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Ficção

Como se o meu coração estivesse querendo ouvir o teu

TEXTO BERNARDO BRAYNER

01 de Dezembro de 2020

Ilustração JANIO SANTOS

[conteúdo na íntegra | ed. 240 | dezembro de 2020]

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Quando, por exemplo, meu irmão pedia mais uma garrafa ou enchia mais um copo e naquele mesmo instante eu me levantava em protesto, acontecia a nossa dança. A garrafa a mais ou o copo cheio derramavam pela metade como se fosse a metade que me cabia da garrafa ou do copo. E se de uma carruagem ele caía depois de beber da carruagem eu também caía, com a metade do solo que me cabia, e acontecia a nossa dança mesmo no chão. Dois velhos sujos de sangue e poeira. E na última vez que falei com meu irmão, não sabendo que seria a última vez, que pela manhã já estaria morto, pedi que apagasse o lampião e aquele lampião foi apagado e eu não falaria mais nada, pensaria que, na manhã seguinte, durante aquelas três horas que me restariam, aquela frase simples Apague o lampião ficaria se repetindo indefinidamente no vácuo do silêncio das palavras que não foram ditas e que cada palavra da frase Apague o lampião ressoaria em incontáveis mundos diferentes mas ligados, nada falaria embora quisesse dizer muitas coisas, entre elas, que nada é eterno, que você estará sempre ligado a mim, que nada é para sempre, mesmo que soubesse que a morte de fato possa ser, diria que não acreditasse em uma só palavra do que eu estaria dizendo e desviaria o olhar como quem não quer encarar um peso, indeciso entre os insondáveis tempos verbais e sem saber dizer que, assim como Scheherazade, manter-me vivo depende da narração que se multiplica e se multiplica e se multiplica, com esse som de serpente ou máquina, mas nem disso tenho mais certeza, da narrativa e da sobrevivência, pois o fim da minha terceira hora chega, então eu estou indo, eu pediria que me desculpasse, meu irmão, por isso, mas cada momento daquele também se multiplicaria para mim e os seus pares estariam amanhã naquelas três horas perdidas em um jogo em que apenas uma equipe joga. Não amamos a mesma mulher. Mas sucumbimos ambos ao amor. Você amou Adelaide e eu a sua irmã Sarah. Mas você também, como eu, amou em silêncio a outra irmã ou nenhuma delas? Você também amou a morte três horas mais cedo, meu irmão. Agora sei que não verei mais os budas em estilo Sukhothai, permanecerão um mistério os reinos de Ayutthaya e Lanna, além de Lan Chang. Não nadarei mais no Rio Chao Phraya, não visitarei a Península de Malaca e o Istmo de Kra. Deus tem uma maneira demoníaca de dar nome às coisas. Então eu estou indo. Que brincadeira é essa, meu irmão, para a qual você agora me empurra, deixando os filhos em número de vinte e dois. Doze seus e de Adelaide. Dez meus e de Sarah. Adelaide e Sarah se separaram, meu irmão, você sabe, e eram três dias na casa de cada uma, três dias na casa de cada irmã separada. Nossos filhos, separados, lutam em exércitos diferentes nessa guerra fratricida. Qual de nós não gostava de batatas? Eu ou você? Quem enxotava as galinhas da fazenda arremessando o que tivesse à mão? Eu ou você? Quem colocava o braço passando pela nuca do outro? Aquele era eu ou você? Estamos sentados com a nossa mãe. Esse homem de sotaque estranho diz que vai nos apresentar ao mundo. Vamos ver as montanhas da Escócia, ele diz, vamos ver a Bregenzerwald que ocupa a área norte de Vorarlberg, ele diz, vamos nadar juntos no Bodensee, ele diz, vamos visitar o Museo Egizio em Turim, conheceremos a Sardenha e a Ligúria. Juntos conheceremos o Mercado Nishiki que vai de Tenmachi à Takakura, lá comeremos picles e compraremos facas afiadas. Vamos visitar, ele diz, o Vale de Nubra e chegar aos murais de Ajanta para contemplar as cenas dos contos de Jataka. Vamos ao vilarejo de Neuhofen às margens do Rio Ybbs para visitar sua igreja gótica com uma espiral elevada. Vamos pegar os trens domésticos que custam 70 lei que saem de Bucareste e vão para Timisoara. Vamos para Nantucket, Nantucket que soa como o estoque do arpão, ele diz, Nantucket onde os homens caçam baleias que se não forem caçadas ainda estarão vivas nos séculos vindouros. Do que mais você se lembra, irmãozinho? Dos dias intermináveis no navio? De quando ríamos do som da palavra América? De quando fazíamos piadas da Carolina do Norte e da Carolina do Sul, separadas também por uma estreita faixa? Sim, era isso que diziam quando nos apresentavam “Irmãos unidos por uma pequena…” e já interrompíamos “Separados por uma pequena…”. Já se passam as minhas três horas. Agora somos um novamente, meu irmão. Dessa vez não nos separa aquela ponte de cartilagem: a primeira vez que vimos o mar, o silêncio que o vento traz quando o nosso pai sai para buscar nossos peixes, a chuva que nos persegue como uma cortina veloz, a primeira vez que vimos um louva-a-deus, a assembleia dos pássaros, o macaquinho que usava roupinhas sob medida nas suas apresentações no circo, a respiração do mar produzindo conchas coloridas, e tudo o que eu disser poderá ter sido inventado e criado apenas por mim e não partilhado por nós dois. É a metade da morte que me cabe. É como se o meu coração estivesse querendo ouvir o teu.

BERNARDO BRAYNER, escritor, autor de Um bicho estranho (Editora e-galáxia), Nunca vi as margens do Rio Ybbs (Zazie Editora), Autobiographie (revista alemã Alba), O livro dos tubarões (no prelo pela Fresta Editorial). Bicho geográfico (no prelo pela Editora Cepe). Seu ensaio Perec e eu recebeu menção honrosa no concurso da revista Serrote e será publicado na edição de março de 2021.

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