António Zambujo canta sua "Oração ao tempo" no Parque
Cantor, compositor e violonista português se apresenta pela terceira vez no Recife, em show que comemora seus 50 anos
TEXTO Álvaro Filho
08 de Maio de 2026
Foto Kenton Thatcher/Divulgação
António Zambujo completou 50 anos em setembro do ano passado. Data redonda, meio século de vida, daqueles marcos que nos convidam à realização de um inventário existencial. Essa contabilidade dos segundos, minutos, dias vividos, a auditoria do que foi feito e ainda está por fazer, permeia o novo trabalho do músico português, Oração ao tempo, título emprestado à pequena obra-prima de Caetano Veloso, que no disco a interpreta em dueto com Zambujo.
Diriam os portugueses, é um disco “como deve ser”, redondo, com início, meio e fim, orbitando na temática do tempo. Desde a capa, na qual António Zambujo surge como a divindade romana Jano, deus da passagem dos anos, de duas faces, mirando o passado e o futuro (não à toa, batiza o mês de janeiro). A linha do tempo costurando todas as 15 faixas, executadas com elegância e o minimalismo harmônico de costume, desde sempre marcas-registradas do músico.
António Zambujo está de volta ao Recife. É a terceira vez, a oportunidade de reencontrá-lo ou de conhecê-lo, mas sempre um privilégio, ao alcance dos pernambucanos presentes ao concerto deste sábado (9), às 19h30, no Teatro do Parque. Ele vem acompanhado de banda, formada por Bernardo Couto (guitarra portuguêsa), José Conde (clarinete), João Moreira (trompete), Francisco Brito (contrabaixo), João Salcedo (piano) e André Santos (guitarra e direção musical). O show tem participação especial da cantora pernambucana Isadora Melo.
O português não esconde: os 50 anos recém-comemorados estão no cerne da eleição do tema. “Pois é, caiu a ficha”, resume, apropriando-se de um ditado bem brasileiro, já que os telefones públicos portugueses nunca recorreram a fichas. “Acabamos por gastar o tempo de forma desnecessária. Tenho pensado cada vez mais em como aproveitá-lo melhor possível, com o que mais gosto de fazer”, reflete Zambujo.
E as escolhas do cantautor sobre o que importa ou não na vida são reveladas ao longo do disco, logo a partir da primeira faixa, Pequenos prazeres, até a apoteótica Mestre dos batuques. Esse diálogo íntimo e sincero do músico com o tempo, gentilmente partilhado com os fãs, não está apenas ligado à passagem dos anos.
António Zambujo vive em Lisboa, é um homem do mundo, é verdade, mas ainda carrega, seja no sotaque mais aberto do que o lisboeta ou numa certa timidez nos gestos, o Alentejo onde nasceu, na simpática Beja, uma região portuguesa onde os dias seguem uma rotina mais lenta, silenciosa, discreta, amistosa e calorosa. É no Alentejo onde António Zambujo busca refúgio entre as turnês. Mas não é só descanso.
Há três anos, na companhia de dois amigos, abriu a Adega Zabele, resgatando uma antiga cave fundada em 1879. A ideia é resgatar as raízes alentejanas, no caso, as raízes das videiras, aliando o vinho e a música. Os três primeiros rótulos trazem o nome de álbuns do cantor, Outro sentido, Guia e Quinto. Já O meu cante e O mesmo fado são referências ao percurso musical de Zambujo, o tradicional cante alentejano e os sete anos como fadista atuando na casa lisboeta Sr. Vinho.
O tempo, portanto, não são só os anos porvir, mas também é nostalgia. No disco e nos palcos, como o do Teatro do Parque, António Zambujo intercala algumas músicas com poemas que recita. O mais tocante deles Nº 9 5º frente, do poeta João Paulo Esteves da Silva, que a partir do endereço do título, ao estilo bem português, relata as memórias de um filho em relação à morada de infância.
Tempo, tempo, tempo, portanto, como no verso da canção de Caetano. A unidade temática da obra foi uma opção do músico, um cuidado melhor dizendo, como se o disco fosse um livro a ser lido numa ordem concebida pelo autor. “A partir da escolha do tema, pensei no disco como um todo. Há quem consegue lançar single a single, mas ainda prefiro a forma como cresci escutando música, do princípio ao fim, respeitando a sequência organizada pelo artista”, explica.
Essa urgência em não ter pressa só não se aplica na hora de sentar-se diante do público. A atual turnê brasileira, com espetáculos diários em capitais distintas, incluindo uma terceira passagem ao Recife, é um exemplo disso. “Para cantar e tocar, o que mais gosto de fazer na vida, tem que se fazer sacrifícios. Aceito abdicar desta filosofia, portanto”, diverte-se.
Em 2026, são 12 escalas, duas a mais em relação à turnê do ano passado. Um sinal do crescente interesse do público brasileiro pelo autor. Relação à distância, tudo bem, com um oceano pelo meio, mas que começou a se encurtar em 2016 após Até pensei que fosse minha, onde canta as músicas de Chico Buarque. Vem daí também um manifesto público de Caetano Veloso alertando sobre a qualidade do músico português, seguido das parcerias com Ney Matogrosso, Roberta Sá e Ivan Lins.
Um percurso natural de aproximação ao Brasil, diz António Zambujo, para quem cresceu com a música brasileira a girar na vitrola. Samba, choro, as valsinhas, a bossa nova, especialmente o banquinho e o violão de João Gilberto, desde sempre uma inspiração. “Impressionava-me a forma como o João Gilberto cantava, fundindo uma vastidão de gêneros na voz e no violão.”
A influência brasileira não parou no tempo. António Zambujo curte o indie de Los Hermanos, dos amigos Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo - esse último seu vizinho em Lisboa. Tem ainda pego carona no Spotify do filho Diogo, de 27 anos, (músico e que o acompanha na atual turnê), ouvindo a nova cepa da MPB, de Chico Chico a Dora Morelenbaum e Tim Bernardes.
Nas duas passagens anteriores pelo Recife, António Zambujo também foi apresentado ao frevo. “Na primeira, era perto do Carnaval e alguns amigos me levaram para ouvir o frevo na rua. Na segunda, foi o público que cantou para mim durante o concerto, com o Yamandu Costa a tocar. Foi emocionante”, recorda-se.
Quem sabe agora, não lhe apresentem o brega funk do Recife?
SERVIÇO
António Zambujo – Turnê “Oração ao Tempo”
Onde: Teatro do Parque - Rua do Hospício, 81, Boa Vista
Quando: Sábado (9/5), às 19h30
Quanto: Social: R$ 170,00 (+17,00 taxa) / Camarote: R$ 150,00 (+15,00 taxa) no Sympla