“Anastácia”, de Armando Lôbo, ganha formato inédito
No domingo (31), às 17h, no Cinema São Luiz, vai ter projeção da ópera-filme e lançamento da publicação inspirada nos zines e fotonovelas, com HQs, horóscopo, variedades e acesso simultâneo à música
26 de Maio de 2026
Foto Divulgação
Ópera de Armando Lôbo que estreou em janeiro no Recife, Anastácia ganha agora um formato inovador no meio da música contemporânea de câmara. O projeto transformou-se em uma “foto-ópera”, com publicação impressa em papel e com estilo semelhante ao das fotonovelas dos anos 1970 e 1980. No Recife, o lançamento oficial será no domingo (31), às 17h, no Cinema São Luiz, com a projeção da ópera-filme, e entrada franca.
As cenas foram fotografadas em um antigo presídio localizado no centro do Recife, e que hoje abriga a Casa da Cultura da cidade. Anastácia segue exatamente o modelo das fotonovelas melodramáticas tradicionais, com fotografias e balões de diálogos acompanhando as peripécias do roteiro. A música da foto-ópera pode ser acessada facilmente e gratuitamente por smartphone através de QR CODE impresso na revista. Na publicação, além da inspiração em fotonovelas, há elementos de histórias em quadrinhos e a presença de páginas de variedades (entrevista, horóscopo, receita culinária etc.), como em um publicação comercial de décadas atrás, voltada ao entretenimento. A revista tem 32 páginas e serve também de libreto impresso para a performance do espetáculo em palco.
A ópera é uma tragédia contemporânea inspirada em passagens tocantes de algumas obras de Fiódor Dostoiévski, notadamente “Recordação da Casa dos Mortos”, “Os Demônios” e “Crime e Castigo”. O libreto também possui influência marcante de Georg Büchner, Nelson Rodrigues, Erich Neumann e citações a Eurípedes, Arthur Rimbaud e William Shakespeare. O espetáculo é uma realização da mesma equipe criativa da Ópera do Claustro, que teve temporada de grande sucesso no Recife em 2025, com superlotação e aclamação ruidosa em todas as récitas.
ENREDO
Ambientado em uma colônia penal feminina, o enredo mostra uma presidiária, de nome Anastácia, que assassina outra detenta porque esta não lhe devolvera uma bíblia. O projeto nos propõe uma reflexão catártica sobre questões de patologia, exclusão, vazio, confinamento, culpa e expiação. Com o objetivo de conjugar imaginação poética e dados da realidade social, o projeto realizou entrevistas com ex-detentas, de onde foram extraídos elementos concretos que são poetizados na encenação, que também apresenta situações fantásticas e elementos da cultura popular nordestina, como a presença marcante de Papangus endemoniados. Há também uma inusitada ciranda - dançada e cantada não à "beira-mar", mas ao redor de um cadáver -, e a abordagem de temas cruéis como perversão sexual, canibalismo e auto-imolação.
A OBRA MUSICAL
Anastácia combina elementos da ópera erudita contemporânea, ópera-rock e teatro contemporâneo, em uma abordagem dramatúrgica que se aproxima do naturalismo fantástico. Na obra, recitativos operísticos são evitados em favor de diálogos teatrais que facilitam o entendimento da trama. Todo o conteúdo harmônico e melódico da música é derivado da escala do blues e de modos da escala nordestina; este conteúdo recebe um tratamento orquestral que remete a texturas da música contemporânea de concerto. Há também passagens com programações eletrônicas feitas a partir da sonoridade de um berimbau, somado a vozes fantasmagóricas processadas. Um trio de metais (trompete, trompa e trombone) faz a metáfora sonora do meio marcial/policialesco; violoncelo, guitarra elétrica, bateria e berimbau completam a sonoridade agressiva e muito brasileira da música.
ARMANDO LÔBO
Compositor, encenador, multiartista e pesquisador pernambucano, Armando Lôbo desenvolve gêneros e estilos musicais diversos, com o uso de matizes experimentais e abordagem conceitual de tonalidade filosófica. Também concebe e produz projetos artísticos interdisciplinares, unindo vídeo, performance, teatro, literatura, música e pesquisa histórica e antropológica. Foi contemplado em diversos prêmios nacionais e internacionais, como compositor e também como diretor de filmes experimentais. Lançou cinco álbuns bem-avaliados pela crítica. Lôbo é Ph.D. em composição cênica pela Universidade de Edimburgo, Reino Unido.
MARCELO COUTINHO
Artista e professor de artes visuais da UFPB e UFPE. Mestre em Comunicação pela UFPE, doutor em Poéticas Visuais pela UFRGS e pós-doutor em Design e Cultura pela UFPE. Premiado em importantes mostras nacionais, participou das principais exposições de arte contemporânea do Brasil, entre as quais destacam-se a 30a Bienal Internacional de São Paulo e várias edições do Panorama da Arte Brasileira, promovido pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Trabalhando entre linguagens como o filme, a instalação e a performance, tem obras nos acervos do MAC-SP, MAM-RJ, MAM-BA, MAMAM-PE, entre outras instituições.
SERVIÇO
Lançamento da revista Anastásia com projeção da ópera-filme
Onde: Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 175 – Boa Vista - Recife)
Quando: Domingo (31), às 17h
Quanto: Acesso gratuito à sessão; preço da revista: R$ 40