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Comportamento

Elenco mais politizado

Há 20 anos no ar, 'Big Brother Brasil' adequou aos poucos seu perfil de entretenimento e tem se tornando estudo de caso sobre temas sociais em disputa

TEXTO Márcio Padrão

01 de Abril de 2022

Ilustração Rafael Olinto

[conteúdo na íntegra | ed. 256 | abril de 2022]

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Estou orgulhoso de ter virado símbolo para o movimento gay, mas tenho consciência de que só a comunidade GLS não me garantiria lá. Foi preciso que eu conquistasse um público mais amplo. Foi uma vitória não só para a comunidade gay, mas para a diferença em geral, para qualquer oprimido, que esteja à margem.” Esta declaração, lida sem contexto, poderia ser o discurso de agradecimento de um político que assumiu publicamente sua homossexualidade, logo após sua vitória nas eleições para um cargo nos poderes Executivo ou Legislativo. Mas na verdade foi a resposta de Jean Wyllys à Folha de S.Paulo em março de 2005 ao tentar explicar sua vitória na quinta edição do Big Brother Brasil.

Dezessete anos depois, sabemos que de fato Wyllys migrou para a política, filiando-se ao PSOL em 2009 e elegendo-se deputado federal no ano seguinte. Mas é possível dizer que sua conquista no reality show da TV Globo tenha sido não apenas seu primeiro palanque político, mas também um game changer na forma como o público consumia aquela atração até então. De entretenimento frívolo, o BBB (apelido do programa até hoje) começou a ganhar contornos sociais novos. Não apenas a vitória de Jean provava isso, mas também a eliminação de seu maior rival na edição, o médico Rogério Padovan, que na época recebeu o recorde de 92% dos votos do público para deixar o programa.

Ao longo dos anos, o BBB tornou-se uma ilha de pequenas grandes polêmicas sociopolíticas. Desde o início, o programa já atraía olhares tortos por seu formato, que tem como principal exigência o isolamento social dos participantes em uma casa-estúdio por cerca de três a quatro meses, ao mesmo tempo que são filmados 24 horas por dia. Críticos falaram que o programa estimula emoções negativas tanto em seu elenco quanto no público, como exibicionismo, voyeurismo e agressividade. Essa impressão ainda persiste para muitos até hoje, mas após o case Jean Wyllys, o programa parecia ir além desse panorama ao sentir os ventos da mudança na sociedade brasileira. Intencionalmente ou não, os moradores da casa vigiada abordaram ou foram protagonistas de temas delicados como racismo, machismo, homofobia e violência psicológica. E até mesmo a política tradicional, como alinhamentos à esquerda ou direita, passou a ser assumida pelos confinados. Já o público, que antes se bastava com o desfile de tipos e barracos dos brothers, passou não só a aceitar como a estimular tais debates.

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A trajetória do Big Brother, o reality show, é amplamente contada e recontada. Surgiu em 1999 na TV holandesa com seu nome emprestado de 1984, aclamado livro de ficção distópica do britânico George Orwell. Na trama, o mundo é regido por apenas três estados totalitários. A antiga Grã-Bretanha, onde se passa a trama, tem sua população direcionada pelo Grande Irmão (Big Brother, em inglês), que adota vigilância constante das pessoas por meio das teletelas — um sistema que combinava televisores, câmeras e microfones escondidos. O livro foi escrito em 1948 e lançado no ano seguinte. Orwell morreria de tuberculose pouco depois, em 1950.


