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Poesia incorporada

Cresce no Brasil movimento que introduz deficientes auditivos à poesia, através de declamação pública e carregada de afeto

TEXTO Guilherme Novelli

01 de Setembro de 2016

Nos recitas, há a declamação simultânea em libras e português

Nos recitas, há a declamação simultânea em libras e português

Arte Thaís Pinheiro

[conteúdo da ed. 189 | setembro 2016]

“Boa noite, povo, que eu cheguei. Vim direto de onde nem mais sei. Sei que vim correndo, cheio de desejo suado, os meus dois pés firmes neste palco, olho no olho de cada um de vocês e, já sem fôlego, dizer de uma vez… Cheguei!!!”. Este, o início do slam de Amanda Lioli e Leonardo Castilho, ela, em português, ele, em libras. “E a minha história eu vou contar. Nasci ser humano há séculos sem conta, já tropicando em tudo o que é ponta, agulhadas da sociedade. Fui sujeito e sujeitado, tudo o que é desgosto eu sei o gosto.”

Slam do Corpo é um encontro pensado para surdos e ouvintes, existente desde 2014, em São Paulo. Uma iniciativa pioneira do grupo Corposinalizante, criado em 2008 pelas arte-educadoras Cibele Lucena e Joana Zatz, como continuidade de uma oficina de iniciação artística para deficientes auditivos promovida pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM–SP). “Alguns jovens surdos pediram para nós abrirmos um espaço de trabalho para além desse curso de formação, um espaço para pesquisar arte. Assim criamos esse grupo, que se encontra uma vez por semana desde então para trabalhar questões dos próprios integrantes”, conta Cibele Lucena. Atualmente, os encontros do Slam do Corpo acontecem ao longo do ano no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, região central da capital paulista.

Durante algum tempo, trabalharam questões específicas do cotidiano de um jovem surdo, como não haver legenda nos filmes nacionais. Da problemática dos surdos, propuseram ações, intervenções na cidade de São Paulo através de performances, atraindo, inclusive, artistas não surdos, interessados na Língua Brasileira de Sinais (libras). “O grupo foi crescendo e, nesse processo longo, chegamos à poesia, pois percebemos que a língua de sinais tinha uma potência e uma relação muito forte com a linguagem poética, por conta da sua própria corporeidade”, explica.

Passaram para a narração de histórias, mas se depararam com a dificuldade de representar as metáforas da poesia em libras, além de não haver estudos sobre isso. Aprofundaram a pesquisa e começaram a inventar novos sinais para representar as figuras de linguagem. “Esse conceito de metáfora não acontecia completamente na língua de sinais. Eu me aproximei do Corposinalizante por uma curiosidade sobre língua de sinais. Também comecei a descobrir essas coisas, que a metáfora em libras não funciona do mesmo jeito que a metáfora em português, já que nem toda palavra tem um sinal que a represente perfeitamente”, explica Cauê Gouveia, ator e produtor do Slam do Corpo. Surgiu, então, a ideia de produzir poemas em libras, entrando em contato com o movimento de slam que existe em São Paulo, em vários saraus e slams como o Zap!. (Antes de seguirmos, vale a explicação: o termo slam vem do inglês e significa – numa nova acepção para o verbo geralmente utilizado para dizer “bater com força” – a “poesia falada nos ritmos das palavras e da cidade”.) Nos saraus, o primeiro objetivo foi o de botar os poemas em libras na roda, colocar os surdos para circular e entender esse encontro entre a poesia e a língua de sinais, compreender  o encontro dessas duas línguas. “Quando começamos a frequentar o Zap!, curtimos a brincadeira do jogo, da batalha e essa possibilidade de participar com uma coisa inédita no mundo do slam: formarmos duplas em que um poeta recita em libras e o outro, em português, simultaneamente. Denominamos esta modalidade de poesia mestiça ou poesia híbrida”, conta Cibele.

“Um encontro cultural bastante experimental, apesar da estrutura do slam, das regras preestabelecidas, que se inventa e reinventa, porque traz uma questão específica e diferente, essa mistura de realidades e de existências de línguas, acabando por criar um local não direcionado para incluir o surdo, mas onde todo mundo precisa estar disponível para acessar”, continua. Um ponto de encontro que traz essa noção de inclusão, em que todo mundo percebe que é diferente e que, para estar com o outro, é preciso abertura e disposição para aprender. “Não dá para conviver sem se mover um milímetro. Com esse evento, abre-se a chance de uma reeducação para a convivência com a diversidade. É igual a ceder espaço para o deficiente ou o idoso se sentar. Você não vai perder o lugar e, sim, ter a chance de conviver”, defende Roberta Estrela D’Alva, slammer e atriz do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, de São Paulo.

