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Crítica

'King Kong en Asunción' traz jornada existencial

TEXTO Luciana Veras

01 de Fevereiro de 2021

Longa-metragem do realizador pernambucano é uma travessia pela América do Sul

Longa-metragem do realizador pernambucano é uma travessia pela América do Sul

Frame AURORA CINEMA/DIVULGAÇÃO

[conteúdo na íntegra | ed. 242 | fevereiro de 2021]

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“A vida é um percurso”, diz a voz hipnótica em guarani, uma das línguas dos povos originários da América do Sul e fio sonoro de King Kong en Asunción (Brasil, 2020), o segundo longa-metragem ficcional do realizador pernambucano Camilo Cavalcante. A memória é um percurso, prossegue a narração em off enquanto a câmera enquadra a vasta alvura do Salar de Uyuni, na Bolívia, “e esta também é uma história de ruínas”. Escombros podem ser a estrutura corporal cambaleante, porém ainda funcional, do Velho (Andrade Júnior), o protagonista deste que pode ser enfeixado em várias possibilidades de classificação – um road movie, uma jornada existencial de um protagonista já no outono da vida ou ainda uma travessia pelas precariedades e violências que conectam os países latino-americanos.

E escombros são, também, as lembranças de tudo que vivemos, os castelos erigidos ao longo de uma existência (descobertas na infância, sonhos, aspirações, desejos) e as experiências acumuladas até quando decidimos revisitá-las. Quando conhecemos o Velho, logo na primeira sequência de King Kong en Asunción, constatamos que ele é um matador profissional e que está ali, na imensidão de um deserto de sal, para dar cabo de uma das suas missões. Ao assassinar o homem e efetivar o serviço para o qual havia sido remunerado, ele começa a caminhar, como se as pernas, já envergadas pelo peso do tempo, fossem capazes de almejar, e atingir, a proeza de levá-lo adiante.

Assim o fazem e assim podemos, desde o início, fruir como uma fábula este filme, exibido pela primeira vez na mostra competitiva na virtualidade do Festival de Gramado, em setembro de 2020, da qual saiu com os prêmios de melhor filme brasileiro pelos júris oficial e popular, melhor ator para Andrade Júnior e melhor trilha sonora (em empate com Todos os mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra). Mas não uma fábula com uma moral a ser ensinada, ou uma em tons amenos, e, sim, uma daquelas que nos forjam uma via para acreditar no impensável... No que nem sempre se consegue explicar. Mas se sente. Como em A história da eternidade (2014), primeiro longa de Camilo, e também como em sua prolífica produção de curtas-metragens, os roteiros, sempre escritos pelo cineasta, enveredam por imagens a espelhar as dubiedades da vida desde o seu despertar.


Trecho do longa-metragem (legendas em inglês)

King Kong en Asunción – que em março poderá ser visto em uma sessão de pré-estreia também virtual, graças a um projeto submetido pela Aurora Cinema na Lei Aldir Blanc –  lastreia-se, pois, nas contradições do seu personagem principal. E também no jogo de espelhos, na tensão entre reflexão e refração, estabelecido entre o texto narrado pela atriz paraguaia Ana Ivanova no guarani, que é um dos idiomas oficiais do seu país, texto este escrito pela gaúcha Natalia Borges Polesso, a partir de apontamentos que Camilo lhe enviara, e as cenas que se desenrolam com o Velho como condutor. “Ele é bicho”, situa a voz onipresente, e “ele recolhe distâncias”; ao mesmo tempo, é selvagem o bastante para atravessar meio século chacinando pessoas por encomenda, frágil pela idade que o constitui e afetuoso com os amigos, poucos, que lhe restam – como o barbeiro (o excelente ator paraibano Fernando Teixeira, de Aquarius) – e com os quais topa durante a sua viagem, a pé, da Bolívia até o Paraguai.