Elenco do primeiro BBB, que foi ao ar entre janeiro e abril de 2002.
Imagem: Divulgação/TV GLOBO

A ideia do programa de TV partiu do holandês John de Mol, criador da produtora Endemol, dona da propriedade intelectual do formato até hoje. De Mol já chegou a ser uma das 500 pessoas mais ricas do mundo e, atualmente, tem uma fortuna pessoal de US$ 2 bilhões, segundo a Forbes. A estreia do programa no seu país natal ocorreu em 1999. A inspiração de De Mol não foi apenas o livro de Orwell, mas também o projeto americano Biosfera 2, no qual 15 pessoas viviam isoladas do resto do mundo em duas missões entre 1991 e 1994, para testar como humanos conseguiriam coexistir e prover seus alimentos e atmosfera em outros planetas. O produtor fez um pequeno pastiche do ambiente totalitário-vigiado da literatura e misturou com o conceito de ambiente de sobrevivência do experimento social e científico. Saiu desse combo a semente do reality show moderno, o formato televisivo que tem como mote retratar pessoas comuns em desafios ou situações corriqueiras — ou pelo menos algo próximo disso.

A fórmula do Big Brother, o programa, foi importada para mais de 60 países. No Brasil, começou em 2002 após uma queda de braço da Globo contra a concorrente SBT, que lançou a cópia Casa dos Artistas com grande repercussão no ano anterior. Três anos depois, a entrada de Jean no BBB 5 foi uma virada para muitos na época. Até então, o elenco incluía em sua maioria pessoas com carreiras de ascensão à celebridade, como dançarinos, modelos e atletas; ou outros tipos de empregos mais técnicos, como cabeleireiros ou guias turísticos. Já o baiano era um nítido intelectual: tinha, aos 31 anos, currículo de jornalista com mestrado em Letras, professor de Cultura Brasileira e de Teoria da Comunicação. Assumiu sua homossexualidade já no seu primeiro paredão, como é chamado na atração o agrupamento de possíveis eliminados da semana. Magrinho, inteligente, simpático e orgulhoso de suas origens e opção sexual em um país abertamente machista, foi um “patinho feio” em meio a jovens sarados do padrão branco-hétero-cis e tornou-se um inesperado sucesso de público.

Nas edições seguintes, houve um retorno ao básico: os elencos do BBB 6 ao BBB 9 entraram apenas para se tornarem famosos e/ou concorrerem ao prêmio de R$ 1,5 milhão, causando no programa os romances, brigas, fofocas e cenas cômicas de praxe. Mas o BBB 10, em 2010, trouxe outro embate similar a Jean x Rogério. Pela primeira vez, o programa escalou três pessoas LGBT: o estudante de moda Serginho “Orgastic”, o maquiador e drag queen Dicesar Ferreira e a jornalista Ana Angélica “Morango” Martins. Esse grupo bateu de frente com o lutador Marcelo Dourado, que demonstrou em diversas ocasiões antagonismo contra o trio. Disse ter perdido o apetite quando o papo da casa era sobre uma balada gay, além de ter dito a falácia de que héteros não contraíam Aids. Recentemente Dourado, que acabou vencendo aquela edição, desculpou-se pelo seu comportamento.

 

Desse ponto em diante, cada nova edição trazia uma problemática social nova. O BBB 11 teve sua primeira participante trans, Ariadna. No BBB 12, houve uma acusação de estupro ao participante Daniel, após deitar-se por trás da colega Monique, então embriagada; apesar das câmeras terem flagrado carícias e movimentos por baixo do edredom, ele foi inocentado na Justiça. Em 2014, as sisters Vanessa e Clara formaram um romance lésbico. No BBB 15, o participante Luan disse que cometeu um assassinato quando servia ao exército durante a invasão ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em 2010. O participante Laércio, do BBB 16, foi acusado de pedofilia e supremacia branca e foi preso um mês após sua eliminação. A participante Emily foi pressionada contra a parede por Marcos, com quem teve um caso na edição de 2017, e dias depois ele foi expulso após pressão do público e da polícia. No BBB 20, o ator Babu Santana discursou sobre o processo de racismo na história do Brasil e em sua própria trajetória. No BBB 21, a advogada paraibana Juliette Freire foi vítima de xenofobia, e o ator Lucas Penteado sofreu violência psicológica — a cantora Karol Conká foi a “vilã” de ambos os casos, o que lhe rendeu o atual recorde de votação de eliminação: 99,17%.

