As músicas dolosas
Breve linha do tempo da misoginia nas letras da música brasileira, que se desenvolve ao longo do século XX e atinge seu apogeu no funk carioca do século XXI
TEXTO Débora Nascimento
01 de Abril de 2026
Ilustração Greg
Noite de 30 de dezembro de 1976, Praia dos Ossos, Búzios, Rio de Janeiro. Quatro tiros à queima roupa são disparados: três no rosto e um na nuca. Ângela Diniz, aos 32 anos, agoniza. Diante do corpo, o namorado Raul Fernando do Amaral Street, mais conhecido como Doca Street, está com uma pistola Beretta ainda quente na mão. O assassinato da socialite mineira, radicada no Rio, pelo playboy carioca, escandalizou o país e atraiu a cobertura midiática. O nome de Ângela saiu das colunas sociais para as páginas policiais.
Em janeiro de 1977, o assassino entregou-se à polícia e, em 1979, foi condenado a apenas dois anos de prisão, devido ao argumento do advogado: “legítima defesa da honra”. Após reação do movimento feminista, essa tese foi rejeitada em um novo julgamento e Doca recebeu condenação de 15 anos de prisão por homicídio doloso, mas cumpriu apenas três anos em regime fechado. Somente em 1º de agosto de 2023, a “legítima defesa da honra” passou a ser declarada inconstitucional no Brasil.
Em 1976, após três meses de namoro com Doca Street, Ângela, uma mulher livre, desquitada, com três filhos menores de idade, foi assassinada porque o namorado não aceitou o fim do relacionamento. O homem colocou-se como vítima das circunstâncias.
Neste 2026, 50 anos depois do assassinato, a tese do então renomado jurista, ex-ministro do STF e ex-procurador-geral da República, Evandro Lins e Silva, é considerada estapafúrdia, um disparate, um escárnio. No passado, no entanto, o argumento encontrava respaldo na sociedade brasileira, devido à atmosfera de romantização do “crime passional” (termo em desuso) que existia com mais ênfase no país de então. Para a tese da defesa conseguir êxito, era necessário cumprir outro estratagema: difamar a vítima.
Num contexto assim, os machistas, criminosos de fato ou não, encontravam uma aliada de peso e insuspeita: a música popular brasileira. É incalculável o efeito que a força da canção embrenhada nas diversas esferas da sociedade brasileira pode causar no imaginário coletivo. Basta dizer que, por causa de uma composição de Mário Lago e Ataulfo Alves (“Ai, que saudade da Amélia”), Amélia se tornou adjetivo de mulher submissa e extremamente tolerante com os erros do marido. É imensurável o quanto o cancioneiro nacional alimenta o ideário machista, potencializado na vida contemporânea pelo movimento Red Pill (subcultura online da machosfera que vilaniza as mulheres e prega violência contra elas).
CONTEÚDO NA ÍNTEGRA
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