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Pernambuco (ainda) falando para o mundo?

Artistas e produtores apontam que as investidas no circuito internacional de música, frequentes a partir dos anos 1990, estão mais raras após a crise econômica mundial

TEXTO Leonardo Vila Nova

01 de Setembro de 2016

Atualmente, a Spok Frevo Orquestra tem consolidado apresentações nos EUA

Atualmente, a Spok Frevo Orquestra tem consolidado apresentações nos EUA

Foto Marcelo Barreto/divulgação

[conteúdo da ed. 189 | setembro 2016]

Agosto de 1995. Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ) davam início à From Mud to Chaos World Tour, primeira turnê da banda fora do país. Quarenta e três dias depois – com shows na Suíça, Holanda, Alemanha, Bélgica e mais 11 cidades nos EUA –, o grupo voltava cheio de histórias para contar. Era o impulso para uma nova relação da música pernambucana com o Brasil e o mundo. A turnê carimbava o passaporte de Pernambuco no circuito internacional.

“Todo mundo estava se lixando para Da lama ao caos, o mercado brasileiro era muito difícil pra quem não tocava na rádio”, conta o produtor Paulo André, empresário de CSNZ à época, sobre o primeiro álbum da banda, que não havia correspondido às expectativas de vendas da Sony e tinha dificuldade de tocar nas rádios, pelo som tão diferente do que se ouvia até então. A aposta no circuito estrangeiro de festivais, quando até mesmo a gravadora duvidava desse potencial, foi certeira.

Logo depois, Mestre Ambrósio, Mundo Livre S/A e Cascabulho também aprontaram as malas. Uma série de convites se sucedeu e as turnês estrangeiras passaram a ser mais frequentes. No início dos 2000, Pernambuco chega ao seu momento mais forte nesse mercado. Uma nova leva de artistas – DJ Dolores & Orchestra Santa Massa, Silvério Pessoa, Siba e Fuloresta, Coco Raízes de Arcoverde, Nação Zumbi – já havia pisado no palco de festivais renomados, como Roskilde (Dinamarca), Sfinks (Bélgica), Heimatklange (Alemanha), Womad (Espanha), Montreaux (Suíça). Dali por diante, Pernambuco começava a falar para o mundo… e a ser ouvido.

“Foram os tempos áureos”, conta a produtora Melina Hickson, sócia e parceira de Paulo André em parte dessa trajetória. “Os festivais estavam com interesse, dinheiro para investir nos cachês, o momento artístico era ótimo e havia empresários interessados”, resume. “O que mais chamou a atenção do público foi exatamente essa ruptura com uma visão estereotipada do que era a música brasileira, não só samba e bossa nova, nem só Rio e São Paulo. O que começou a chegar lá era algo diferente, que apresentava estética híbrida, dialógica, combinativa”, diz Silvério Pessoa, que, ao longo de 12 anos, excursionou pelo continente.

Com a novidade, uma cadeia de atores se desenhou para conectar essa música aos diversos circuitos. Numa ponta, estavam as bandas e seus produtores. Na outra, festivais de música, clubes e casas de show. No meio de campo, selos, distribuidoras e managers (agenciadores) estrangeiros. “Pernambuco é um foco de música independente bem importante e diferente, mas se as coisas acontecem é porque alguém investiu tempo, dinheiro e conhecimento naquilo”, afirma a britânica Jody Gillet, uma das responsáveis, nos anos 2000, pelo gerenciamento e lançamento de discos do catálogo da gravadora Trama na Europa. Entre eles, estavam os da Nação Zumbi e Otto.

“Visão estratégica é importante para levar sua música ao exterior. Associar o lançamento do disco, assessoria de imprensa, TV, rádio. Todos os meios de comunicação têm que fazer parte do desenvolvimento do artista”, endossa o francês Frédéric Gluzman, da VO Music, um dos responsáveis, nos anos 2000, por fomentar esse circuito. “Meu nome foi construído pela combinação de uma obra original somada ao empenho dos selos e agentes”, afirma DJ Dolores, que há mais de 15 anos viaja pela Europa e América do Norte.

Selos musicais lançaram alguns desses discos, fazendo com que chegassem ao público estrangeiro. Um deles, o L’autre Distribution, do francês Marc Regnier, tem no seu catálogo 10 álbuns pernambucanos, de artistas como Siba e a Fuloresta, Eddie, Seu Luiz Paixão. Além do selo, Marc foi o criador da agência Outro Brasil, que viabiliza shows no mercado europeu. “Uma série de pessoas estava empenhada em difundir essa música, que ganhava pela sua riqueza, diversidade”, afirma.

A produção do estado também escoou em coletâneas produzidas aqui, com a Music from Pernambuco (com quatro volumes, lançados a partir de 2003), idealizada por Paulo André, e fora, a exemplo da What’s happening in Pernambuco? (2008), produzida pelo selo Luaka Bop, de David Byrne.

