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Pet Sounds: Cinquentenário da joia da música pop

Obra-prima de Brian Wilson, líder dos Beach Boys, completa 50 anos como um dos álbuns mais aclamados e influentes da história

TEXTO Débora Nascimento

01 de Maio de 2016

Baixista e pianista, Brian Wilson compôs, arranjou e produziu o 11º disco dos Beach Boys

Baixista e pianista, Brian Wilson compôs, arranjou e produziu o 11º disco dos Beach Boys

Foto Reprodução

Julho de 1963: Brian Wilson, já líder dos Beach Boys, circula pelos corredores do Gold Star Recording Studios, em Los Angeles. Pela vidraça de uma das salas, observa a movimentação de uma gravação e é avistado por Veronica Yvette Bennett, principal cantora das Ronettes e que logo se chamaria Ronnie Spector. Um mês depois, dirigia seu carro, ladeado pela namorada e futura esposa Marilyn Sandra Rovell, quando, do rádio, um som boom/ boom boom! no bumbo e tcha! no caixa de uma bateria lhe arrebata. Era o início de Be my baby, canção cujo registro ele testemunhou brevemente. Impactado, encostou o automóvel para poder ouvir o restante da composição, que logo se tornaria uma de suas obsessões – sendo a maior delas se transformar num produtor tão bom quanto o responsável por essa música, Phil Spector.

Naquele verão de 1963, aos 21 anos, Brian Wilson era um dos artistas promissores dos Estados Unidos e certamente o mais talentoso jovem músico da Califórnia. Compôs alguns dos hits radiofônicos de seu país. Nesse princípio da década, sua vida parecia, como diria o título de uma das coletâneas da banda, um endless summer, um verão sem fim. O baixista e pianista gravava, pela Capitol, discos bem-sucedidos ao lado de seus dois irmãos, Carl (guitarra) e Dennis (bateria), do primo Mike Love (vocal) e do amigo Al Jardine (guitarra).

As inquietações que brotavam na costa leste norte-americana, mais precisamente em Nova York, capitaneadas por outro jovem artista, Bob Dylan, de 22 anos, não afetavam a visão de mundo romântica dos garotos crescidos num bairro de classe média baixa de Hawthorne. As preocupações dos rapazes eram (ou pareciam ser) garotas, carros e surfe – embora só um deles pegasse ondas, Dennis.


Álbum de 1966 encabeça listas de melhores de todos os tempos.
Imagem: Reprodução

Com a morte precoce do frontman dos prestigiados Crickets, Buddy Holly, aos 22 anos, em 1959, os Beach Boys, que surgiriam no mesmo 1962 de Bob Dylan, formavam o grupo de rock mais badalado da primeira metade da década de 1960. Tudo aparentava estar sob controle na carreira do quinteto, até Brian Wilson ser, mais uma vez, abismado por algo que escutaria no rádio. “Aquilo explodiu minha cabeça!”, disse sobre I wanna hold your hand.

Os Beach Boys esperavam tudo, menos que o seu reinado fosse abalado por estrangeiros. Após o desembarque dos Beatles nos Estados Unidos, em 7 de fevereiro de 1964, nada mais seria como antes. “Nós sabíamos que éramos bons, mas tivemos que correr para não ficarmos para trás”, contou Brian. Então, em plena beatlemania, os californianos lançaram um de seus sucessos, I get around, que estourou, inclusive, na Inglaterra.

Mas a presença crescente dos Fab Four na mídia começou a ser um incômodo, e o progresso artístico dos concorrentes ingleses, desafiador. A gota d’água no mar agora revolto de Brian Wilson foi Rubber soul, lançado em dezembro de 1965. O sexto LP dos Beatles causou espanto pelo fato de ter entre suas 14 faixas nada menos que 14 músicas fantásticas, mudando, assim, o conceito que se tinha sobre “Lado A”, com dois ou três hits, e “Lado B”, com canções mais fracas e menos radiofônicas. Além disso, o vinil inovava ao incluir um instrumento completamente diferente dos utilizados no rock’n’roll (baixo, guitarra, bateria, teclados). Logo na segunda faixa, Nowergian wood, George Harrison apresenta ao Ocidente a cítara, que se tornaria icônica em seu trabalho. Rubber soul, em suma, virou o mote que Brian estava precisando para desengavetar uma versão que havia feito de uma música das Bahamas, Sloop John B, e que seria a faixa-referência para o disco que burilava em sua mente.

