Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Crítica

O fantasma de Leonardo Gandolfi e seus amigos

Carioca usa justaposições de memórias e referências literárias para criar um intrigante universo poético

TEXTO Rafael Zacca

01 de Fevereiro de 2022

Ilustração Maurício Planel

[conteúdo na íntegra | ed. 254 | fevereiro de 2022]

Assine a Continente

Robinson Crusoé e seus amigos, o trabalho mais recente do poeta Leonardo Gandolfi, tem a atmosfera daqueles contos “maravilhosos, infantis e domésticos” reunidos pelos irmãos Grimm no século XIX. Essa atmosfera, que cobre as antigas narrativas como uma neblina, foi o que permitiu, num passado longínquo, que a fantasia – uma das espécies da brincadeira – se aliasse à escuta dos mortos, ou dos fantasmas. Tal névoa se dissipou quando as ações do trabalho e do espírito prático entraram em alta: no auge do capitalismo. Como é que elas retornam agora? 

O primeiro poema de Robinson Crusoé e seus amigos (Editora 34, 2021, 120p.) leva o nome do livro. Nele, Leonardo Gandolfi nos diz que sua avó trabalhou na casa de uma das irmãs de Clarice Lispector, e que sua mãe foi convidada pela escritora para semanalmente organizar as suas estantes. 

Depois que minha mãe
limpa os livros com flanela
e coloca tudo em ordem na estante
Clarice entrega a ela
com o punho cerrado
algumas notas e diz
isto aqui Rita é para os seus supérfluos 

Depois o poeta nos conta do aneurisma da mãe “que a tiraria de cena”. Que quando ela estava em coma, ele lia algumas obras para ela. Que usava o carimbo com a assinatura da mãe para marcar a folha de rosto dos livros. Que perdeu tanto o carimbo quanto os livros – a não ser pelo exemplar de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Que entre as coisas que sua mãe deixara, encontrou uma série de folhas secas que colecionava. Que ela anotara nessas folhas, com caneta azul, lugar e dia em que foram recolhidas. Que, sem saber o que fazer com essas folhas que encontrou, o poeta guardou-as entre as páginas dos livros nas estantes. Que foram tantas, que já se esqueceu de onde as guardara. Que às vezes, por isso, quando abre livros de sua estante, encontra a letra da mãe. 

Tudo isso que nos conta o poeta se justapõe a outras histórias: aquela da mãe organizando os livros de Clarice Lispector; mas também a de sua filha Rosa, que chega ao mundo e não sabe ainda dessas histórias; e a das diferentes maneiras com que sua mãe e Clarice fumam. Rita, por exemplo, acende um cigarro ou outro, e organiza; Clarice acende um no outro. 

Leonardo Gandolfi parece gostar das justaposições. É como se ele quisesse saber como você vai se virar com toda essa mistura. Em determinado momento do poema, Gandolfi as condensa, enfim, numa pequena determinação: “Da minha parte/ anotar todas as vezes/ em que a palavra/ supérfluo/ aparece nos livros/ de Clarice/ e fazer um inventário”. Coleção e inventário. O que Leonardo Gandolfi está fazendo? 

Está mexendo com as coisas. Reorganizando. Jogando. Trabalhando. Estamos vendo a escrita de um luto (quer dizer, de um trabalho com a memória do perdido)? A um só tempo, menos e mais que isso. O que Leonardo Gandolfi está fazendo? Está doendo – enquanto faz alguma coisa que se assemelha, simultaneamente, a um trabalho e a uma brincadeira. Se trabalho e brincadeira fossem dois lugares, o poeta estaria num entrelugar. Seria, então, o caso de perguntarmos onde está Leonardo Gandolfi? 

Oi mãe
encontrei os brinquedos
os mesmos brinquedos
de antigamente
estão todos aqui
posso levar comigo
ou é melhor deixar
com os fantasmas? 

Esta é a primeira estrofe de um outro poema que invoca a mãe. Chama-se Luís Alberto de Cuenca e seus amigos. É como um comentário ao primeiro. Ao mesmo tempo, uma espécie de redução do poema El cuarto oscuro, de Cuenca, o mesmo citado no título. Vê-se que o que está em jogo é, de novo, uma condensação: de seu próprio livro, do de Defoe (Robinson Crusoé), do texto de Cuenca, do fantasma da mãe, do problema do que fazer com as coleções, e assim por diante. Sem contar no que está entre Defoe e o poeta: o fantasma de Drummond, com o poema Infância, que é citado mais de uma vez no livro de Gandolfi, e no qual o poeta mineiro dizia, em tom memorialístico, “eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. 