Antes considerado um tema tabu, a menção a políticos surgiu conforme a polarização dividiu o país em 2018, ano em que Luiz Inácio Lula da Silva foi preso a poucos meses das eleições, vencidas por Jair Bolsonaro. Naquele mesmo ano, a vencedora do BBB 18, Gleice Damasceno, gritou “Lula Livre” ao vivo, e seu colega de confinamento Viegas adotou o bordão “Fora, Temer” e citou Amarildo — ajudante de pedreiro desaparecido em 2013, e depois dado como morto, por meio de uma ação policial.

Em 2021, a participante Sarah sofreu rejeição do público e um dos motivos apontados foi uma declaração dela favorável ao presidente Jair Bolsonaro, falando apenas “eu gosto dele”. Enquanto o reality estava no ar, o Brasil atingia recordes diários de casos e mortes na pandemia da Covid-19. O ex-deputado federal promoveu mentiras sobre remédios e tratamentos ineficazes e estimulou o público a ignorar métodos de prevenção ao contágio do vírus. Na mesma edição, Gil do Vigor e Arthur Picoli falavam positivamente sobre Lula e seu partido, o PT. Gil chegou ao quarto lugar da disputa, enquanto Arthur saiu apenas a uma semana da final.

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Os espectadores mais experientes, principalmente os que acompanham pela TV por assinatura 24 horas por dia, sabem que a produção dá sinais discretos aos participantes, por avisos em pequenas telas ou nos alto-falantes, para mudarem de assunto quando a conversa esbarra em temas “proibidos”. Tais temas seriam detalhes dos bastidores do BBB; por exemplo, o confinamento no hotel antes de entrarem na casa, frases que ouviram da equipe de filmagens ou o que conversaram dentro do “confessionário” — uma sala onde cada brother entra sozinho para situações específicas, como as votações ou pedidos à produção.

Também não podem citar nominalmente empresas que não estejam na lista de patrocinadores do reality. Às vezes o elenco usa códigos ou sinônimos para driblar a proibição e falar sobre esses temas, como aconteceu no ano passado. Lula era citado como “13”, e Bolsonaro, como “nosso presidente”. No entanto, no começo deste ano, portais de internet como o UOL e o Metrópoles noticiaram que o tema política, se um dia foi expressamente proibido, não é mais uma questão para a direção do programa. Agora os participantes estariam liberados; só são orientados a evitarem termos considerados ofensivos para os políticos, como ladrão, racista ou genocida.

Do lado de fora, a preferência dos ex-BBBs Gil e Arthur por Lula não passou batida pelo líder petista. Em maio do ano passado, Arthur tuitou: “Pelo amor de Deus, chega de falar de política? Bora falar de matemática!!! Uma dúvida: 20 menos 7 = ????”. Como o resultado da conta é 13, o instrutor de crossfit levantou a bola para Lula e o PT cortarem. “Vem com a gente, Arthur!”, respondeu @PTbrasil, perfil oficial do partido no Twitter. A de Lula, por sua vez, respondeu com um emoji de olhos atentos e outro de uma bandeira vermelha. Com Gil, a química foi além. Em agosto, houve uma interação entre os dois no qual concordaram que a tática de Jair Bolsonaro de criar polêmicas não era produtiva. No mês seguinte, ambos foram convidados do programa de debates Triangulando, apresentado pela vencedora do BBB 20, Thelma Assis, em seu canal no YouTube. “Eu vim de escola pública e hoje estou no PhD. Isso nunca seria possível se lá atrás alguém não tivesse entendido a importância de trazer o pobre para onde ele deveria estar. Sou extremamente grato e apaixonado pelo governo do presidente Lula, que pensou em quem precisava”, disse Gil. Já Thelma também agradeceu o ex-presidente pelo Prouni (Programa Universidade para Todos), criado em seu governo e que a teria ajudado a se formar em Medicina pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), uma faculdade particular.


