periferias precise falar exclusivamente de pobreza ou violência.
OPORTUNIDADES
O Cine Maré nasceu de uma inquietação do roteirista João Henrique de Souza, um dos criadores do Mundo Bita, interessado em incentivar artistas que já produziam conteúdos nas periferias, muitas vezes utilizando apenas o celular. A proposta ganhou forma com a participação de Tássia Seabra e Shell Osmo, cabendo à Seabra Produtora a organização e a realização do projeto.
Na primeira edição, a iniciativa funcionou como um edital de incentivo à produção de filmes. A partir da segunda, ampliou sua atuação e passou a se reconhecer como uma plataforma de formação e desenvolvimento audiovisual. O laboratório oferece acompanhamento nas áreas de roteiro, direção, fotografia e produção, com a participação de profissionais do mercado.
Tássia Seabra, organizadora do Cine Maré, destaca que a intenção é fortalecer uma cadeia de profissionais que já existe, mas encontra dificuldades para acessar recursos e oportunidades. “Entendemos que na periferia tem diretores, tem roteiristas, tem produtores que estão criando conteúdos, fazendo filme, fazendo roteiros com o celular na mão e transformando suas vidas com o celular na mão”, afirma.
Ao longo das três edições, o projeto informa ter incentivado 15 produções audiovisuais. O alcance vai além dos diretores selecionados: cada curta envolve profissionais de diferentes áreas, movimentando equipes de fotografia, som, atuação, figurino e produção.
Para Tássia, o cinema também permite que experiências sociais sejam narradas por quem as conhece. “Eu costumo dizer que na periferia não existe a produção da arte pela arte. Existe a produção da arte pela sobrevivência”, observa. E completa: “São as nossas dificuldades, são as nossas mazelas sociais que a gente consegue transformar isso em arte. É alquimia”.
O desafio, porém, não termina quando um filme fica pronto. A formação de novos cineastas, pontua Tássia, precisa encontrar continuidade em editais, festivais, políticas culturais, salas de exibição e oportunidades profissionais. "Sem essas condições, muitos projetos permanecem engavetados, mesmo em um estado que costuma celebrar sua tradição cinematográfica".
Mabson reconhece essa contradição. Para ele, Pernambuco reúne uma produção cultural extraordinária, mas o acesso ao mercado continua desigual. “Ainda assim é difícil. Ainda assim é um meio muito elitista, é um meio em que poucas pessoas conseguem realizar”, avalia.
A circulação dos filmes produzidos pelo Cine Maré começa a mostrar alguns resultados. Trabalhos desenvolvidos no laboratório já participaram de festivais nacionais, incluindo uma produção premiada no Festival de Cinema de Triunfo. Na segunda edição, a exibição no Cinema São Luiz reuniu centenas de espectadores.
São conquistas importantes, embora insuficientes para resolver, isoladamente, problemas históricos de acesso ao audiovisual. O mérito da iniciativa está em oferecer estrutura para que artistas possam desenvolver suas próprias linguagens, sem depender exclusivamente da validação de quem tradicionalmente ocupa os espaços de decisão.
SÃO LUIZ
Inaugurado em 1952, o Cinema São Luiz ocupa um lugar especial na memória cultural do Recife. Para parte dos participantes do Cine Maré, entretanto, sua importância não está apenas na arquitetura ou na história da sala, mas na possibilidade de frequentá-la como realizador.
Tássia lembra que, nas edições anteriores, houve relatos de pessoas que entraram pela primeira vez em um cinema durante as atividades do projeto. Para ela, ocupar o São Luiz com filmes produzidos por artistas das periferias tem um significado que ultrapassa a programação cultural.
“Ocupar o São Luiz com cinco filmes produzidos na periferia, por pessoas periféricas, é reparação histórica”, afirma. A observação dela ajuda a dimensionar o que estará em jogo na noite deste sábado. Não se trata apenas de apresentar cinco curtas ao público, mas de permitir que seus realizadores ocupem um espaço que, durante muito tempo, esteve distante de suas possibilidades de acesso.
Luiza espera encontrar espectadores interessados em suas histórias e, a partir dessa experiência, conquistar oportunidades para continuar produzindo. Mabson ainda procura palavras para definir a emoção da estreia. Os dois compartilham o desejo de fazer do primeiro reconhecimento um ponto de partida.
“O Cine Maré me mostrou que eu consigo. O próximo ponto é seguir com as minhas narrativas e entender que eu preciso me mostrar e ocupar meu espaço”, diz Mabson.
Ele também enaltece as relações construídas durante a produção, quando as dificuldades exigiram trabalho coletivo. “O Cine Maré me deu amizades que eu vou levar para o resto da vida”, conta. Para o diretor, o resultado de A Última Presença pertence a toda a equipe que trabalhou para colocar o filme na tela.
A programação de encerramento inclui a exibição dos filmes e a premiação dos realizadores no Cinema São Luiz. As produções concorrem em nove categorias: Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Direção de Arte, Melhor Direção, Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro. Todas as categorias serão avaliadas por um júri, mas a escolha de Melhor Filme também contará com a participação do público, por meio de votação. O resultado será definido a partir do cálculo da média das avaliações dos jurados e do voto popular. Depois, as comemorações continuam no Umbral das Artes, com uma festa gratuita ao som do brega funk de Shevchenko e da banda Bateu a Química.
Para quem vê o cinema como profissão, expressão artística ou possibilidade de mudança, como Luiza, a noite representa uma conquista concreta. Mas a questão que permanece é o que acontecerá depois que as luzes da sala se acenderem. "A continuidade das nossas trajetórias dependerá de oportunidades que não podem se limitar a uma única exibição”, pontua.
Mabson, que começou escrevendo para encontrar personagens que pudesse interpretar, agora dirige uma história própria. Luiza, que levou para a ficção o calor e as contradições de Pontezinha, já pensa nas próximas produções. Ambos sabem que ainda há muito caminho pela frente.
Talvez a maior contribuição do Cine Maré esteja aí: fazer com que o sonho de realizar um filme deixe de ser apenas uma ideia distante e passe a fazer parte da vida de quem, até pouco tempo, sequer encontrava espaço para começar.
SERVIÇO
3ª edição do Festival Cine Maré
Onde: Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 175, Boa Vista, Recife)
Quando: Sábado (10), a partir das 17h30
Quanto: Acesso gratuito