Mas vamos ao fantasma da mãe. A interrogação do filho começa com muita simplicidade: “oi mãe”. Em que tempo estamos quando lemos isso? No do poeta adulto ou criança? Suspensão temporal é um bom nome para esse tempo que nos é apresentado – o tempo dos fantasmas. Nem criança nem adulto. Se a criança e o adulto fossem dois lugares, esse poema estaria num entrelugar. Poderíamos seguir falando da melancolia e do trabalho do luto por vir, com o poeta diante dos brinquedos, mas ao invés disso vamos falar dos brinquedos. Na verdade, de brinquedo e brincadeira, e de que lugar ocupam entre adultos e crianças. 

O brinquedo e a brincadeira não são, nem fazem a mesma coisa. As suas operações são opostas. O brinquedo retira a seriedade daquilo que imita: uma arma de água, uma boneca de pano e uma casa em miniatura não podem matar, chorar ou abrigar seres humanos. O brinquedo imita as formas e altera os efeitos. A brincadeira confere seriedade àquilo que imita: o faz-de-conta de uma pequena loja improvisada com tendas, de uma sala de aula armada às pressas na calçada ou do jogo de polícia e ladrão entre as crianças têm em comum o fato de que a seriedade e a sobriedade são o círculo mágico que reproduz os efeitos, mesmo lá onde a forma não pode ser copiada (qualquer pedra pode se transformar em um frasco de perfume, apagador de lousa ou taça de vinho nas mãos de quem brinca – e na ausência de pedra ou coisa do tipo, essas coisas podem ser imaginadas). O brinquedo pode ser objeto da brincadeira, mas não precisa dela; a brincadeira funciona perfeitamente sem objetos.


O poeta Leonardo Gandolfi. Foto: Divulgação

De todo modo, têm em comum a relação que estabelecem de imitação com a vida prática. É assim, aliás, que se aprende a estar vivo entre os muitos. Os valores, os hábitos, os saberes, os fazeres e as possibilidades de existência nos são ensinadas através dos brinquedos e das brincadeiras. Foi Walter Benjamin quem afirmou, certa vez, que os brinquedos “não dão testemunho de uma vida autônoma e segregada” de um mundo de crianças, mas “são um mudo diálogo de sinais entre a criança e o povo”. Quando nos tornamos adultos, nos tornamos sérios. Quando nos tornamos adultos? Eu não sei. Mas uma boa suposição é a de que isso acontece quando os brinquedos e as brincadeiras não estabelecem mais uma distância com o mundo prático, mas se integram a ele. Todas as atividades humanas são, portanto, brincadeiras, e seus objetos são brinquedos – é o que chamamos de hábito. O hábito e os objetos habituais são brincadeiras e brinquedos em grau zero. “Formas petrificadas e irreconhecíveis de nossa primeira felicidade, de nosso primeiro terror”, nos disse Benjamin, “eis o que são os hábitos.” 

Vamos dar um salto analógico, para que isso nos divirta e instrua. Consideremos o problema de linguagem que se configura entre a poesia e a comunicação. Se a comunicação diz respeito à vida prática e funcional, os poemas são brinquedos. 

Hoje em dia, os brinquedos vêm com pilhas ou baterias. Ficamos sabendo por Alberto Pucheu, na orelha de Escala Richter de Leonardo Gandolfi, que ele já disse de si mesmo ser um “poeta de pilha fraca”. Mas talvez a metáfora do poeta como brinquedo tenha se esgotado para compreender Gandolfi. O que o poeta faz, cada vez mais, é brincar com os brinquedos dos outros. Como acontece com o poema de Luis Alberto de Cuenca, que é um brinquedo nas mãos de Gandolfi. O poema do espanhol, que fala de um sonho com sua mãe e seus brinquedos, é traduzido e reduzido no de Gandolfi. A primeira estrofe, com a interrogação do filho, já citamos. A segunda, com a resposta da mãe, é a seguinte: 

Sim são os teus brinquedos
os mesmos brinquedos
de antigamente
mas é melhor
eles ficarem onde estão
caso contrário vão acabar
se desmanchando na tua mão
da mesma forma que eu meu filho 

O que faz Gandolfi? Reduz. Em outras palavras, altera por subtração – como na culinária. Mas também reduz em outro sentido. Se quisermos voltar para o universo infantil, o que o poeta faz é quebrar as coisas – por acidente. E reordena o que sobra. Nas suas mãos, as coisas se desmancham, se perdem, extraviam – e este é outro nome para o que em sua poesia é a vida. Acidentar-se, desastrar-se, naufragar. Estar vivo. 