O artista, que tivera, em um voo a trabalho, o primeiro de seus ataques de pânico, comunicou à banda que não mais viajaria na turnê do começo de 1966. Ficaria em casa compondo. Começou, então, a arquitetar o plano de realizar um álbum que não soasse como os 10 anteriores dos Beach Boys – lançados num curto período de quatro anos. Primeiro, pensou num novo parceiro para as letras, o redator publicitário e autor de jingles Tony Asher, que prontamente aceitou o convite. A ideia era ter alguém no lugar de seu primo, Mike Love, letrista e principal vocalista, que não desejava sair da temática “garotas, carros e surfe”.

Brian, que foi substituído temporariamente na turnê por Bruce Johnston (até hoje no grupo), também aproveitou a ausência dos integrantes para convocar o maior exército de músicos de estúdio dos Estados Unidos, conhecido nos bastidores como The Wrecking Crew (A Equipe de Demolição). Esse conjunto, de cerca de 60 instrumentistas, estava por trás de gravações importantíssimas do período, como I got you, baby (Sonny & Cher), Strangers in the night (Frank Sinatra), California dreamin’ (The Mamas and The Papas), Mrs. Robinson (Simon & Garfunkel) e de todos os sucessos de Phil Spector, como Be my baby (The Ronettes).

Com apenas 23 anos, o beach boy se viu obrigado a driblar a timidez e a insegurança para liderar esses profissionais gabaritados. Segundo o baterista Hal Blaine, o mesmo da batida memorável de Be my baby e de A little less conversation, de Elvis Presley, inicialmente o Wrecking Crew não entendeu por que fora chamado para fazer um disco de surf music de uma banda que tinha músicos de verdade. Quando Brian apareceu com suas partituras toscas, ficaram ainda mais confusos sobre o que o rapaz queria. À medida que as gravações avançavam, os instrumentistas, antes receosos, passaram a confiar no arranjador, que não possuía educação formal na área, mas exibia um talento raro.


Experiente equipe de músicos de estúdio foi contratada para gravar Pet Sounds.
Foto: Reprodução

Na volta da turnê, que incluía o Havaí e Japão, os Beach Boys mostraram-se surpresos ao encontrar o disco praticamente pronto, pois Brian havia dito que iria apenas compor, mas trabalhou rapidamente, entre janeiro e início de fevereiro de 1966, não somente na composição, mas também na gravação. Mike Love foi um dos mais resistentes em aceitar a mudança nas letras e nos arranjos. Alegou que o álbum “era muito artístico” para seus fãs. E chegou a exigir a alteração de temas, como o de I know there’s an answer, que antes se chamava Hang on to your ego. “Brian estava muito preocupado. Queria saber o que nós pensávamos sobre isso. Para ser honesto, acho que eu nem sabia o que era um ego. Finalmente, Brian decidiu: ‘esquece, estou mudando a letra. Há muita controvérsia’”, lembrou o guitarrista Al Jardine.

Na realidade, essa foi uma das raras concessões de Brian com relação a Pet sounds. Ele resistiu à pressão dos irmãos, do primo, da gravadora e do pai, Murry Wilson, o agente da banda. Então, as vocalizações, marca dos Beach Boys, foram a maior participação dos outros integrantes. O principal compositor, mais uma vez, levou a mesma rigidez da gravação dos instrumentos aos vocais. Quando os membros do grupo pensavam que já haviam cantado muito bem alguma faixa, ele repetia os takes, até finalmente considerar que estava perfeita. Reza a lenda que surgiu daí o título do disco. Mike Love ironizou o perfeccionismo, dizendo que apenas ouvidos caninos conseguiriam ouvir a harmonia vocal que o primo almejava. Brian também chegou a afirmar que Pet sounds fazia referência às iniciais de Phil Spector.

Após quatro meses, que envolveram o processo de composição, gravação, mixagem, masterização e prensagem, finalmente, em 16 de maio de 1966, a obra foi lançada. A maior parte da crítica ovacionou. Algumas faixas tiveram boa repercussão nas rádios. Brian, porém, ficou insatisfeito: o álbum ocupou o 10º lugar no ranking dos mais vendidos. Para ele, isso significava que o seu trabalho não tinha sido bem- recebido pelo público.

