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Mombojó, amigo do tempo e da música

Com 25 anos de carreira, grupo pernambucano lança sétimo disco, “Solar”, com show nesta sexta-feira (22/5), às 21h, no Brilho Cultural

TEXTO Yellow

22 de Maio de 2026

Chiquinho (teclado e sampler), Marcelo Machado (guitarra), Felipe S (vocal, guitarra e teclado), Missionário José (baixo) e Vicente Machado (bateria)

Chiquinho (teclado e sampler), Marcelo Machado (guitarra), Felipe S (vocal, guitarra e teclado), Missionário José (baixo) e Vicente Machado (bateria)

Foto Divulgação

Uma festa! Com músicas dançantes e o estúdio cheio de amigos fazendo participações especiais, Solar, o novo disco da Mombojó, parece uma merecida comemoração aos 25 anos de carreira da banda pernambucana. Surgida de um grupo de amigos adolescentes, a banda é um dos raros exemplos de grupo consistente, que continua compondo música relevante e fazendo shows.

A primeira música divulgada foi É o poder da dança, com videoclipe lançado em 14 de março de 2026. “A faixa é um abre-alas leve para o disco, apresentando um belo groove, mas não mostrando toda a diversidade musical do álbum”, conta Felipe S. Nela já se prenuncia o tom festivo do restante das composições e a sonoridade cada vez mais eletrônica e percussiva que marcam a fase atual da banda.

Alguns dias depois, a banda divulgou (desta vez sem clipe) Mergulhando no mar, sambinha contagiante em que Felipe canta uma provocação divertida, ensolarada, hedonista e libertária, “Eita vontade de dar…”. Para concluir com “um bom mergulho no mar”.

As oito faixas do novo trabalho são perpassadas por colaborações nas composições e gravações. Podem ser ouvidos a cantora Sofia Freire, o antigo colaborador Quéops Negrão Negronski, o cantor e instrumentista Nailson Vieira, a carioca Letrux, e músicos como Domenico Lancellotti, além de nomes-referência de fora do país, como Laetitia Sadier, da banda franco-britânica Stereolab, e os produtores franceses Hervé Salters (General Elektriks) e Anthony Malka (Le Commandant Couche-tôt). As letras surgiram, em sua maioria, de Felipe S, mas em parcerias que vão desde sua filha de seis anos Pilar (coautora de Em cima da areia), passando por China (colega em projetos como Del Rey e Coisinha), até Anderson Foca, membro da Camarones Orquestra Guitarrística (RN).

Exatamente da colaboração com Foca, vem um dos momentos mais divertidos: Abaixo a realidade é um pastiche do som new wave do Blondie e Lost in the supermarket, do The Clash. Cantada em dueto com Letrux, a letra faz uma celebração irônica à alienação, usando como referência o som de assobio sintetizado do hit descerebrado Hear me now, de Alok.

O som da Mombojó, aliás, está cada vez mais eletrônico. Chiquinho já se consolidou como um dos músicos mais requisitados da cidade, e a banda posiciona seus teclados vintage e sofisticados com orgulho, alto na mixagem. Já faz um tempo, também, que o guitarrista Marcelo Machado usa uma guitarra Casio para fazer sons de sintetizador, e, neste disco, todas as faixas contam com mais teclados do produtor Leo D e de outros convidados. A mistura com instrumentos acústicos, como a escaleta que pontua o refrão de Sob o vento forte, somada ao uso cada vez mais consciente de ritmos populares, cria uma forte identidade para a banda. E momentos únicos, como a ciranda eletrônica Em cima da areia.

No intervalo desde o último álbum de inéditas (Deságua, 2020, trilha sonora do filme de Luan Cardoso), a banda continuou criando e lançando música. Em 2023, formalizaram a duradoura parceria com a francesa Laetitia Sadier, vocalista da banda Stereolab e uma de suas principais influências, com o lançamento de um disco (What will you grow now?) sob o nome de uma nova banda, Modern Cosmology. Em 2024, lançaram Carne de caju e Extra, EP e single com versões de músicas de Alceu Valença, que valeram reconhecimento nacional (Melhor Grupo de Pop/Rock no Prêmio da Música Brasileira) e shows empolgantes. No final do ano passado, os Mombojós realizaram o sonho de uma turnê europeia, como banda de abertura para a já citada Stereolab.

Talvez devido a essa agenda cheia, deixaram pra lançar agora o novo disco, embora tenha sido gravado entre 2023 e 2024, no Estúdio Pólvora, às margens do Açude de Apipucos. A alegria que exala de todas as músicas ecoa a época em que elas foram gravadas – o final do período de isolamento imposto pela pandemia da Covid-19, e a transição política do país. A energia contagiante de Solar é muito bem-vinda agora, ano eleitoral no Brasil e com novas investidas fascistas no país e no mundo.

Quem estiver no Recife e quiser pegar um bronze com esta fase ensolarada da Mombojó, pode ir, nesta sexta-feira (22/5), às 21h, ao Brilho Cultural (Edf. Douro, R. Ulhôa Cintra, 122 - Santo Antônio), com ingressos à venda no link. No sábado, a banda vai lançar oficialmente Solar em Natal (RN), no Atelier Bar, e, domingo, em João Pessoa (PB), na Vila do Porto.

YELLOW, designer, músico, mestre em Ciências da Linguagem, professor de Jogos e Animação

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