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Os mistérios de Clarice Lispector

Clarice Lispector não fez outra coisa a não ser se movimentar em direção à própria liberdade

TEXTO CLÁUDIA NINA

01 de Janeiro de 2004

A escritora faleceu em 9 de dezembro de 1977

A escritora faleceu em 9 de dezembro de 1977

Foto Reprodução/ Acervo IMS

[conteúdo vinculado ao dôssie de resportagens sobre Clarice Lispector | ed. 036 | janeiro de 2004]

Falar de Clarice Lispector
não é referir-se a uma só pessoa. Nem tampouco a uma escritora de obra homogênea e sem fissuras. Clarice Lispector é múltipla em vida e obra. Talvez por isso a sua fortuna crítica seja tão extensa, incluindo aí os trabalhos biográficos que tentam rastrear a mulher por trás do mito. Ao perfil de uma Clarice que gostava de ir a cartomantes, era supersticiosa, acreditava no poder dos números e tinha um cachorro chamado Ulisses, soma-se a silhueta de mistério, penumbra e até um soturno encantamento de quem fazia questão de manter uma aura enigmática e que, atormentada pela idéia de morte, em uma de suas últimas entrevistas, já doente, chegou a dizer: “Estou falando de dentro do meu túmulo”.

A obra de Clarice Lispector reflete essa complexidade e o caráter múltiplo que marcou a personalidade da autora. Não se prendeu a um gênero. Aliás, passou a detestá-los à medida que seus escritos iam perdendo contornos precisos. Começou no romance, com Perto do Coração Selvagem, a bela estréia de 1944, mas também foi brilhante contista e, a partir de fins da década de 1960, iniciou nas crônicas, publicadas no Jornal do Brasil, primeiro como uma forma de ganhar dinheiro nos anos difíceis após o divórcio, mas depois acabou tomando gosto; sua ficção chegou a ser diretamente influenciada pelo estilo pessoal e delator com que se lançava nos textos da imprensa.

Tudo o que Clarice Lispector escreveu, seja em qual gênero, foi perturbador. Fingia escrever fácil, mas, por trás de uma simplicidade enganosa, havia um arranjo altamente elaborado, filosó-fico e metafísico. A bruxaria – tão comentada em função de sua participação num congresso de bruxaria na Colômbia – também veio daí: desta mistura fabulosa que “amarra” os leitores pelo pé. Impossível manter-se indiferente a uma escritora como ela.

Clarice escreveu de tudo um pouco, sempre tendo como ponto de partida a vida urbana e o cotidiano, transformado em “delicado abismo da desordem”, como escreveria mais tarde em A Legião Estrangeira. Num tempo ainda fortemente marcado pela literatura regionalista, em meados da década de 1940, sua escrita diferenciada surgia com impacto surpreendente. Romance de formação (Bindungsroman), aventura da linguagem por excelência, Perto do Coração Selvagem trazia, em sua porosa estrutura, a palavra como sendo a grande estrela da narrativa, mais importante do que os fatos ou a história em si. Não é à toa que Joana, a personagem, brinca de criar poemas desde criança. Chega a inventar uma palavra – “lalande”, o seu abracadabra, que pode ser qualquer coisa: uma lágrima de anjo, um mar de madrugada, uma praia ainda escurecida...

Logo após o sucesso de Perto do Coração Selvagem, críticos e leitores procuravam por um rosto – onde estava Clarice? Quem era a autora daquele romance tão singular que redimensionava a linguagem literária brasileira da época? Poucos sabiam. Afinal, Clarice partira para seu exílio pessoal acompanhando o marido, o diplomata Maury Gurgel. Logo ela, que nasceu na Ucrânia, mas se considerava a mais brasileira das brasileiras, que passara a infância no Recife, sua mais doce lembrança, e a adolescência no Rio, onde se formou advogada, viveria quase 16 anos entre a Europa e os Estados Unidos. Uma tortura, como atestam as várias cartas que escreveu no exterior e que montam um excelente e curioso epistolário, parte dele já publicado em livro.