Como Gandolfi brinca com os poemas dos outros e com sua memória, não são apenas os “seus” fantasmas que ameaçam se desmanchar (e, no entanto, nunca se desmancham completamente; acidentam-se, mas – ou melhor, por isso mesmo – continuam vivos), como a própria literatura. Presente e passado pessoal e literário se apresentam nos poemas como, ao mesmo tempo, um legado e um naufrágio. Objeto de brincadeira e de trabalho. Estão sorrindo e estão doendo (como muitas crianças, aliás). A literatura que se mistura às suas memórias não se preserva, tampouco se apaga: submete-se a essa estranha redução nas mãos de Gandolfi. O poeta aqui não é mais um brinquedo de pilha fraca, mas uma criança com defeitos que mexe com brinquedos num mundo onde tudo se torna defeito, quebra, rasura, ranhura, onde tudo se desfaz. 

Tia ele pegou o meu ursinho
Não tia o ursinho é meu
Se não pararem agora
vão ficar sem recreio
Os dois começam a brigar
Não meninos nada disso
vamos abrir o ursinho ao meio
dependendo do que sair de dentro
vocês decidem o que fazer com ele 


Capa do livro. Imagem: Reprodução

INCOMUNIDADE COM OS MORTOS
Eventualmente, aquilo que reduz, quebra ou se acidenta, vai para um lugar do qual não mais retorna. Ou será que não? 

Na série Cemitérios (que está em O fazendeiro do ar), Carlos Drummond de Andrade, em um poema chamado De bolso, retoma um de seus mais antigos motivos: o do poeta gauche, torto, canhoto. Em apenas dois versos de 10 sílabas oferece-nos uma explicação: “Do lado esquerdo carrego meus mortos/ por isso caminho um pouco de banda.” Caminha de lado, sim. Certa vez, porém, um aluno meu, em uma oficina de crítica, me chamou a atenção para um sentido insuspeito que podemos depreender dessa expressão: “caminho um pouco de banda” poderia ser lida como se dissesse de alguém que caminha um pouco em grupo. Claro, ele estava quebrando o poema – desligando-o do conjunto de significados que ligavam Carlos Drummond de Andrade a si mesmo.

O brinquedo quebrado revelava, porém, outra leitura: a comunidade de mortos pesando no bolso do poeta. Como os antepassados cercados de urubus no poema Os bens e o sangue ou o fantasma do pai em A mesa, ambos publicados em Claro enigma. Caminhar de banda poderia significar então caminhar com muitos. 

Muitos mortos. O que se perde, retorna como fantasma. 

Leonardo Gandolfi também caminha de banda. Para nos dizer isso, acrescenta ao título do livro de Defoe um complemento: “e seus amigos”. Robinson Crusoé e seus amigos. Ora, Robinson Crusoé é uma espécie de mito fundador do individualismo autossuficiente, autônomo e pragmático, produzido na retomada do tema do náufrago que está em germe na Odisseia. O complemento de Gandolfi, portanto, é da maior importância: “e seus amigos”. A epígrafe que escolhe para seu trabalho, extraída de A invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares, avisa que o poeta só começará “quando todos chegarem”. Ora, isso tem um duplo sentido para o livro de Gandolfi. 

Primeiro, que o motivo da narrativa memorialística não se fará sem a companhia do outro. Que outro? São muitos. “Todos” engloba, numa primeira camada, o outro da literatura. Isso significa que esses poemas se fazem com o que não é poema. O passado, com o que não passou. O indivíduo, com o que não é ele. A vida, com o que não é vivo. Nesse sentido, uma negatividade fundamental é colocada no centro da escrita autobiográfica que se evidencia em alguns dos poemas de Robinson Crusoé e seus amigos: a negatividade instaurada pelo outro (o amigo), que recusa, a todo momento, que o mesmo retorne ao mesmo. Não estamos diante de uma narrativa realista do passado – não se trata, aqui, de que o poeta nos conte suas memórias, mas que o passado nos conte um poema junto com o poeta. 

