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Ficção

Caça às sereias no Recife

TEXTO ARIEL SOBRAL
ILUSTRAÇÕES HALLINA BELTRÃO

01 de Julho de 2021

Ilustração Hallina Beltrão

[conteúdo na íntegra | ed. 247 | julho de 2021]

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DIA 1º
Era uma segunda-feira à noite quando desembarquei no Aeroporto Internacional do Recife. Tinha alugado um apartamento pequeno por cinco dias no Bairro de São José, área central da cidade. Meu principal critério para a escolha do lugar onde me hospedaria foi a proximidade com o Mercado de São José, um dos mais importantes lugares de comercialização de sereias. Desde o último inverno, a costa do nordeste brasileiro, assim como as costas de outros países, se tornou destaque mundial pela aparição de criaturas marinhas ligeiramente humanoides. Os estudos ainda são poucos, mas os cientistas acreditam que essas criaturas, chamadas de sereias, viviam antes em fossas oceânicas, depressões profundas causadas pela aglomeração da crosta oceânica localizadas em continentes e no fundo dos mares.

Especula-se que as sereias submergiram por condições climáticas e pelas últimas atividades tectônicas no planeta. Agora, são abundantes e presentes em praias com águas mais quentes. Contudo, foi observado que há uma maior atividade na superfície em dias chuvosos. Então, vim como correspondente ao Recife na chamada “quadra chuvosa”, que corresponde aos meses de abril a julho, para acompanhar a rotina dos pescadores, recolher opinião dos ativistas e dos frequentadores do Mercado de São José, na temporada de caça às sereias.

Chegando no apartamento, desfiz minhas malas com cuidado, organizei minhas roupas e pertences no armário, esquentei minha comida e me sentei em frente ao meu notebook. A redação tinha me enviado o levantamento dos dados sobre o mercado e a caçada, tudo o que precisava saber estava ali, não seria o único repórter no local. Isso, com certeza, não. Dados de crescimento econômico, protestos contra a caça às sereias, debate internacional e, no meio de tudo isso, o vídeo da pesca… Meu estômago embrulhou. Guardei meu jantar e fui dormir.

DIA 2
Fui andando ao mercado no meu segundo dia na cidade. Uma cidade de ruas estreitas e bem populosas, o comércio formal e informal existe por toda parte. O Mercado de São José é um dos 24 mercados públicos do Recife, capital de Pernambuco. Inaugurado em 1875, é o mais antigo mercado público do Brasil e o primeiro edifício pré-fabricado em ferro no país. Ao redor do grande prédio, havia várias placas anunciando a carne de sereia de diferentes formas, alguns até promoções faziam. Era curioso verificar que o comércio adotara em seu cardápio “carne de sereia”. Entrar na área dos frutos do mar foi difícil, existia muita gente, até mesmo para a grande estrutura metálica, mas não era difícil encontrar os balcões com a iguaria que vim à procura. Lá estavam elas, fatiadas, picadas, embaladas, deitadas, cobertas de gelo e sal grosso, penduradas pela boca em ganchos altos e pesados, as sereias.

Depois de mortas, a textura era idêntica à do bacalhau, salgadas, ásperas e brancas. Exalavam um cheiro forte também, não era ruim, mas único. Perguntei à dona de um dos balcões quanto era o quilo da carne de sereia, e ela disse que custava 200 reais o quilo, e que as pessoas pagavam esse valor e ainda valores maiores, pois a carne era muito nutritiva. Não devia estar mentindo. A demanda era tanta, que pessoas esperavam no mercado pela nova remessa de sereias fresquinhas do mar. Parei algumas pessoas durante suas compras para perguntar-lhes sobre a caçada, porque atualmente está havendo um debate muito grande entre os governos e entidades ativistas sobre a procedência da pesca.

Recebi uma variedade de respostas: “Acho que não estamos fazendo mal a ninguém”, “Essa caça ajuda o nosso ecossistema”, “A pesca às sereias salvou a economia, não vê?”, “São demônios! É o sinal do fim dos tempos, precisamos matá-las, antes que nos matem”, “São peixes como quaisquer outros. Ninguém está discutindo sobre a pesca das tilápias, por que deveria me preocupar com a das sereias?”.