No exílio, a literatura foi a grande salvação emocional de Clarice. De lá, a autora enviou três romances – O Lustre, A Cidade Sitiada e A Maçã no Escuro – obras densas, soturnas, que falam de personagens solitários e estranhados em seus desertos pessoais, numa atmosfera totalmente diferente daquela que marcou sua estréia. Interessante é observar, portanto, que a autora nunca teve medo de romper consigo mesma em busca da novidade. Sua obra é marcada por rupturas, uma delas a que inaugura a fase que se inicia após Perto do Coração Selvagem.

Os romances escritos durante o período do exílio, ao contrário da estréia, não tiveram uma boa aceitação por parte da crítica e – insondáveis razões – ainda hoje permanecem como “patinhos feios” de sua ficção. Talvez seja justamente por eles terem “frustrado”, por assim dizer, leitores que esperavam da autora uma carreira de continuidade; esperava-se que ela escrevesse algo semelhante ao primeiro romance ou que, pelo menos, fosse algo que aprofundasse um estilo quase já consagrado em sua nascente. Clarice, no entanto, optou pela surpresa. Para o bem ou para o mal.

Ao longo de sua carreira, a autora também não ficou restrita ao gênero com que iniciara. Aliás, ela começou, na verdade, escrevendo contos quando, ainda bem jovem, tentava emplacar nas páginas de jornal do Recife, sem sucesso. O grande público a conheceu primeiro como romancista, só depois vindo a descobrir o extraordinário talento da autora para as narrativas curtas, como o comprovam os preciosos contos reunidos em Laços de Família e A Legião Estrangeira, pertencentes a momentos distintos da trajetória de Clarice, mas igualmente intensos e magistrais. É em A Legião Estrangeira, por exemplo, que está o enigmático “O ovo e a galinha” (lido durante aquele tal congresso de bruxaria), em que se encontra a chave para uma melhor fruição – e não compreensão – da literatura da autora – “Entender é a prova do erro”.

De volta ao Brasil, em fins de 1950, Clarice Lispector inicia uma nova fase. Mais uma ruptura. Seria como a travessia de um deserto, representada em A Paixão Segundo GH, de 1964, um dos textos mais complexos da obra clariceana e que marca uma verdadeira guinada em sua carreira. Pela primeira vez, um romance escrito inteiramente na primeira pessoa e uma corajosa reformulação da estrutura narrativa. Protagonista e narradora – a GH do título – são a mesma pessoa e a mesma voz num tom discursivo sobre os mais diversos temas que envolvem a vida e a morte.

O romanesco desfaz-se aos poucos. É o anúncio da maturidade de Clarice Lispector que, nas obras tardias, iria dizer: “Gêneros não me interessam mais”. Ou então: “Eu nada planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis”.

É neste “delicadíssimo, esquizóide e esquivo” abismo de caos e desordem que Clarice Lispector passa a vivenciar sua literatura a partir de A Paixão Segundo GH, especialmente com os escritos tardios, como Água Viva, Onde Estivestes de Noite, Um Sopro de Vida (póstuma) e A Hora da Estrela – obra-síntese de sua história literária.

Neles, não só a noção de gênero se estilhaça, como toda e qualquer definição, regra ou parâmetro. Tem-se a impressão de que Clarice Lispector, ao longo de todo o seu itinerário, não fez outra coisa a não ser se movimentar em direção à própria liberdade, devassando os limites da criação e da arte, radicalizando seu projeto literário, já audacioso em sua primeira incursão. É ela mesma que diz em Água Viva: “Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero também a inconseqüência. Liberdade? É o meu último refúgio. Sou heroicamente livre. E quero o fluxo”.

Cláudia Nina é jornalista e autora de A Palavra Usurpada: Exílio e Nomadismo na Obra de Clarice Lispector (EdiPucRS, 2003).

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