“Percebemos como usar nosso corpo, a ter ideias e sentimentos novos. Vimos como nossa sensibilidade estava ruim e pensamos como fazer para melhorá-la através da poesia. Mais sensibilidade, mais significado”, explica o deficiente auditivo e poeta Leonardo Castilho. É um lugar de debate e das pessoas se descobrindo a partir deste compartilhamento. Um espaço complexo, com múltiplas facetas, de contaminação com realidades alheias às nossas. “Os poemas em dupla representam uma nova era. Quando inscrevemos o poema Boa-Noite! numa competição, não houve resistência por parte dos slammers convencionais. Apesar de sermos uma dupla, representamos apenas um ‘eu’ poético. Todo o público diz que não viu duas pessoas, mas apenas uma”, acrescenta Castilho, referindo-se ao poema transcrito no início deste texto.

Então, do encontro entre o português e a libras, poderão surgir possibilidades inimagináveis. “Vários teóricos e poetas, como Benjamin e Mayakovsky, afirmaram que não existe revolução quando a forma não é revolucionária. O que está mais instigante para todo mundo é que a gente não sabe aonde isso vai dar, estamos em processo de invenção, literalmente. A gente se joga e é um abismo, frustrante, às vezes, mas tem muito a ensinar sobre a convivência real com a diversidade”, continua Roberta Estrela D’Alva.

POSTURA
Poemas de autoria própria, três minutos, um microfone. Sem figurino, nem adereços, nem acompanhamento musical. O que vale é modular a voz e o corpo, um trabalho artesanal de tornar a palavra “visível”, numa arena cujo objetivo maior é o de emocionar a plateia, tirar o público da passividade, seja pelo humor, horror, caos, doçura e outras tantas sensações. 

O slam é uma competição em que cinco jurados escolhidos entre o público pelos mestres de cerimônia, sem parentesco ou vínculo direto com os poetas participantes, atribuem notas de zero a 10, conforme cada desempenho. O melhor poeta nem sempre vence, pois os jurados, longe de serem especialistas no assunto, tendem a preferir poemas cuja empatia é imediata e cujo traquejo do performer com a plateia e com o microfone impressione mais. “Uma vez com o público na sua mão, começa o jogo. É um esporte da poesia falada, de performance, e performance não é apenas o texto, é forma e conteúdo, o que você vai dizer e como vai dizer”, descreve Roberta.

Mas o intuito desse encontro extrapola a competição, remontando um pouco à ágora grega ou ao significado original de família. “Essa competição ganha o sentido de um debate político. Pessoas comuns se reúnem para escutar o outro falar, como numa velha tribo, em que os membros se reuniam em volta do fogo para contar as histórias de seus guerreiros; o fogo, hoje em dia, é o microfone”, continua a atriz.

A primeira “batalha”, como é chamada pelos slammers, foi realizada em 1986 no Green Mill Jazz Club, Chicago, num bairro da classe trabalhadora norte-americana. O Uptwon Poetry Slam foi fruto de uma parceria do operário da construção civil e poeta Mark Kelly Smith com o grupo Uptown Poetry Ensemble, já com as características de um acontecimento poético, social, cultural e artístico.

A grande inspiração desse evento, até os dias de hoje, são as batalhas de MC’s do rap – rhythm and poetry ou ritmo e poesia, em português –, desafios verbais que um rapper propõe ao outro. “Até hoje, como os rappers estão acostumados a dar ritmo à poesia, eles têm mais facilidade no slam. Já vêm com letras na cabeça, decoradas, somadas ao apelo, à reivindicação, ao testemunho, ao depoimento. O público se identifica e se emociona. Existe uma cadência, uma velocidade que ganha slams mais facilmente, você bate o olho e fala: ‘Isso é slam’”.

No Brasil, registra-se que o primeiro slam foi realizado em 2008. O Zap! – Zona Autônoma da Palavra é realizado até hoje, em São Paulo, pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, reunindo poetas de várias partes do Brasil. Os maiores centros de slam estão localizados na Região Sudeste: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. 

 

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