Grazi Massafera e Jean Wyllys, finalistas do BBB 5, consolidaram suas carreiras após o programa. Imagem: Divulgação/TV GLOBO


Dicesar Ferreira, Serginho "Orgastic" e Ana Angélica "Morango", do
BBB 10. 
Imagem: Divulgação/TV GLOBO

Ciro Gomes, presidenciável centrista deste ano, também reconheceu a popularidade do BBB e criou uma tática de campanha: sua equipe de redes sociais criou a hashtag #BBBDoCirão para fazer sátiras políticas e cutucadas nos adversários tendo o reality show como cenário. “HOJE TEM PROVA DO LÍDER: Lula não vetou Dilma na prova e ela colocou o país na xepa. Temer usurpou o quarto e todos perderam direitos e estalecas. Aí veio Bolsonaro e indicou os brasileiros pro castigo do monstro. Agora tá todo mundo no paredão! O Brasil tá vendo!”, tuitou Gomes no começo de fevereiro. Seu colega no PDT, o pernambucano Túlio Gadelha, também é um ávido comentarista do programa, e políticos de outros espectros, como Marina Silva (Rede), Kim Kataguiri (DEM) e João Doria (PSDB), também postaram paródias suas ao BBB.

Já Bolsonaro, conhecido por seu alto poder de engajamento em sua base de eleitores nas redes sociais, tem optado pelo silêncio quando o tema é o reality. Não custa lembrar que um ex-BBB, Jean Wyllys, foi um de seus maiores adversários políticos quando dividiram cadeiras na Câmara dos Deputados. Foi notória a briga entre ambos no dia da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff em abril de 2016, que começou com o ex-capitão exaltando o torturador Carlos Brilhante Ustra e Wyllys cuspindo na cara do hoje presidente da República. Atualmente, o baiano mora na Espanha porque diz ter se cansado da perseguição política de bolsonaristas. Por conta disso, desistiu de seu terceiro mandato como deputado federal, no começo de 2019.

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O que teria causado essa evolução do BBB de um programa meramente escapista para uma vitrine política e de pautas identitárias? Como qualquer produto cultural, é possível supor que foi um movimento de mão dupla: tanto o programa passou a escalar participantes e liberar esse tipo de debate quanto o público e seus participantes instigaram tais assuntos voluntariamente. É o que defende Thiago Soares, professor do programa de pós-graduação de Comunicação Social e coordenador do grupo de estudo Grupop, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Personagens do reality parecem encenar certas pautas em voga, como o racismo, feminismo e homofobia. Essas figuras são escolhidas por um comitê interno, e é essa escolha que vai fazer do reality show algo singular. O Jean Wyllys saiu do Big Brother para ser político. Gil do Vigor (participante gay do BBB 21) saiu para ser garoto-propaganda de bancos. Isso diz muito sobre como a pauta LGBT vai mudando ao longo do tempo, sendo incorporada nas dinâmicas de consumo.”

Jean não foi o primeiro homossexual do BBB: esse troféu é de André Gabbeh, professor de canto da primeira edição, de 2002. Mas sua opção sexual não gerou grandes debates na época. Da mesma forma, Angélica “Morango”, do BBB 10, não foi a primeira mulher a assumir que gostava de mulheres: antes dela vieram as bissexuais Fani Pacheco, do BBB 7, e Bianca Jahara, do BBB 8, embora ambas não tenham assumido isso durante o confinamento, como fez a jornalista mineira, que teve no heterotop Marcelo Dourado um grande rival no confinamento. Em retrospecto, ela disse à reportagem que a relação do público com o reality show está mais pautada pela discussão pública, algo que “no seu tempo” era mais discreto. “Hoje o público não fica limitado ao que é exibido à noite na Globo, mas vê, interage e compartilha opiniões sobre na internet. As manifestações nas redes, as hashtags etc., têm um poder enorme na forma como tudo agora é conduzido”, opina. “Por tudo isso acredito que, sim, hoje o resultado da edição de 12 anos atrás poderia ser diferente”, especula.

