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Crônica

Nascimentos

TEXTO Samarone Lima

01 de Março de 2022

Ilustração Rafael Olinto

[conteúdo na íntegra | ed.255 | março de 2022]

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A missão era simples. Ir ao supermercado do Amaro Branco, um bairro popular aqui de Olinda, onde o açougueiro e o responsável pelas verduras ficam discutindo a plenos pulmões sobre a rodada do campeonato estadual ou lamentando as apostas que fizeram pela internet, do campeonato europeu. Eu iria comprar frutas e uma lista pequena de coisas, além da minha indefectível água mineral com gás.

Compras feitas, botei a mão no bolso, o cartão ficou em casa. Aceitam pix? Ainda estamos resolvendo isso, respondeu o gerente, com uma cara de cansado já de manhã. Desci o restante da ladeira sem nada, fui pegar uma bicicleta do Itaú para ir a um supermercado mais distante, mas a central do Itaú só tinha uma bicicleta, que não funcionava.

Já eram 10h20 da manhã e tudo tinha dado errado, quando peguei o caminho de volta para casa.

O dia começou a mudar quando passei defronte à Maternidade do Tricentenário, a única pública da cidade. É impossível você passar pela frente e não ter imagens de mulheres grávidas, famílias preocupadas com o que está por acontecer.

Mas o que me chamou a atenção foi um homem, que estava sentado num banquinho de praça, que fica numa das poucas áreas com árvores no entorno, ao lado de uma farmácia. Era o famoso “galego”, como chamamos aqui em Pernambuco. Branco, meio obeso, uns 35 anos, o rosto estava vermelho e suava como se fosse ter um infarto. Estava sozinho.

Imediatamente reduzi o passo, andei uns três metros e parei, para ver o que estava acontecendo. Sou de uma curiosidade canina.

Poucos segundos depois, sai de dentro do hospital uma mulher, que julgo ser sua irmã. Vem apressada, chorando, e começa a falar bem alto, olhando para o meu amigo:

“Mago, acabou de nascer. Ela é a tua cara, Mago, é a tua cara!”

Nesse instante, o homem cai num choro convulso. Abraça sua irmã, e chora profundamente. Não consegue falar nada, envolvido pela emoção do nascimento do que julgo ser a primeira filha dele. “Minha filha”, repete.

Fui tomando por uma emoção profunda, também comecei a chorar, como se o galego fosse um parente. Fazia tempo que não via um homem chorar. Aliás, o choro parece que ficou uma coisa meio clandestina. É difícil ver gente triste na internet.

Na volta, enxugando as lágrimas, consegui entender a emoção que tinha me alcançado, de forma tão profunda.

Minha memória voltou para abril de 2020. Aura, minha companheira, estava grávida do nosso primeiro filho. O cenário era terrível, com a pandemia da Covid-19 chegando feroz, fechamos nosso charmoso Sebo, que ficava numa das ruas mais movimentadas de Olinda, e ninguém sabia ainda o que viria.

Sem plano de saúde, nosso lugar de consulta obstétrica era o mesmo Tri-centenário. Estávamos assustados, com medo, e havia uma regra no hospital – o acompanhante não podia entrar.

Era a segunda consulta, e fiquei exatamente naquele mesmo banco do galego, esperando minha companheira, dentro daquele labirinto. Era a metade de uma tarde em que a impotência se apresentava em seu grau máximo. Quando ela saiu, estava exausta. Tinha sido a última consulta do obstetra, que a saudou com uma frase nada animadora:

“Ainda bem que você é a última paciente do meu plantão”.

Poucos dias depois, vivemos a perda da primeira gestação em meio à nossa própria solidão. A mãe de Aura vive em São Paulo e minha família mora em Fortaleza. Não era momento de ninguém viajar. Numa casinha/sítio na Travessa de São Francisco, acompanhados das gatinhas Isabelitta e Nina, fizemos nossa travessia. Amigos próximos ajudaram a encarar a perda, e contamos com a orientação generosa de uma obstetra, que sequer vimos pessoalmente.

Em 2021, vivemos uma experiência rara – Olinda não teve Carnaval, por conta da Covid-19. Andamos pela cidade silenciosa, sem acreditar que, em pleno Sábado de Zé Pereira, os Quatro Cantos estavam vazios. A cidade vivia sua solidão, e descobrimos que uma nova gravidez tinha chegado. Quando vimos o resultado do teste rápido, comecei a rir.

Foi tudo diferente. Meses antes, fechamos um Plano de Saúde para Aura, que cobria também o parto. Fizemos uma vaquinha na internet, e muita gente ajudou. Uma velha amiga xamã nos orientou a ler e se informar sobre todo o processo da gravidez e parto. Descobri que eu não sabia quase nada do processo. Quando consultei minha mãe, que teve cinco filhos, os relatos eram dolorosos, de uma solidão que eu desconhecia.

Resolvemos tentar o parto natural, em casa. A parteira e a doula nos acompanharam durante toda a gravidez, compensando o vazio da medicina tradicional. A obstetra do plano de saúde era de uma frieza comovente. Pedia exames, olhava exames, passava algum exame novo e parecia uma pessoa bem infeliz naquela rotina. Um pequeno grupo de amigas se aproximou e foi nos dando o suporte que caberia à família. Meus parentes mais próximos estão a 800 km daqui.

Quando a bolsa estourou, dia 17 de novembro de 2021, estávamos no jardim de casa, tirando as últimas fotos da grávida. Como as contrações não vieram, o parto foi o mais tradicional possível – cesárea, no Hospital.

SAMIR
Samir está na sala, enquanto escrevo esta crônica. Está com quase três meses. É um menino grande, sorridente e amoroso. Por sorte, puxou totalmente à mãe. De minha genética, só o tamanho mesmo. Só chora pra valer quando tem cólicas. Mama com rara felicidade e dorme à noite com adorável devoção.

Sinal dos tempos. Ainda não viu as avós, tias, e poucos amigos vieram aqui. Com um carrinho que ganhamos de presente do Wallace, damos longas voltas pelas ruas de Olinda. Tenho o costume de chamá-lo com nomes de tribos. Um dia ele é Kapinawá, outro é Kariri, depois vira Fulniô, enfim. Leio histórias dos orixás, ele escuta atento. Depois invento outras histórias, até que ele dorme.

A vida deu muitas voltas, e acabei sendo pai aos 52 anos. Creio que chegou num momento em que estou pronto para tentar ser o melhor para ele. Essencialmente, quero que ele tenha a leveza que não tive, no meu começo de vida. Por isso, brinco tanto, invento histórias malucas e acho o máximo da paternidade quando ele abre um belo sorriso.

Só depois que escolhemos o nome, soube que significa “brisa de verão”, ou “bom companheiro”, em árabe.

Enquanto escrevo, sinto esta brisa e agradeço ao tempo, que me trouxe este amigo para ser meu filho.

SAMARONE LIMA, jornalista, poeta e prosador.

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