A principal ferramenta de Leonardo Gandolfi se esconde na sua dicção: como as frases possuem simplicidade e sobriedade, não revelam, de imediato, aquilo que condensam. Como num sonho, o conteúdo latente (ilegível num primeiro momento) se embrenha no conteúdo manifesto (legível). O que está ilegível é o que os mortos estão falando. Mas também está falando aquilo que não é literatura em sentido estrito. Isso, que impede que o poema seja meramente um poema (isto é, aquilo que historicamente se diz que é um poema), pode se chamar de negatividade formal. Uma negatividade produtiva, de toda maneira. O poder de condensação que essa negatividade opera é sem precedentes, de modo que um poema pode ser ao mesmo tempo uma retomada sintética de um produto da indústria cultural – digamos, Star Wars V: O império contra-ataca e a emblemática cena de revelação de Darth Vader para Luke Skywalker (que tem, nesse momento, a mão cortada): Luke, I am your father – superposto, como num sonho, a uma figura paterna do passado do poeta: 

Muito tempo atrás numa galáxia muito distante 

Seu pai
uma ferida aberta
 
Preciso ir embora

Quanto mais longe um ia
mais a coisa doía nos dois 

Olá pai olha aqui
minha ferida aberta   

Ao que o pai respondeu

Quem sai aos seus
já sabe o que o espera 

Mas também a expressão “e seus amigos” se refere aos mortos, aos fantasmas. Robinson Crusoé está e não está sozinho. Ora, é próprio dos fantasmas que apareçam e que não possam ser tocados. Mas os fantasmas fazem duas outras coisas. Primeiro: eles falam. E falam nos poemas. E muitas vezes não identificamos quem são. Ler o livro de Leonardo Gandolfi é ouvir no escuro as vozes do passado. Segundo: os fantasmas têm demandas. Se essas demandas não são atendidas, eles continuam aí, assombrando. Leonardo Gandolfi não os ignora, mas não atende às suas demandas, exatamente – sustenta a presença dos fantasmas, quer ser seu amigo. Quem são os fantasmas? Todo o conjunto de pessoas que se perdeu. Poetas. Personagens. Familiares. O pai – como na releitura que Leonardo Gandolfi propõe do poema do persa Omar Khayyam: 

Vazia a taça de vinho fico sozinho
com o fantasma do meu pai
O que estão falando?
Estamos só resmungando ai ai ai 

Tanto neste poema como no anterior, com Vader e Skywalker, certa semelhança é invocada entre o vivo e o fantasma (do pai, nestes casos). É esse grau de semelhança que mede o quanto essa escrita de Gandolfi não é a escrita da autonomia: não deposita as suas fichas nas forças onipotentes do indivíduo. Uma poesia antigênio, que permite uma assinatura coletiva. Com os muitos, e principalmente com esses muitos mortos. Uma comunidade? Talvez. Numa época em que tantos coletivos de poesia floresceram, como a nossa, a poesia de Leonardo Gandolfi propõe um tipo incomum de coletividade. Por isso tantos de seus poemas trazem nomes de outros poetas – e quando não o trazem, esses nomes estão ali, embora não se deixem ler. Coautoria no tempo. 

A amizade é uma coisa estranha. Só ela pode proporcionar uma vida que vale a pena ser vivida; mas a amizade é capaz de ser uma força não apenas atratora, como também destrutora da diferença. Kafka escreveu um pequeno texto sobre coletividades e processos de socialização. Nele, cinco amigos se integram numa perfeita comunidade (ao menos é assim que se narram a si mesmos) que se sente desarmonizada pela chegada de um sexto membro. Indesejado, o sexto não parece querer abandonar os cinco, que tentam empurrá-lo para fora do grupo. 