Há esse convite para explorar as contradições também no meticuloso trabalho do diretor de fotografia Camilo Soares e da direção de arte de Diogo Balbino. É como se a beleza extrema do Salar do Uyuni, por exemplo, empalidecesse diante da pobreza, também extrema, das pequenas cidades que o Velho percorre para chegar ao seu destino – uma filha, Maria (Ede Colina), a quem ele não chegou a conhecer e que até hoje mora com Constanza (Georgina Genes), mulher que o Velho, na medida do possível, amou. Ou como se a relevância da paisagem humana sobressaísse ante as diferentes faces da tríplice fronteira – Brasil, Bolívia, Paraguai – visitada pela narrativa e a câmera, quase colada na epiderme do Velho, ora assumisse uma distância regulamentar para que pudéssemos ter ciência de onde ele estava (uma birosca em beira de estrada onde um último acerto lhe é requisitado, praças públicas onde se encontra com o detetive que contratara para rastrear Maria), ora se aproximasse tanto para que pudéssemos ver as rugas em seu rosto fatigado e suas quase imperceptíveis nuances da mudança de humor.

Porque o Velho, com sua arma sempre a tiracolo, tem com o seu instrumento de trabalho uma relação de contiguidade e continuidade. O revólver é uma extensão do seu corpo, tamanha é a familiaridade com a qual é empunhado. É como se a violência estivesse no seu DNA. Portanto, quando uma noitada com duas prostitutas ganha outros contornos, e mesmo sob massivo consumo de álcool, o Velho reage sem que seu rosto o denuncie – afinal, está acostumado a trazer, dentro de si, a fúria, a dor, as mazelas que, no nosso continente, não são apenas de quem aqui habita, e, sim, da terra mais garrida, do solo hermoso banhado com sangue da colonização.

Em 2017, quando rodava King Kong en Asunción em Tupiza e Tarija, no interior da Bolívia, Camilo Cavalcante falou à Continente para uma matéria que publicamos na edição #197, de maio daquele ano: “O filme é um desafio – uma produção brasileira filmada na Bolívia, no Paraguai e em Pernambuco, que integra profissionais e artistas dos três países. Tivemos que fazer um estudo logístico para cruzar fronteiras e percorrer quase três mil quilômetros, mas a proposta é de integração artística e humana, pois nossa realidade é a mesma. Sofremos dos mesmos males, da mesma opressão política; o Brasil acaba olhando muito para fora, para cima, para a Europa e para a América do Norte, e acaba esquecendo de olhar pra dentro. Precisamos cada vez mais dessa integração”.

O diretor Camilo Cavalcante. Foto: Aurora Cinema/Divulgação

Quase quatro anos depois, sob o modus vivendi da pandemia e em um momento em que o Brasil, patinando para definir um planejamento para a vacinação, assistia a países hermanos  – Argentina, Chile, Costa Rica, México – iniciarem o processos de inoculação em massa, voltamos a conversar sobre essa ideia de “integração artística e humana”. O Velho, com gana por sangue e sua proficiência em matar, não surge do nada.

“Matam sua família por uma briga por terra, pela questão agrária, e isso está presente no filme. Aquele menino se monstraliza. É a metáfora de um Brasil que se monstraliza cada vez mais pela falta de afeto. Onde não existe afeto, abre-se um oco e o ódio invade e toma conta. Acho que o filme está ainda mais atual, pois estamos vivendo numa sociedade dominada por um ódio secular. A nossa própria colonização nos encheu de violência, em um processo que ainda resvala até hoje para o racismo, o machismo e a estupidez que os rondam. Tudo isso está colocado lá, mas de forma existencial, de um menino que simboliza um país que se monstraliza pela violência extrema e pela falta de afeto e sai em uma jornada que é a jornada da América Latina. Essa colonização ultraviolenta, que aniquilou os povos indígenas e originários, é um massacre perpétuo. E esse massacre segue até hoje”, argumenta Camilo Cavalcante.

