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Curtas

A crônica francesa

A superação do formalismo por Wes Anderson

TEXTO Danilo Lima

01 de Março de 2022

'A crônica francesa' faz um tributo ao jornalismo impresso

'A crônica francesa' faz um tributo ao jornalismo impresso

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 255 | março de 2022]

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Simetria, tons pastéis, movimentos ágeis de câmera e atuações excêntricas: todas essas são características imediatamente relacionadas ao estilo do diretor estadunidense Wes Anderson. Porém, algo menos comentado é como, por baixo de uma identidade fortemente visual, o ritmo e o conteúdo colocados pelo diretor em seus filmes podem beneficiar ou, às vezes, atrapalhar a própria construção dramática. Esse parece ser o principal dilema posto no seu mais recente lançamento, A crônica francesa (The french dispatch, 2021), que estreou no Brasil no final de 2021.

Após a morte de Arthur Howitzer Jr. (Bill Murray), editor do complemento semanal The French Dispatch, o veículo se encontra na tarefa de montar sua última edição, contendo um obituário, um breve guia de viagens e três artigos sobre os mais diferentes temas. A partir daí o filme acompanha a construção dessas histórias, sendo O repórter ciclista um passeio pelas áreas marginalizadas da cidade francesa fictícia de Ennui-sur-Blasé; A obra-prima concreta, sobre um talentoso pintor de vanguarda que está preso e tem como musa uma guarda; Revisões a um manifesto, a história de jovens que se tornaram ícones de uma revolta estudantil; e A sala de jantar privada do comissário de polícia, um relato sobre sequestro, perseguição e a arte da culinária policial.

Algumas das histórias apresentadas, como reconhecido pelo diretor, são baseadas em reportagens reais da revista americana The New Yorker, da qual Wes é fã assumido. As homenagens ultrapassam as referências a matérias e repórteres, tornando-se um tributo saudosista ao jornalismo impresso, ao menos a um de seus modelos. A escolha por retratar a apuração por trás de cada caso demonstra uma nostalgia por uma época em que a função do jornalista não estava submissa ao modelo industrial de produção e as histórias tinham o tempo e a atenção suficientes para se formarem diante dos olhos de seus narradores.

Os repórteres (representados por Owen Wilson, Tilda Swinton, Frances McDormand e Jeffrey Wright) se envolvem diretamente com as tramas, revelando não somente a farsa da imparcialidade, mas também a beleza com que essas figuras são afetadas e influenciam, intencionalmente ou não, as histórias contadas em seus artigos. “É verdade. Devo manter a neutralidade jornalística. Se é que ela existe”, diz a repórter Krementz (McDormand) após uma discussão acalorada com uma jovem revolucionária francesa.

Dividir sua narrativa em capítulos já é um hábito do Wes Anderson, porém, pela primeira vez, o diretor eleva essa separação ao caráter de um filme antologia. Essa escolha de formato, por outro lado, é uma das principais barreiras para o estabelecimento de um envolvimento emocional mais forte com os personagens. Assim que nos afeiçoamos pelos conflitos, uma nova parte é logo introduzida. Essa repetida “iniciação” da história leva ainda a um segundo prejuízo. Para quem está habituado com os filmes do diretor, sabe que muitos deles começam com uma típica verborragia de contextualização daquele universo. Como em A crônica francesa são vários universos sendo apresentados, o filme mantém um ritmo acelerado constante e superinflado de informações, o que pode tornar a experiência um pouco densa e cansativa de acompanhar, mesmo que não desinteressante.

Apesar da sua extrema preocupação estética, Wes é um diretor que consegue emplacar emotividade rapidamente quando quer, basta lembrar de frases como “I’ve had a rough year, dad” (“Eu tive um ano difícil, pai”) desabafada pelo personagem de Ben Stiller em Os excêntricos Tenenbaums (2001), ou “I wonder if it remembers me” (“Eu me pergunto se ele se lembra de mim”) dita por Bill Murray em A vida marinha com Steve Zissou (2004). Esses pequenos momentos só funcionam, porém, devido ao tempo de envolvimento com os personagens. Aqui, o coração do diretor está espalhado entre vários núcleos, demonstrando um interesse muito maior pelas possibilidades do formato e daquele mundo do que pelas histórias humanas apresentadas em si. Por ironia ou não, um dos lemas do editor na redação do jornal fictício é No crying (Proibido Chorar).

Chegando ao seu décimo longa, o realizador, que desde cedo criou um estilo autoral marcante, busca então expandir ao máximo os limites do seu próprio formalismo, tornando o longa um exercício teatral do seu procedimento de filmagem. Cada ação é motor para aplicar uma nova técnica, estilo ou enquadramento, muitas vezes até randomicamente – como uma alternância das cores com o preto e branco sem aparente ordem lógica –, mas que nunca se torna gratuito ou exibicionista. Se as influências vão desde o cinema moderno francês de Jacques Tati até a animação 2D, Wes integra essas peças em um quadro único, com uma profusão visual que invade cada cena a favor da experiência formal. O rigor é tanto, que quando o filme brinca com a quebra da sua linguagem e coloca uma câmera na mão, o público entra em alvoroço, como aconteceu na exibição em Cannes, onde o longa fez sua estreia no circuito de festivais.

Igualmente abundante é sua aclamada lista de intérpretes. Figuras como Benicio del Toro e Timothée Chalamet são introduzidos à crescente galeria pessoal do diretor, que também conta com antigas colaborações, como Adrien Brody e Edward Norton. Apesar disso, o subaproveitamento de alguns atores – como ter Willem Dafoe e Jason Schwartzman quase como figurantes – é a prova de que o elenco estelar surge mais das relações de amizade do diretor e da vontade dos artistas em embarcarem em seus novos empreendimentos do que por suas contribuições individuais.

A verdade é que, mesmo quando Wes Anderson não nos envolve, ele nos fascina. A crônica francesa é a confirmação do seu talento e das possibilidades inventivas pouco exploradas no cinema. Mesmo com uma relativamente rápida passagem pelos cinemas (antes da dominação de salas por Homem-Aranha: Sem volta para casa), é de se admirar que um realizador tão autoral consiga emplacar seus projetos de baixo e médio orçamento ao redor do mundo. Felizmente, Wes Anderson nunca se torna uma paródia de si mesmo, o que poderia facilmente acontecer. No lugar, cada nova obra é uma narrativa única e o experimento de superar os limites do formalismo, talvez para descobrir até onde vai o potencial artístico por trás da pura estética.

DANILO LIMA é jornalista em formação pela UFPE.

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