O narrador dessa pequena história, que se inclui entre os cinco amigos, diz que seria penoso explicar os motivos de seu desconforto ao sexto, e que esses motivos dizem respeito às experiências vividas entre os cinco. Dessa maneira, o sexto não é apenas diferente e recusado: ele não participa da história. Se recusar a narrar para o sexto a história das experiências que explicitam os motivos do incômodo dos cinco amigos diante dele é excluir o elemento dissonante duas vezes – é deixá-lo fora do tempo e da palavra. E quem está no tempo e na palavra? Os que têm uma ficção comum. É isso o que faz uma comunidade. A organização social em torno de um termo comum favorece esse tipo de ódio à diferença levado à consequência de uma exclusão de segundo grau. 


Ilustração: Maurício Planel

O que Leonardo Gandolfi está fazendo é uma comunidade com os mortos? Talvez não. Ele só quer começar a contar essa história, inclusive, quanto todos chegarem, como nos conta a citação de Bioy Casares. Porque Gandolfi também não cede ao ímpeto da identificação narcísica. Existe sempre um grau de semelhança confrontado com uma grande diferença. Silêncio, fratura, mistério: um acidente. 

No poema Canção, que traz na epígrafe uma mensagem de Atena para Telêmaco, filho de Odisseu, na epopeia de Homero (“prepara um barco e traz teu pai de volta”), Gandolfi escreve: 

Feito todo mundo ou quase
eu também tenho um pai
ele ainda está respirando
eu ainda estou respirando
ele pergunta eu pergunto      
ele não responde eu não respondo
e voltamos para debaixo d’água 

A ausência de resposta no discurso de pai e filho sublinha que a aparente semelhança formal de suas perguntas e modos de ser (respirar, perguntar, não responder, voltar para debaixo d’água) é um véu que esconde a diferença radical de suas capacidades de significação. Pai e filho se manifestam semelhantemente, mas o que os une é o traço em comum de serem incomuns. O navio da comunicação naufraga. Só o acidente é comum a pai e filho – como a mão decepada de Luke Skywalker e de Darth Vader (a ferida aberta). Podemos voltar então a um comentário que acompanhamos de passagem no início deste texto. No poema Robinson Crusoé e seus amigos, Clarice e Rita fumam diferentemente. O que parece detalhe anedótico, ganha agora máxima relevância. O grau de diferença é índice não de uma comunidade, mas de uma incomunidade. Incomunidade com os mortos. A possibilidade de coletividade com base não na identificação, mas na semelhança que não anula a diferença. Esse tipo de união através do que é incomum abre os indivíduos para, a um só tempo, a preservação de sua individualidade e a possibilidade de laços amorosos. 

Essa diferença, esse traço incomum de cada ser, em justaposição à capacidade de perceber semelhanças (mas não igualdades) é o que funda a possibilidade de uma amizade. Os amigos são amigos porque são diferentes, mas reconhecem pontos de semelhança. E brigam. Brincam que brigam. Se ferem. Choram. Se compreendem e não se compreendem. Estão vivos, estão mortos. Esse grau de diferença que a vida e a morte instauram marcam dois pontos de uma bússola com a qual Leonardo Gandolfi calcula o caminho depois do naufrágio – como no poema Presente

Como não tive filhos
a coisa mais decisiva
que me aconteceu na vida
diz Rosa Montero
foram os meus mortos
Só em nascimentos e mortes
é que saímos do tempo

Quando alguém morre
ou quando nasce
uma criança diz ela
o presente se parte ao meio
e uma fresta se abre

Rumi e Cohen
também falam
de uma rachadura
por onde a luz passa 

Uma pequena quebra, ou um pequeno trauma, faz uma rachadura. Um brinquedo rachado muitas vezes fica com defeito. O defeito é um entrelugar entre o ser e o não ser das pessoas. Revelam o que nelas é fantasma – aparição, discurso, demanda, desejo. O fantasma de Clarice está fumando. O de Rita, fuma às vezes. Quem escreve Robinson Crusoé e seus amigos é Leonardo Gandolfi ou o seu fantasma? Leonardo Gandolfi está doendo? Está doendo e está brincando? Está doendo? 

RAFAEL ZACCA, professor de filosofia na PUC–Rio, de escrita criativa na editora 7Letras, poeta e colaborador do jornal Rascunho e da revista Pessoa.

Publicidade

veja também

“Vivo no processo de buscar o meu reflorestamento”

Um museu para a arte negra

Céu revisita sua memória musical