No filme, essa observação leva um rastro de sangue a sair de Amaraji, na Zona da Mata Sul pernambucana, onde fica o engenho que serve de locação e inspiração para essa passagem da infância (na qual o Menino, em maiúsculas como o Velho, é interpretado por Maycon Douglas e a veterana do teatro pernambucano Maria de Jesus Bacarelli vive sua avó) e se estender até a Bolívia e o Paraguai, numa teia urdida de modo não linear. Sabemos, desde o plano de abertura, quem é o Velho, o que ele faz e com quem ele anda – afinal, é aquela voz ubíqua, sua – e nossa – companheira assídua, que nos dá acesso à sua história. E ao longo do deslindar dessa trama, a narração opera tanto como oráculo, oferecendo os vislumbres dos futuros daquelas pessoas que se relacionam com o protagonista, como com um caleidoscópio, cavando novas janelas e dissolvendo lembranças como cores a se fundir no emparelhamento das lentes.

Tal narração é um dos elementos formais mais vigorosos King Kong en Asunción e representa uma linha de fuga na caligrafia cinematográfica de Camilo – é a primeira vez, nas suas quase 20 obras entre curtas e longas, documentários e ficções, que o diretor adota o recurso. Antes, em curtas como Leviatã (1999) e Rapsódia para um homem comum (2005), havia fluxo de consciência e vozes masculinas a repercutir o que sentiam, mas nunca durante toda a narrativa, nem tampouco uma voz feminina em terceira pessoa. Percebe-se, em King Kong.., essa nova opção criativa junto a características que marcam seu estilo, como uma mirada generosa para personagens já envelhecidas (Os dois velhinhos, em que retratou seus avós, em 1996, O velho, o mar e o lago, de 2000, o curta A história da eternidade, de 2003); uma confluência barroca, até, entre imagem e som; a composição dessa imagem para que, no enquadramento, haja poesia e por vezes beleza, mas sem esterilidade; e zelo para desbastar as performances de atores e atrizes de modo que se nivelem no visceral, sem nunca recair no caricato ou no exagerado.

“A velhice e a infância são duas pontas de uma mesma linha e dois momentos muito especiais, e muito frágeis, da vida. Ao contrário da infância, quando existe toda a possibilidade de ainda vislumbrar uma existência com todos os seus sentimentos e vivências, na velhice você já vivenciou e experimentou muita coisa. Talvez essa nostalgia também permeie meus filmes, desde os curtas, e de fato a temática dessa fase da vida me interessa bastante”, comenta o realizador, em entrevista à Continente no primeiro mês de 2021.


O ator Andrade Júnior, falecido em 2019, foi homenageado in memoriam em Gramado. Imagem: Aurora Cinema/Divulgação 

Para além da sua predileção pelo que se convenciona chamar de terceira idade, algo recorrente em seu discurso fílmico, de onde veio o impulso de utilizar uma voz como guia? “O roteiro previa uma narração em off, que ia ser lida pelo próprio Andrade. Esses offs já estavam escritos e foram muito importantes para dar o tom dramático das cenas. Mas, antes mesmo das filmagens, eu já sabia que seria muito mais um indicativo do que propriamente o texto. Durante o processo, tive a certeza de que queria que fosse uma voz simbólica, de um personagem que talvez represente a morte, mas uma voz em guarani, justamente para dar voz a esse povo que segue sendo dizimado. Acho que isso traz uma força e uma potência poética e também uma outra possibilidade de interpretar o filme. Como se tivesse uma camada literária, uma poética, uma sonora e uma imagética, todas muito fortes, e também uma leitura política, com uma pitada existencial de anarquia”, explica Camilo.

***

Muito embora sua excelência cinematográfica seja inquestionável, mesmo para quem se incomoda ao acompanhar o Velho ou estranha a ubiquidade da voz em guarani, quase como uma consciência, ou mesmo o anjo da morte, é certo afirmar que não haveria o filme, nem todas as suas camadas e recortes, sem o ator cearense, radicado em Brasília, com quem o diretor dividiu um quarto em um festival de cinema no já longínquo 2007. Andrade Júnior é alma e pele de King Kong en Asunción, é bússola e termômetro, é âncora e proa. Foi a partir de uma performance dele, que se relaciona ao título, que Camilo teve a ideia de rascunhar uma história; foi com ele em mente que o roteiro foi sendo burilado; e, naturalmente, foi ele, com mais de 70 anos, que encarou as semanas de deslocamento e as condições nem sempre favoráveis, em especial no que tange a altitude, para filmar.