São 21 anos de 1995 pra cá. Na atual conjuntura mundial, o cenário continua favorável para a exportação da música do estado? Nos relatos de quem tem sido parte dessa engrenagem, a realidade atual é outra. Nos últimos anos, vários fatores levaram à diminuição da frequência de turnês e viagens internacionais. Praticamente tudo converge para o mesmo ponto: a crise econômica mundial, que desencadeou a reconfiguração de mercados, inclusive o musical.

RETRAÇÃO
“Já não é mais fácil excursionar fora do país como era há 10 anos. Os custos são altos”, diz Paulo André. A reorientação das escolhas do line-up dos festivais também foi sentida. “Com a diminuição do orçamento, eles passaram a priorizar as bandas principais. Grupos estrangeiros, desconhecidos, acabaram ficando com menos espaço”, diz Melina Hickson. Marc Regnier lembra não só a queda de investimentos dos eventos, mas a extinção de muitos deles. “Nos últimos cinco anos, o número de festivais tem diminuído cerca de 30% anualmente”. Além disso, ele aponta a diminuição específica do mercado da chamada world music. “Era uma enxurrada de propostas das mais diversas. Num festival, você ouvia polifonias árabes, forró de rabeca, percussões africanas, grupos japoneses. Era muito bom, mas desproporcional.”

O percussionista Jam da Silva, que faz parte da Orchestra Santa Massa, comenta: “Nos 1990, tudo era novidade, era o impacto do diferente. Hoje, talvez, tenha mudado um pouco a forma de observar, olhar e o querer da nossa música, talvez queiram algo mais tradicional… Exótico”.

O desmantelo do mercado fonográfico também foi decisivo. “Não se compram mais tantos discos porque a música está disponível digitalmente, sem precisar pagar por ela”, afirma Jody Gillet. “Hoje, nada está sendo tão eficaz como o streaming. Isso não deixa de ser desafiador para o mercado europeu”, complementa Silvério Pessoa. Torna-se assim mais árduo ao artista independente viabilizar empreitadas lá fora. “É difícil encontrar uma agência ou selo que queira apostar em alguém novo no mercado europeu, pois há necessidade de se investir até estabelecer o nome, com incerteza no resultado. Raro o empreendedor com esse perfil. Prefere-se relançar nomes já consagrados”, conta Marc Regnier, que decidiu por não mais continuar com o L’aurtre distribution e o Outro Brasil.

A excessiva quantidade de pernambucanos que desembarcaram na Europa, num curto período de tempo, em 2005, no Ano do Brasil na França, também influenciou, acredita Melina. “Pernambuco foi o estado brasileiro que mais levou bandas para se apresentar na Europa. E isso rendia também shows em outros países. Foi uma overdose de música pernambucana”, pontua.

O espaço na mídia especializada se encontra reduzido. “Hoje, há poucas revistas, cada uma com tiragem de 25 mil exemplares, alguns jornais que uma vez na semana têm espaço para resenhar um disco”, diz Jody Gillet. O radialista belga Zjakki Willems acompanha a “nova música pernambucana” desde a explosão do Movimento Mangue e observa: “Cada vez mais as rádios públicas se comportam como comerciais: menos cultura, menos diversidade, explora-se menos a música desconhecida. No início dos anos 2000, o público teve a oportunidade de ouvir a música de Pernambuco e gostou disso. Agora, há menos chance de ouvi-la e, consequentemente, o número de pessoas que gostam dela é menor”.

Apesar do cenário desanimador, ainda é possível empreender, acreditam os entrevistados. Feiras e convenções de música, como o Porto Musical, dirigido por Melina, em Pernambuco, são vitrine importante. A cada edição, circulam produtores estrangeiros, donos de selos, agências e demais atores da cadeia de negócios da música. E os showcases têm tido um resultado positivo para despertar o interesse dessas pessoas. Coco Bongar e Orquestra Contemporânea, por exemplo, alçaram voos mais altos depois de se apresentarem no Porto Musical. A dupla Radiola Serra Alta, de Triunfo, também. Esteve, recentemente, no Festival Glastonbury, na Inglaterra. Saiu pela primeira vez do Brasil.

Este ano, artistas se apresentaram e ainda se apresentarão no Exterior: Saracotia, DJ Dolores, Quarteto Olinda, Renata Rosa, entre outros. Silvério Pessoa está negociando shows futuros. E a Nação Zumbi, aquela que, junto a Chico Science, não tinha menor ideia do passo que dava há 21 anos, está na programação do Festival de Montreaux 2016, na Suíça.

AMÉRICAS
Apesar da proximidade geográfica, o circuito musical nos EUA e países da América Latina ainda é pouco explorado pelos artistas pernambucanos. É notório que as turnês empreendidas têm a Europa como destino preferencial. E a questão não é, necessariamente, espaço (há de se lembrar, por exemplo, que Chico Science & Nação Zumbi fizeram um show histórico no Central Park Summer Stage, em 1995). Dois nomes tiveram grande repercussão na mídia ao pisar em solo estadunidense: Orquestra Contemporânea de Olinda (OCO) e SpokFrevo Orquestra. E com uma semelhança: ambos viraram notícia da imprensa internacional (demarcando espaço no New York Times) ao se apresentarem no Lincoln Center, um dos templos da música mundial.