Fora das câmeras da “casa mais vigiada”, grupos LGBT eram violentados e mortos ano a ano. Os grupos Acontece Arte e Política LGBTI+ e Grupo Gay da Bahia (GGB) lançaram em 2021 um levantamento conjunto chamado Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+. Em 2000, dois anos antes da estreia do reality show, foram 130 mortes de gays, lésbicas e trans no Brasil. Já em 2010, época da vitória de Marcelo Dourado, foram 260. O pico foi em 2017, com 445 óbitos — ano em que a travesti Dandara Kettley foi espancada e morta a tiros em Fortaleza, causando comoção no país. Por fim, foram 237 mortes em 2020. Em resumo, nos últimos 12 anos houve um crescendo de casos, e a curva voltou a cair nos últimos quatro anos. Mas seria leviano apontar uma relação direta de causa e efeito entre o BBB e estes números; é bem provável que o aumento da presença LGBT no programa seja consequência, e não causa, de uma intensificação da consciência de que esses grupos não podem mais ser invisibilizados ou silenciados.

De um único gay em um grupo de 12 pessoas, em 2002, o Big Brother Brasil chegou em 2022 com seis participantes fora do padrão hetero-cis: a atriz e cantora Maria, o bailarino Luciano Estevan, o ator Tiago Abravanel, o bacharel em Direito Marcus Vinícius, a influenciadora Brunna Gonçalves e a cantora trans Linn da Quebrada. Por outro lado, esta última foi apenas a segunda participante transgênero em 20 anos de programa. Linn, por sinal, teve dificuldades com alguns participantes que acidentalmente chamavam-na pelo pronome errado, “ele” em vez de “ela”. “A grande questão com a Ariadna era se as pessoas descobririam se ela era trans. Com a Linn, não. Ela já entra como uma pessoa trans. Me parece que há uma certa acomodação da questão trans como uma pauta de debate”, diz Soares.

Já Levi Kaique Ferreira, influenciador digital ligado às causas negras, concorda que o tema vem deixando de ser tabu, embora ainda falte algum caminho a percorrer. “Eu tenho certeza de que nos outros anos, tínhamos, sim (no BBB), outras pessoas bissexuais e homossexuais que não eram assumidas em função da homofobia. Essas mudanças refletem o nosso país atual, um aumento do orgulho de ser parte da comunidade. Embora ache que o público ainda seja um tanto conservador. A gente teve o Gil, que foi muito amado por ser quem ele é. Com relação a pessoas trans, ainda é um caminho de formiguinha, começando agora, mas acho que futuramente vai ser algo maior.”

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Um dos pontos mais discutidos no BBB 21 foi um desabafo emocionado do participante João Luiz. Como se sabe, uma das dinâmicas do programa chama-se Castigo do Monstro. Nele, o vencedor da Prova do Anjo — status que, por sua vez, dá a algum participante o poder de imunizar um confinado para o próximo paredão — também escolhe um ou mais brothers para passar um tempo pagando alguma penitência. Em um destes castigos, os participantes Caio e Rodolffo se vestiram com trajes dos tempos das cavernas. Ao colocar a peruca com cabelos crespos, Rodolffo disse: “a gente está com o cabelo quase igual ao do João”. A fala repercutiu nas redes sociais e ainda causou tristeza no professor de geografia. Dias depois, disse em um momento ao vivo, às lágrimas: “Não adianta vir com discurso de que não foi sua intenção, estou cansado de ouvir isso. Nunca ninguém tem a intenção de machucar a gente”. Em abril, a Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar se houve crime de preconceito racial, mas o caso não avançou.