Fora do mercado, experimentei as populares iguarias que faziam com a carne do animal. Pastéis, espetinhos, ensopado, risoles, coxinhas, bolinhos etc., recheados com carne de sereia e misturados a outros ingredientes de sabores igualmente fortes. Diferentemente de pedaços como o filé de sereia, conhecido por ser macio, fresco e suculento, lembrando uma junção de sabores e texturas de outros seres aquáticos que já somos acostumados a ingerir, as comidas de rua utilizavam as partes mais baratas, e menos palatáveis, das sereias em sua composição. Eram dedos, guelras e aquelas próximas ao final da cauda, que de “carne” só tinham o nome e eram vendidas, em média, por três reais o quilo.

DIA 3
Eu ia ver uma sereia viva de perto. No dia seguinte, faria um mergulho guiado. Felizmente, o Recife é considerado a capital brasileira dos naufrágios, por abrigar o Parque dos Naufrágios Artificiais de Pernambuco, lugar protegido pelo governo. Por ter a caça de animais marinhos proibida no local, os escombros dos navios se transformaram no lar de alguns desses seres, que acharam um lugar seguro para viver.

O governo federal autorizou a caça às sereias após identificar uma baixa nunca vista antes na pesca de frutos do mar. Peixes de água salgada, polvos, camarões, ostras e outros animais aquáticos desapareceram dois meses depois do aparecimento das sereias, causando uma grande crise econômica. Logo se identificou que as sereias eram as responsáveis pelo sumiço desses animais, já que se alimentavam deles. Assim, determinou-se que as criaturas fossem controladas, autorizando a pesca.

Meu encontro com os mergulhadores foi bem-organizado. Aparentemente, a demanda para ver as sereias no parque é enorme, e, para não assustá-las, só é permitido o mergulho de três pessoas por hora, sob agendamento. Para mim foi um alívio, os mergulhadores teriam mais tempo para responder às minhas perguntas. Se chamavam André e Felipe, eram muito simpáticos e pacientes e me explicaram várias coisas.

Segundo eles, as sereias têm canais respiratórios que possibilitam a respiração tanto debaixo d’água quanto na superfície. Sendo assim, emitem dois sons: um auditivo e outro não auditivo. O não auditivo é emitido embaixo da água, para se comunicar, capaz de ser ouvido pelos humanos através de um aparelho transmissor, e o auditivo é feito na superfície do mar. Produzidos apenas pelas sereias adultas, os sons auditivos são emitidos na superfície quando elas se sentem ameaçadas. São melódicos, e costumam ter uma grande extensão modulada das vogais A, I e U.

Descemos nós três dentro de uma gaiola, por medida de segurança. Demoramos uns 15 minutos até encontrarmos uma sereia, nunca me esquecerei daquela imagem. Diante da imensidão azul, entre corais coloridos, navios tomados por algas e seres marinhos, estava uma sereia sob os holofotes solares que penetravam a superfície líquida. Ela estava ereta na água, flutuando, majestosa. Pela longa cauda, como a de baleia bicolor, era uma sereia adulta. Tinha o torso parecido com o de um humano, mas com escamas, guelras e sem seios. Sua espinha dorsal era protuberante nas costas, seus membros superiores eram uma mistura de braços humanos com barbatanas. Na ponta desses membros, mãos e dedos interligados por uma membrana como a dos patos.

Acima de um pescoço assustadoramente humano, o rosto. Rosto esse que não tinha nariz, mas guelras, que pareciam cortes profundos feitos pelas garras de um felino. Os olhos eram incrivelmente expressivos, e saltados como os de um sapo. No topo do crânio, era como se um nautiloide ali repousasse, exibindo seus tentáculos para trás, nos remetendo a cabelos em constante ondulação. Sua boca era formada por uma membrana que lembrava lábios, mas abria de forma circular, estreita, exibindo poucos dentes, porém afiados.

