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Curtas

Continuo Preta

A vida de Sueli Carneiro e o movimento negro

TEXTO Marina Pinheiro

02 de Agosto de 2021

A filósofa e ativista do feminismo negro brasileiro, Sueli Carneiro, foi biografada por Bianca Santana

A filósofa e ativista do feminismo negro brasileiro, Sueli Carneiro, foi biografada por Bianca Santana

Foto Natália Carneiro/Instituto Geledés

[conteúdo na íntegra | ed. 248 | agosto de 2021]

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Única aluna preta em meio a 15 jovens brancos. Em uma sala de aula, o rosto em realce pertencia a Aparecida Sueli Carneiro Jacoel, nascida em São Paulo, em 1950. Essa fotografia está na capa do livro Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro, biografia da jornalista Bianca Santana (Companhia das Letras) que conta a história dessa mulher que se tornaria filósofa, doutora em Educação e uma das principais ativistas do feminismo negro no país.

Crítico e documental, o livro compõe um olhar preciso sobre a formação da intelectual: seus familiares, companheiros, antepassados e até opositores são parte essencial da narrativa, que, tanto quanto sobre a própria Sueli, é também sobre a trajetória histórica de décadas do movimento negro no Brasil.

Logo ao início do livro, é lembrado um dos episódios da mais significativa destruição da memória cultural e, sobretudo, étnico-racial, do país. Pelas mãos de Rui Barbosa, jurista brasileiro e então ministro da Fazenda, em 1890, foi determinada a destruição de documentos referentes à escravidão. A queima de arquivos teria dificultado pedidos de indenização de fazendeiros influentes, avessos à abolição da escravatura recém-determinada, mas também negou o direito de inúmeros descendentes à própria história. A partir de visitas a cartórios, igrejas e entrevistas a familiares e especialistas, a biógrafa resgata documentos e vivências, quebrando grandes silêncios que tanto dizem sobre o apagamento histórico de referências negras brasileiras.

Em capítulos curtos, a biografia denuncia violências, nomeia vozes transformadoras e reconstrói a história de Sueli Carneiro. A ativista é a primeira filha de Eva Camargo Alves, costureira nascida em uma família de classe média de Campinas, e José Horácio Carneiro, ferroviário do município de Ubá, em Minas Gerais. Seus seis irmãos nunca tinham ouvido o nome dos bisavós ou detalhes sobre outros antepassados. A partir do registro de casamento dos avós paternos de Sueli, resgatado da Paróquia São Sebastião, em Minas Gerais, foi iniciada uma investigação que tornou possível montar uma hipótese de genealogia estendida por mais de 10 gerações.

Em entrevista à Continente, Bianca conta que a família Carneiro não conhecia a origem do seu sobrenome. A partir do estudo, ela pôde apresentar fotografias e registros, até então desconhecidos, em reunião com familiares da ativista. A autora relembra: “Tinha umas 30 pessoas para ouvir as histórias. Em um momento, eles fizeram um círculo e eu fui lá na frente, contar a história e mostrar a papelada. Muita gente ficou emocionada; as pessoas choraram, fizeram perguntas e ficaram muito gratas”. Com as informações, puderam também descobrir caminhos para investigar ainda mais.


A capa do livro Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro
mostra, em sala de aula, a então estudante que viria a se
tornar filósofa e ativista. Imagem: Reprodução/Companhia das Letras

O atravessamento entre vida pessoal e história é também mostrado em seus impactos sobre a vida de Sueli Carneiro. Em novembro de 1982, aconteciam as primeiras eleições livres no Brasil após o início da redemocratização. Durante as campanhas, o movimento feminista reivindicava mais autonomia e participação, resultando na criação do Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo — composto por 15 mulheres, das quais nenhuma era negra. As críticas à composição, lideradas pela conhecida radialista negra Marta Arruda, levaram a filósofa a se tornar uma das fundadoras do Coletivo de Mulheres Negras, grupo formado para representar essa população e pautar suas questões específicas.

A trajetória de Sueli foi traçada pela luta por espaço: fundadora e coordenadora executiva do Geledés — Instituto da Mulher Negra, representou a instituição em 2010 diante do Supremo Tribunal Federal (STF) em defesa da constitucionalidade da política de cotas raciais. Com o dispositivo em prática, Bianca avalia: “os silenciamentos, os apagamentos históricos são muito questionados por quem está hoje na universidade. Isso provoca uma série de tensões extremamente positivas, porque os docentes precisam se deslocar, precisam conhecer um referencial teórico mais amplo, precisam dar conta dos apagamentos históricos. E isso me parece um dos movimentos mais importantes no Brasil hoje”.

Ao exemplo do Geledés, instituto que desempenha projetos próprios em defesa de mulheres, negros e contra todas as formas de discriminação, Sueli centraliza o seu trabalho na atuação autônoma, e não nos cargos políticos. No livro, ela fala sobre a importância disso: “falta no Brasil uma sociedade civil ampla, poderosa, que pressione, de fato, os poderes instituídos”. Construindo bases para o fortalecimento de outras iniciativas de organização civil, suas muitas pesquisas mapearam a forma como o racismo e o sexismo impactam relações sociais. Esses textos foram reunidos em coletâneas como Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil (2011) e Escritos de uma vida (2018).

Bianca Santana conta ter sentado no chão para ouvir Sueli em boa parte das 160 horas de entrevistas realizadas. Nessa posição de aprendiz, ela narra as transformações sociais acompanhadas pelo livro. As vozes da biógrafa e biografada muitas vezes se misturam, em adesão a posicionamentos de Sueli Carneiro ao longo da sua vida, das mobilizações políticas às polêmicas. Na mesma medida, a autora também se faz presente como importante voz crítica na interpretação dos possíveis desdobramentos dos movimentos sociais brasileiros.

“Entre a esquerda e a direita, sei que continuo preta”, disse Sueli Carneiro, em 2000, em entrevista à revista Caros amigos. O trecho, transformado em título da biografia, alerta sobre o atual debate sobre a representação dentro da política partidária. Fora e para além dela, iniciativas como o Projeto Memória Negra, da Casa Sueli Carneiro, aprofundam o movimento de resgate. “Tantas vezes, as pessoas negras buscam enraizamento para conseguirem força para seguir em um país racista como o Brasil, e parte dos silenciamentos, dos apagamentos, nos nega essa história”, diz Bianca, hoje integrante do projeto. E afirma: “Ter um lugar de encontro enraizado numa trajetória negra forte como a da Sueli me parece muito bonito, importante e necessário”. 

MARINA PINHEIRO é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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