Não foi nem o primeiro nem o último momento em que o racismo foi pauta no reality show. Em 2019, a advogada Paula von Sperling chamou o cabelo cacheado de uma colega de “ruim”, além de ter emendado um preconceito religioso ao dizer que sentia medo do confinado Rodrigo porque “ele fala o tempo todo desse negócio de Oxum deles lá”. Ainda assim, a mineira de sobrenome alemão venceu aquela edição. Já neste ano, a participante Natália Deodato disse que pessoas pretas como ela foram feitas escravas porque eram “eficientes”. “A gente era forte, a gente era bom no que a gente fazia.” Ironicamente, a modelo foi, segundo ela própria, alvo da “solidão da mulher negra” no confinamento, ao ver seu interesse romântico Lucas beijando a participante branca Eslovênia. A “solidão da mulher negra” seria um fenômeno racial que combina racismo e machismo estrutural, em que mulheres negras tendem a ter mais dificuldades para se relacionar afetivamente do que brancos de ambos os gêneros ou homens negros.


Manu Gavassi, Rafa Kalimann e Thelma Assis na final do reality show, em 2020. Imagem: Divulgação/TV GLOBO

Assim como os gays, negros também começaram no BBB como exceção à regra. Havia apenas dois no BBB 1, e neste ano foram nove pretos e pardos entre os 20 participantes: os citados Maria, Brunna, Linn, Natália, Vinícius e Luciano, além do ator Douglas Silva, do atleta olímpico Paulo André e da bióloga Jessilane Alves. Segundo o IBGE, 56,1% dos brasileiros se declaram negros, grupo que reúne pretos e pardos. Mas, também de acordo com o mesmo instituto, o Índice de Perda de Qualidade de Vida (IPQV) para pessoa preta ou parda é 0,185 e para pessoa branca, 0,123. As medidas vão de zero a um; quanto mais perto de zero, menor a perda. Sem falar de que o risco de um negro ser assassinado é 2,6 vezes superior ao de uma pessoa não negra, segundo o último Atlas da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Aqui, a arte imita a vida: embora sejam praticamente maioria numérica, os negros ainda atravessam uma trajetória mais difícil para alcançarem o sucesso em diversos níveis. Levi Kaique elogia a atual diversidade racial do programa, mas acha que a Globo foi morosa ao tratar esse assunto de frente. “Por exemplo, esperou muito para poder ter um posicionamento com relação ao racismo que o João Luiz passou lá dentro. Além disso, deve observar as ações para os ‘cancelamentos’ e proteger os próprios participantes da reação do público aqui fora, porque isso é completamente desproporcional quando se trata de um participante negro e um branco. Não é para tratar o racismo como entretenimento, como algo que deva gerar polêmica para atrair acessos e visualizações.”

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O elenco feminino do BBB, em sua maioria, era formado por mulheres com corpos malhados e moldados por cirurgias plásticas. Nos primeiros anos, era uma prática comum das sisters serem convidadas para posar nuas em revistas masculinas após o confinamento. Esse contexto objetificador mudou aos poucos: em 2004, a primeira vencedora mulher, a babá Cida dos Santos, era uma pessoa fora do padrão gostosona e só entrou no elenco por ter se inscrito por meio de um cupom de uma revista seguido de um sorteio ao vivo na TV. Em 2011, veio a terceira vencedora mulher, Maria Melillo, a primeira a vencer mesmo sendo modelo — havia o lugar comum, machista, de que as beldades não precisavam do prêmio em dinheiro porque lucrariam com a vida artística pós-confinamento.

A edição de 2020, no entanto, marcou o auge do feminismo no Big Brother Brasil. O programa começou com um grupo de participantes homens formado por Petrix, Hadson e Felipe se unindo para dar em cima das mulheres comprometidas, para que elas correspondessem às cantadas e serem mal vistas pelo público. Mais: Petrix apalpou os seios da influenciadora Bianca “Boca Rosa” Andrade, alcoolizada em uma das festas da casa, e disse para um colega “Aí, eu botando uma das putas (no paredão), elas voltam”. Outro brother, Pyong, foi acusado de apertar a bunda de Flayslaine e forçar um beijo em Marcela McGowan.