Começou a se mover graciosamente, parecia dócil como uma tartaruga marinha, mesmo tendo percebido a nossa presença no ambiente, talvez já tivesse se acostumado com as visitas de hora em hora. Fiquei estático, um pavor imenso me consumiu, assim como uma sensação de admiração indescritível. Assistia àquele ser se mover diante dos meus olhos, naquela paisagem extraterrestre. A sensação era de estar diante de um anjo, de uma aparição monstruosamente divina.

Era uma criatura fascinante, incomum em suas cores, sua forma. Sua existência rompia com as milhares de certezas que nós, humanos, temos sobre o mundo. Estava totalmente paralisado, em conflito com as sensações, emoções e os pensamentos que experimentava. Como poderia aquele animal existir?

Voltamos para a superfície e precisei de um tempo. Os mergulhadores riram de mim, me deram água e uns tapinhas nas costas. Aparentemente, essa era uma experiência comum para quem viu uma sereia pela primeira vez. “É, parece que as histórias que ouvíamos sobre sereias encantar os homens não é tão absurda assim não, é?”, comentou Alex, rindo.

DIA 4
O dia amanheceu nublado. Alguns trovões podiam ser ouvidos de longe. As nuvens pesadas e cinzentas pairavam sobre a cidade, transformando tudo em um grande bloco de concreto frio e uniforme. Sobre a camisa e as calças, coloquei minha capa e as galochas; na cabeça, um boné resistente à água. Uma câmera, meu celular, documentos e a credencial era o que eu levava na bolsa. Enquanto passava um café rápido, liguei a TV.

Estavam exibindo os preparativos para a largada das dezenas de barcos que sairiam do porto do Recife para a, agora anual, caçada às sereias. Como a previsão era de chuva, o dia estava perfeito para a pesca. Pela cobertura, vi que já havia muitas equipes de TV no local, bem como pescadores, curiosos, oficiais do governo municipal e estadual, e população que se posicionava contra e a favor do que iria acontecer em poucos instantes.

Me apressei. Eu seria um dos poucos jornalistas que teriam a experiência de estar dentro de um dos barcos que partiriam para a pesca das sereias. Parecia carnaval, as ruas da cidade estavam decoradas. As casas, os comércios e até mesmo alguns carros estavam decorados com imagens e signos que remetiam ao evento do dia. O meu táxi me deixou próximo ao porto, e tive que fazer um pequeno percurso a pé. Uma multidão esperava do lado de fora; apresentei minha credencial aos seguranças e fui rapidamente encaminhado à embarcação onde partiria, “Expurgo marítimo”. Um nome enigmático.

Minutos depois, os barcos desatracavam do porto sentido mar aberto sob ovação e fogos de artifício. Uma leve garoa começava a cair e a criar relevos na superfície da água. Sentia uma energia caótica circulando naquele momento, marinheiros e pescadores das quase 60 embarcações urravam em celebração ao momento, enquanto os barcos entravam mar afora.

O vento forte no rosto junto com os pingos da chuva embaçava a minha visão. Eu me perguntava como enxergaria as sereias nessas condições. Questionei seu Tenório, capitão do barco, um homem nos seus 55 anos, baixo, um pouco gordo, e com 30 anos de experiência no mar. O capitão me informou que o período chuvoso é de reprodução das sereias, quando elas vão à superfície. Sereias se reproduzem por partenogênese, estudos indicaram que há apenas fêmeas nesta espécie, já que só foi encontrado um sistema reprodutor em exemplares capturados em todo mundo. Sendo assim: “A dança do acasalamento”, que se dá sob a chuva, é um espetáculo de rara beleza, com várias delas se movimentando sobre as águas.

A chuva ficava mais forte, algumas redes foram lançadas no mar, mas nada puxavam. Então, em um momento específico, dentro de uma espécie de aquário improvisado, o barco que liderava a frota exibiu uma sereia viva aos outros barcos. Todos vibraram ao ver a criatura que se retorcia nos braços dos marinheiros. Eles a levaram até a proa e espetaram seu rabo com um grande arpão, deixando-a pendurada de cabeça pra baixo.

