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Entrevista

"Vivemos na era dos milésimos de centavos"

Nos 30 anos do Manguebeat, Fred Zero Quatro, expoente do movimento e compositor da Mundo Livre S/A, fala sobre o novo disco da banda, 'Walking dead folia (Sorria, você teve alta!)'

TEXTO Débora Nascimento

01 de Fevereiro de 2022

Em novo disco da banda, Zero Quatro fala sobre temas que instigam posicionamentos

Em novo disco da banda, Zero Quatro fala sobre temas que instigam posicionamentos

Foto Marcelo Soares

[conteúdo na íntegra nas edições impressa e digital | ed. 255 | março de 2022]

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O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade?”. Esses são questionamentos do Manifesto Caranguejos com Cérebro, que o jornalista e compositor pernambucano Fred Zero Quatro escreveu em 1992, mas que parece ainda tão atual. Trinta anos atrás, esse texto lançava o Manguebeat, movimento que tiraria o cenário musical recifense da invisibilidade frente ao eixo Rio-São Paulo e do marasmo, projetando ao país diversas bandas e artistas, estimulando uma efervescência cultural que reverberou no audiovisual, na moda, na vida urbana e cultural da cidade.

No ano seguinte, Fred Zero Quatro, com sua Mundo Livre S/A, e Chico Science & Nação Zumbi assinaram contratos com grandes gravadoras para realizar os seus primeiros discos, Samba esquema noise e Da lama ao caos (lançados em 1994), duas obras-primas que figuram entre os maiores discos nacionais de todos os tempos. Iniciavam suas exitosas carreiras, até que veio a morte de Chico em um acidente fatal de carro em 2 de fevereiro de 1997. Ambas as bandas continuaram suas trajetórias lançando discos e fazendo shows, posteriormente em um contexto mais independente, com a crise da indústria fonográfica, após o advento do MP3, compartilhamento de arquivos e pirataria digital.

Em janeiro deste ano, a Mundo Livre S/A – formada por Fred e mais o irmão Xef Tony (bateria), Pedro Santana (percussão), P3dr0 Diniz (baixo) e Leo D (teclados, samples) – lançou, pelo Selo Estelita, seu 8o álbum de estúdio, Walking dead folia (Sorria, você teve alta!), gravado de forma semirremota durante a pandemia do novo coronavírus e trazendo diversas referências deste contexto social e político.

Se em Édipo, o homem que virou veículo, do aclamado Carnaval na obra (1998), Fred Zero Quatro cantava “Na secretaria uma enorme preocupação/ Com a nova epidemia que ameaça a população”, sobre a enfermidade do bicho-de-pé, hoje, um catastrófico problema de saúde abrange todas as classes sociais, mas sendo os pobres, novamente, os mais atingidos, com altíssimos índices de mortes, desemprego e fome (“Se espumar, é gente”, dizia Fred em Sob o calçamento, de 1994). Na temática do mais recente disco, ele aborda o contexto pandêmico no Brasil e as nefastas manobras da livre-iniciativa feitas por empresários que priorizam “a saúde financeira da empresa em detrimento da saúde dos clientes”, como afirmou em entrevista à Continente.

Nesta conversa, o compositor, produtor e músico pernambucano, que integra a lista da Rolling Stone dos 100 maiores artistas da música brasileira, discute diversos assuntos, como o consumo passivo de música e a distração provocados pela revolução digital, o fim da História como a conhecemos, a indiferença de compositores diante do caos na sociedade brasileira, a crônica dos acontecimentos nas letras de músicas, o sucesso do brega-funk, a hegemonia do sertanejo nas mídias, a sobrevivência dos músicos no cenário independente e o saudoso parceiro de movimento, Chico Science. Leitor assíduo e cidadão interessado em acompanhar as coisas e o caos do mundo (longe de estar livre), Fred, eterno devoto de Jorge Ben e Joe Strummer, fala também sobre o que escreveria se fosse elaborar o Manifesto Mangue hoje.

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