A resposta aconteceu dentro e fora da casa-estúdio: quase todas as participantes mulheres se uniram, lideradas por Marcela e pela cantora Manu Gavassi, e votaram sistematicamente para os “machos héteros” serem eliminados. E o público achou justo, eliminando os homens um a um. Foi a terceira final do BBB só com mulheres. Gavassi até teve uma fala marcante, trocando o bordão “vou votar [no paredão] por afinidade” por “vou votar no Prior por sororidade”. Quando o colega perguntou o que era isso, ela respondeu: “depois você aprende lá fora”.

Em 2021, a vitória de Juliette Freire marcou não apenas a rejeição do público à xenofobia, mas ela e o pernambucano Gil do Vigor se tornaram dois dos participantes mais queridos pelo público. Já a edição 2022 teve início com algumas discussões um pouco mais vazias que as anteriores. A começar pela presença de participantes mais abastados economicamente no grupo “camarote”, como a influenciadora digital Jade Picon e o ator Tiago Abravanel, neto do apresentador e empresário do SBT Silvio Santos. Isso provocou um debate meio torto sobre meritocracia: se eles já estão com a vida ganha, não seria melhor darem suas vagas de participantes a quem precisaria mais?


Gil do Vigor e Juliette foram os mais queridos pelo
público no
BBB 21. Imagens: Divulgação/TV GLOBO

Outra “polêmica” foi a proposta de complô de Abravanel para ignorar os jogos da discórdia — uma dinâmica realizada toda segunda-feira ao vivo para obrigar os participantes a apontarem os piores defeitos de seus colegas — e impor ao BBB uma pegada “paz e amor”. “Por que é que esse jogo aqui precisa ser um inferno para ser interessante?”, questionou. Uma ideia boa em tempos tão polarizados e que certamente seria bem aceita, certo? Na verdade, grande parte do público reclamou da iniciativa, chamando o ator de “inimigo do entretenimento”. Muitos já consideram o BBB 22, por estes e outros motivos, uma das edições mais apáticas. No final de fevereiro, Abravanel terminou apertando o botão e pedindo para sair do BBB. “Infelizmente, eu não sei jogar esse jogo como eu imaginava que era possível jogar. Foi muito bom conhecer cada um aqui, mas, para mim, a minha história se encerra assim. Eu desejo sair do BBB 22”, disse.

São momentos como esses que nos fazem refletir: 20 anos após a estreia, até quando vai a relevância do BBB, tanto como produto de entretenimento quanto como estudo de caso de pautas identitárias, problemas sociais e ideologias políticas? Ele é realmente um elemento politizador? A graça acaba quando a polarização acaba, como sugeriu o público após a rebeldia de Abravanel?

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Para a youtuber, drag queen e pesquisadora de ciências sociais Dimitra Vulcana, os temas desenvolvidos no BBB acompanharam as mudanças políticas no país, mas com ressalvas. “Pelo próprio teor das redes sociais e a reverberação que as coisas ganham, as pautas que nos são muito caras, como as do movimento negro, LGBT e feminista, acabam trazendo um debate que cai na despolitização. E talvez fosse interessante a própria emissora ter um tempo maior em outros programas para debater isso, de uma forma mais profunda.”

Thiago Soares, da UFPE, diz que o conflito como elemento narrativo já existia bem antes de reality shows e redes sociais. “Uma boa narrativa ficcional é uma boa narrativa de conflitos. A exigência do público pelo confronto não se dá por uma chave meramente de acirramento político. Acho que talvez a gente confunda isso com uma certa polarização política. Quando a gente vê nas redes sociais uma demanda das pessoas pelo conflito, me parece que elas estão querendo conflitos narrativos, personagens que gerem complexidade. O conflito faz parte, desde a Poética de Aristóteles, da construção ficcional. Ele rege clímaces, rege resoluções, aponta posicionamentos.”