No entanto, em 1966, o álbum estava apenas começando a provocar seu impacto. Eric Clapton afirmou que o LP havia sido peça fundamental durante a formação do seu power trio com Jack Bruce e Ginger Baker, o Cream. Graham Nash, de Crosby, Stills, Nash &Young, contou que todos os músicos que conhecia tinham ficado chocados com Pet sounds. Elton John registrou: “Eu nunca tinha ouvido essa mágica de sons, gravados de forma surpreendente. Sem dúvida, mudou a maneira como eu e inúmeros outros músicos passamos a gravar. É um registro atemporal e uma gravação de incrível beleza e gênio”. Paul McCartney revelou, em 2000, que chorou ao ouvir o disco: “Tem algo de tão profundo nessa música, que mesmo alguns pedaços dela podem fazer isso comigo, simplesmente alcançam lá fundo em mim. Acho que é sinal de um grande gênio ser capaz de fazer isso”.

O ex-beatle atestou que Pet sounds foi influência determinante para os Beatles realizarem Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Ambos os álbuns, até hoje, alternam o topo das listas de melhores discos de todos os tempos. Nos últimos rankings, o dos Beach Boys aparece em 1º lugar no New Musical Express, The Times e Mojo, e em 2º na Rolling Stone.

Registrado em mono e posteriormente remasterizado em estéreo com o acréscimo de algumas faixas, Pet sounds inicia com a arrebatadora Wouldn’t be nice, apresentando o que viria nas próximas 13 músicas, arranjos extremamente complexos, harmonias vocais sublimes, conteúdo lírico, reflexivo e sentimental. Além dos tradicionais guitarra, baixo, bateria e teclados, que foram duplicados na gravação, Brian Wilson incluiu dezenas de outros instrumentos não ligados ao rock, como seções de metais, cordas e efeitos sonoros de objetos. Pela primeira vez, o teremim era usado na música pop. As letras, menos alegres que as de costume, falavam de amor de uma forma mais profunda. Os momentos em que o disco atinge seu ponto máximo são na épica I’m waiting for the day, na instrumental Let’s go away for awhile, na versão de Sloop John B e em God only knows, que McCartney apontou como sua música preferida.

BASTIDORES
A feitura de Pet sounds teve um preço e não foi somente o valor pago pela Capitol. Durante a realização do disco, Brian Wilson passou a apresentar um comportamento excêntrico, como realizar reuniões na piscina. O motivo: achava que Phil Spector tinha grampeado sua casa para descobrir seus projetos musicais. Apenas dois dias depois do lançamento do LP, voltou-se ao registro de uma faixa que inicialmente faria parte de Pet Sounds, Good vibrations, mas que integrou Smiley smile, de 1967. A música, considerada o melhor single de todos os tempos, tornou-se uma obsessão. Foram seis meses ininterruptos destinados especificamente à gravação. A Capitol gastou U$ 65 mil com o aluguel de quatro estúdios (segundo o compositor, cada um tinha uma acústica apropriada para gravar determinados instrumentos), tornando-o também o single mais caro da história.

Para entender Brian Wilson, é preciso saber um pouco sobre o histórico familiar. Seu pai, Murry Wilson, era um músico que não obteve sucesso, mas via nos filhos uma forma de realizar seu sonho e de ganhar dinheiro. Por isso forçou, sob abusos físicos, os três rebentos a montarem um grupo e a ensaiar incansavelmente. Devido a essa intimidação, o filho mais velho tornou-se um maníaco perfeccionista. Em 1964, ele e os irmãos reuniram a coragem necessária para demitir o pai do cargo de gerente da banda. Murry ainda tentou investir na sua carreira. Um ano depois do lançamento de Pet sounds, lançou The many moods of Murry Wilson, sem repercussão alguma, e, em 1969, vendeu sorrateiramente os direitos das músicas dos seus agenciados por U$ 700 mil, uma quantia insignificante. Questionado pelo autor das composições, o pai argumentou: “Em cinco anos, ninguém vai lembrar de você nem dos Beach Boys. Talvez agora possamos voltar a ser uma família novamente”. Tarde demais. Em 1973, ele morreria, aos 55 anos, de um ataque cardíaco, e Brian passaria 10 anos, de 1966 a 1976, longe dos palcos e próximo das drogas (maconha, heroína, cocaína e LSD).


Brian Wilson conduz o registro das vocalizações do álbum. Foto: Reprodução

Em 1976, o músico tentou sair da dependência química e da depressão que o levou a pesar 158 quilos. A esposa, Marilyn Wilson-Rutherford, realizava algumas ações para animá-lo, como organizar, em sua residência, uma festa de aniversário para os 34 anos do marido, convidando parentes, amigos e colegas de profissão, como Paul e Linda McCartney, que apareceram com os filhos.