Spok e sua orquestra têm um nome consolidado nos EUA. Boa parte disso se deve à conjunção de dois fatores: o frevo com características jazzísticas feito pelo grupo e a aposta do produtor francês Frédéric Gluzman no potencial dessa música. O impacto que o frevo exerce nos primeiros segundos de apresentação é descrito por Spok: “Assim que a gente chega ao palco, as pessoas olham e pensam que é mais uma big band. Mas basta nosso baterista começa a fazer aquela levada, que a gente nota um certo susto na plateia, em quem nunca tinha ouvido aquilo antes”. Frédéric é o responsável pela empreitada norte-americana da SpokFrevo. “Como a música deles têm uma proximidade com o jazz, foi mais fácil entrar no mercado, mas também tinha uma coisa diferente no som. Entrei nessa junto com eles, propondo essa novidade”, conta.

No entanto, Frédéric faz ressalvas ao mercado musical americano. “É muito bom para o perfil de um artista como Spok, mas, ao mesmo tempo, é complicado. Os cachês são baixos. Algumas vezes, eles não pagam transporte e alojamento”, relata. Segundo Juliano Holanda, guitarrista da OCO, questões culturais também são determinantes para essa falta de assertividade dos pernambucanos no mercado americano. “Diferentemente dos países da Europa, os EUA são uma nação mais fechada, mais ensimesmada, centrada nos seus próprios interesses, geopoliticamente e culturalmente também. É menos receptiva”, diz.

No caso da América Latina, alguns nomes pernambucanos já pisaram em seus palcos, como Nação Zumbi, Jam da Silva, Siba, Naná Vasconcelos, Saracotia – mas, numa escala pequena, se comparada com a Europa. Segundo Gutie, produtor do Rec-Beat (que nos últimos anos vem inserindo a cena musical latino-americana no seu line-up), “o Brasil sempre foi meio dissociado dos países vizinhos, pelo fato de ser o único deles que fala a língua portuguesa; pela dimensão territorial; por estar mais voltado para a música anglo-saxônica. Há um distanciamento histórico e uma relação truncada”, conta, lembrando, porém, que existem festivais a se explorar lá. “Tem o Circulart, na Colômbia; AM-PM, em Cuba; Amplifica, no Chile.” E reforça que, em tempos de crise econômica, quando ir à Europa está mais caro, o bom é investir nos territórios mais próximos, que têm demanda. “Há um interesse desse mercado de festivais pela nossa música e existe a possibilidade de a banda mapear esses encontros e fazer contato, apresentar seu material. Hoje em dia, não tem a gravadora pra fazer isso. Então, tem que correr atrás”, assevera.

PARA TODOS
Se vem do termo forrobodó (que significa festança, farra, no linguajar nordestino) ou da corruptela de for all (do inglês “para todos”), pouco importa. O que se observa é que, nos últimos anos, o forró vem conquistando territórios no Velho Mundo. No esteio da dança, a música começou a ter mais representatividade na Europa. Uma rede articulada de produtores (em geral, professores de dança), brasileiros ou estrangeiros, faz essa ponte entre o ritmo nordestino e o público estrangeiro.

O primeiro festival europeu dedicado ao forró aconteceu em 2006, em Stuttgart (Alemanha). De lá para cá, a presença dos forrozeiros aumentou, intensificando-se nos últimos três anos. “Hoje, somos mais de 15 professores de forró espalhados pela Europa, de Portugal até a Rússia”, conta Rudolfo Batista, olindense que mora há 16 anos em Colônia (Alemanha) e é um dos responsáveis por articular esse movimento exitoso. São casas de show, bares, pubs e escolas de dança dedicadas ao forró.

A Alemanha, segundo ele, é o país onde o forró é mais forte na Europa. “Temos oito grandes cidades e inúmeras menores onde o forró acontece. E os três maiores festivais, o Forro de Domingo, No rela bucho e o Forro Aachen”. O Quarteto Olinda é um dos grupos que vêm participando desses eventos. Em sua quarta ida ao continente, eles passaram 20 dias se apresentando em cidades como Bruxelas, Genebra, Barcelona. Além dos shows, um workshop de forró, em Bordeaux. “Eu sinto que lá há uma carência do tipo de som que a gente faz. Não que não tenham qualidade, mas esse balanço, essa pegada, o sotaque, só a gente tem. E quando eles veem, ficam loucos. Parece que é aquele imaginário que se materializa diante deles, aquele som do Nordeste de que ouvem tanto falar. Quando eles veem ao vivo, o olhinho chega brilha”, conta Cláudio Rabeca, frontman do Quarteto. 

 

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