Se há o mérito do cineasta em construir personagens masculinos matizados com complexidade, como os irmãos vividos por Irandhir Santos e Claudio Jaborandy no longa A história da eternidade, e o papel-título que Sílvio Pinto defendeu no curta O presidente do Estados Unidos (2003), há também uma simbiose irrefutável entre Andrade Júnior e o Velho. É quase como se, com sua presença em cena, Andrade Júnior tornasse aquele Velho ainda mais crível do que suas origens de violência, seu passado imbricado com conflitos que ladeiam as nações latino-americanas, seu pendor para a brutal resolução das mortes que lhe eram demandas. E a eloquência do seu olhar, ou mesmo apenas o gestual de um corpanzil já sulcado pelas intempéries da vida, bastam para transportar a audiência para um tempo dilatado... Que pode ser o agora, pois, afinal, as veias da América Latina permanecem escancaradas, um passado não tão distante ou mesmo um futuro desalentador, mas verdadeiro.

É uma pena, contudo, constatar que o filme é dedicado, in memoriam, ao ator, falecido há quase dois anos. Triste pensar que ele não pode receber o Kikito de melhor ator em Gramado e que não estará aqui para apresentar a sessão a ocorrer, ainda neste primeiro semestre, no Teatro do Parque. É lá, no recém-reinaugurado templo da cinefilia pernambucana, que a Aurora Cinema e Alumia Conteúdo – as duas produtoras do longa viabilizado com recursos estaduais do Funcultura e do Fundo Setorial do Audiovisual/FSA e Agência Nacional do Cinema/Ancine, do Governo Federal – querem promover a primeira exibição pública, e em uma tela grande, de King Kong en Asunción.

“Andrade Júnior é a força motriz do filme. Surgiu dele, dessa coisa dos encontros, de dividirmos um quarto, e não existiria sem ele. Em 2019, fizemos uma sessão do filme aqui na produtora, para a equipe ver aquele primeiro corte, e falamos muito dele, do seu trabalho. No dia seguinte, chegou a notícia de que ele tinha morrido dormindo. Foi muito chocante, mas parecia que tudo tinha um significado, sabe? Quase mágico, como se ele tivesse desencarnado e tivesse vindo para estar conosco. Mas ele sempre estará no filme. Vivo, eterno, com toda a sua verdade”, homenageia Camilo Cavalcante.

Antes dos créditos finais, há um close do rosto do protagonista nos encarando como se não mais houvesse a quarta parede ou a opacidade da tela, e, sim, a transparência do vidro ou o mistério de um espelho, irrompe uma profecia da voz em guarani: sim, voltaremos a nos encontrar, ela e o Velho, nós e os fantasmas da América Latina, “talvez, no cinema”.

Ou talvez somente no cinema, que nos reveste da fantasia necessária para desnudar as vicissitudes de continentes cindidos pela desigualdade e nos dá a resiliência de personagens como o Velho. Mesmo transcorrendo toda sua existência em um abraço fatal com a morte, tentando expurgar as dores do passado ao mesmo tempo em que matava gente sem piedade, dele emana a estranha mania de ter fé na vida. E de sempre enxergar algum tipo de recomeço, como canta Mercedes Sosa em Volver a los 17, a canção que descerra o filme e nos lembra que, ante as dificuldades, é possível se enredar – a nós, ao quem amamos, a quem deixamos, aos nossos países – como o muro para a hera e brotar, para renascer a cada instante, como o musgo na pedra.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente e crítica de cinema.


EXTRA:

- Se inscreva (até 22/02) na oficina gratuita de Filme de baixo orçamento, ministrada por Camilo Cavalcante em março.
- Assista ao filme em sessão especial (05.03, às 20h), gratuita e online, seguida por debate com o cineasta e equipe. Vagas limitadas: se inscreva aqui.


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