Enquanto se retorcia em agonia, o sangue vermelho escorreu pelo seu corpo e rosto, alastrando-se pela embarcação. A sereia capturada emitia sons agudos e desesperados de frequência A, numa cena assustadora. “Esse som faz com que as outras apareçam pra ver qual é a ameaça, aí atacamos”, disse um dos marujos do meu lado.

Não demorou muito tempo, caudas foram avistadas próximas às embarcações, e a partir daí começou a chacina. Quando a primeira sereia apareceu, houve uma sinfonia apocalíptica de chuva, trovões, gritos e cantos. Arpões eram lançados ao mar, assim como redes grossas de náilon. Quando içadas, as sereias eram jogadas para dentro dos barcos e se debatiam e cantavam sem parar. Os tripulantes, com foices e facas, davam golpes fortes nos membros dos animais, arrancando suas vísceras, nervos e órgãos, dando fim àquelas que ainda estavam vivas.

O convés era de um carmesim forte e de um tremendo cheiro de morte. O mar também estava avermelhado e sombrio. Com as roupas encharcadas de sangue, os tripulantes acenavam uns para os outros nos barcos vizinhos, enquanto carcaças de sereias boiavam no mar, atraindo tubarões, e redes e mais redes com dezenas de sereias eram levadas ao ar e jogadas no convés para o abatimento.

Nas praias, o que chegava era o caldo grosso rubro, com restos das criaturas mortas. Se desse sorte, quem estivesse na praia poderia até achar um bom pedaço de torso que não foi devorado por um tubarão, para se alimentar ou vender pela cidade. Ao voltar ao porto, fomos recebidos como heróis. Todos tiravam fotos e eram fotografados junto às pilhas de corpos de sereias na frente das embarcações. Acredito que eu tenha saído em uma foto dessas com a tripulação do Expurgo Marítimo em algum jornal local. Nessa noite não consegui dormir.

DIA 5
Naquele dia de ressaca da expedição atroz, acompanhei um protesto contra a matança das sereias, que tinha concentração na Praça do Derby e seguiria até o Palácio do Campo das Princesas, sede administrativa do poder executivo do estado brasileiro de Pernambuco. Nessa mesma data, grupos ativistas reivindicam em todo país, e no mundo, a proibição da caça desenfreada de sereias. Seus argumentos defendiam a utilidade ecológica das sereias, já que também se alimentam de animais considerados venenosos para nós pela absorção de poluição nos mares. “A escassez de frutos do mar não se deve às sereias, mas à poluição nos oceanos”, afirmou Cecília, uma representante do manifesto.

A passeata saiu da praça com a propagação de palavras de ordem em alto-falantes e coro dos manifestantes. Gente curiosa se juntava nas calçadas, vendo o cortejo avançar. Uma leve garoa começava a cair e a molhar a superfície das roupas. Os ativistas e simpatizantes de quase 30 associações ambientais faziam volutas e coreografias imitando o movimento do mar e das sereias enquanto caminhavam em direção ao palácio. Predominavam as cores azul e branca, manchadas de vermelho. Ouvi muitas pessoas naquele dia, tantas que não poderia descrevê-las aqui; elas chegavam a mim voluntariamente.

No começo da noite, eu me encontrava no mesmo lugar onde toda essa minha experiência começou, no Aeroporto Internacional do Recife. Meu voo estava prestes a chegar, mas continuava ali sentado em frente à TV ligada no saguão, maquinando sobre tudo que eu tinha visto e vivido.

Mirei meu olhar em um cartaz que estava em uma parede do saguão, a ilustração de uma sereia sorrindo, dançando frevo, com a legenda: “Recife espera por você. Volte logo”. Fiquei encarando o sorriso daquela figura, era como se meus olhos fossem dando zoom naquela imagem e aquele sorriso se transformasse em uma expressão dramática, triste e sádica. Em meio a esse transe, fui despertado pelo aviso do aeroporto sobre o meu voo, era a última chamada. Me levantei, peguei minhas malas e fui em direção a saída do aeroporto. Não iria embora, meu trabalho ainda não terminou.

ARIEL SOBRAL, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

HALLINA BELTRÃO, designer e ilustradora

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