Em 2013, a professora de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e doutora pela Universidade de São Paulo (USP) Silvia Viana lançou o livro Rituais de sofrimento, no qual dissecava o formato dos reality shows de confinamento como o BBB e os enxergava como um experimento que promove a concorrência selvagem entre os participantes, com a conivência e celebração dos produtores e mesmo do público telespectador.

Em conversa com a Continente, Viana diz não assistir a reality shows, mas, pelo que se informa sobre eles, acredita que sua visão colocada no livro segue atual. “Na época em que estudei o BBB não eram esses os critérios da eliminação (as pautas identitárias e sociais). De uns tempos para cá, foram se formando esses novos critérios, mas a forma de funcionamento do programa não se alterou. Você coloca pessoas para se digladiarem buscando não a vitória, mas o intuito de não serem eliminados, com regras arbitrárias. E isso também é impossível, porque quem vota é o público. E há um deus ex-machina, que é a produção do programa, que fica fora de questão, e a emissora, que produz algo para a indústria cultural.”

Sobre ser um espaço de discussão política, a pesquisadora refuta completamente essa ideia. “Pessoas de movimentos que se dizem antirracistas ou antifeministas entrarem nesse tipo de programa significa que o sentido de ação dessas pessoas é muito diferente de buscar a superação dessa estrutura. Elas buscam a assimilação em uma mercadoria do capitalismo. Todos aqui fora estão nessa luta, não sou moralista nesse sentido. O problema é confundir isso com política”, critica.


Elenco do BBB 22 que segue no ar até o final deste mês. Imagem: Divulgação/TV GLOBO

O influenciador digital Levi Kaique é mais otimista com relação ao caráter didático do BBB. “Eu acho que o Big Brother sozinho não ensina muito ao público. As reflexões feitas aqui por nós, telespectadores, são o que ensina. Eu costumo usar o BBB como exemplo, porque é mais palpável para as pessoas entenderem essas dinâmicas. Acho que isso diminui depois que acaba o programa, as pessoas esquecem e tudo mais, mas muita coisa continua. Eu percebo que até hoje, quando faço alguma postagem nas minhas redes sociais falando sobre alguma questão envolvendo racismo, algumas pessoas ainda usam de exemplo: ‘Ah, lembra, o Babu passou por isso e aquilo, tem a ver com isso que você tá falando, Levi’. Isso fica na cabeça das pessoas. Infelizmente, no Brasil, a gente vive uma realidade em que alguns grupos não têm contato nenhum com a vivência de outros grupos e não se preocupam em ter esse contato. É como se a gente tivesse realidades completamente diferentes dentro do mesmo país e a gente realmente tem. Então você colocar em rede nacional todo mundo falando sobre isso ajuda as pessoas a visualizarem melhor o que a gente quer dizer”.

Alienante ou engajado, o fato é que o programa ainda deverá seguir em frente enquanto houver público, interesse da Rede Globo e dinheiro dos anunciantes — um comercial de 30 segundos nele custa R$ 508 mil, segundo o portal Notícias da TV. A reportagem enviou perguntas à emissora e algumas marcas patrocinadoras do reality, mas não obteve respostas. Enfim, o que parecia ser uma ideia grotesca há mais de duas décadas revelou-se tão popular e lucrativa quanto longeva. A despeito de ser um grande laboratório de seres humanos em uma situação-limite, seu criador, Jan de Bont, disse que não se preocupou muito com a saúde dos participantes. Perguntado em uma rara entrevista em 2014 se ele imaginou que o conceito iria falhar quando vendeu a ideia para a TV holandesa, De Mol respondeu: “Não. Minhas dúvidas, se havia alguma, eram mais na área técnica. Foi a primeira vez na história da televisão que criamos um programa de TV onde 120 câmeras estavam gravando individualmente um monte de material. Como é que armazenamos, como editamos…?”.

MÁRCIO PADRÃO, jornalista com mais de 20 anos de experiência com trabalhos publicados no Jornal do Commercio, UOL, Folha de S.Paulo, G1 e Canaltech.

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