Nesse mesmo ano do anúncio de sua volta aos palcos, o Saturday Night Live fez um especial com os Beach Boys. O destaque do programa era o esquete com Dan Aykroyd e John Belushi, vestidos de policiais, invadindo a casa do grandalhão de 1,90 m para tirá-lo da cama e levá-lo, de roupão mesmo, ao mar para surfar. A fotógrafa Annie Leibovitz, à espera na praia, fez o clique que virou a capa da Rolling Stone de 4 de novembro daquele ano. Na entrevista para a revista, Brian dá respostas desconexas, fala sobre meditação, a dificuldade de voltar a compor como antes e revela que sua mulher contratou dois guarda-costas para não deixá-lo consumir drogas. Ao final da conversa, perguntou ao jornalista David Felton se não teria cocaína ou anfetamina para lhe dar. E insistiu.

O agravamento do vício se deu entre 1982 e 1992, quando, já divorciado de Marilyn, com quem esteve casado entre 1964 e 1979, passou a ficar sob o domínio do psicoterapeuta Eugene Landy. O médico tratou a dependência de drogas com a prescrição excessiva de remédios e ainda explorava o paciente financeiramente. Landy surgiu quando Brian quase morreu de overdose de cocaína em 1982. No princípio, parecia ser uma boa influência, pois reformulou sua dieta e estabeleceu uma rotina de exercícios para baixar o peso. No entanto, foi assumindo o controle da vida do músico. De médico virou gerente de negócios, produtor-executivo e – mais assustador – tutor legal. Nesse período, o artista mal conseguia articular frases ou dar entrevistas sem a presença opressora do “guru”, que tratava o doente como um prisioneiro em sua própria residência.

Em 2015, o filme Love & Mercy abordou esse período tenebroso da trajetória do beach boy, com os atores Paul Dano e John Cusack interpretando o músico nas fases jovem e adulta, respectivamente. Mostrou, também, como a segunda e atual esposa de Brian, Melinda Ledbetter (interpretada por Elizabeth Banks), conseguiu tirá-lo das mãos de Landy (Paul Giamatti). A cinebiografia trouxe à tona episódios terríveis da vida do artista, como a surdez de um ouvido, provocada por um murro de seu pai. “Achei muito difícil de assistir. Mas isso não foi tão ruim quanto a minha vida real era”, desabafou durante a estreia.

Em 1983, Dennis Wilson, o único beach boy que sabia surfar, morreu afogado, e, em fevereiro de 1998, Carl Wilson faleceu de câncer, dois meses depois do enfarte fatal da mãe, a pianista Audree Wilson. Após essas mortes, Brian fez uma retomada de sua carreira sabendo que deveria levar adiante o legado dos Beach Boys, embora seu primo Mike Love sempre queira tomar a posição de liderança da banda – em 2012, no ano do cinquentenário dos Beach Boys, Mike saiu em turnê sem chamar seu principal integrante, o que gerou polêmica na imprensa musical.

No mês passado, Brian Wilson deu início à turnê comemorativa dos 50 anos de Pet sounds, que passará por diversos estados norte-americanos, além de Canadá, Israel, Reino Unido e Espanha. Para celebrar esse momento, o site da revista Pitchfork reuniu dezenas de depoimentos de músicos, de Tina Weymouth, do Talking Heads, a Sean Lennon, sobre o disco. Num longo texto confessional que resgata a rivalidade entre os Beatles e os Beach Boys, o filho de John Lennon conclui: “Brian Wilson é o meu Bach”.

Aos 73 anos, com 40 discos de estúdio no currículo (29 com o grupo e 11 em carreira solo) e há muito tempo afastado das drogas, Brian Wilson finalmente tem consciência da importância de sua obra e, em particular, de Pet sounds, tanto que resolveu embarcar nessa maratona de 67 shows, realizando o desejo de milhares de aficionados por ele e por esse disco. “Dizem que Pet sounds é o melhor álbum de todos os tempos, mas pra mim é A Christmas gift for you from Phil Spector”, declarou.

Cinquenta anos atrás, quando estava gravando sua obra-prima, saiu cabisbaixo do Gold Star Studios, o mesmo em que tinha dado uma espiada na gravação de Be my baby. Então, Hal Blaine, o baterista dessa emblemática música, foi saber o motivo do desânimo. O artista disse estar preocupado com a forma como a banda reagiria ao ouvir o disco. Blaine enfatizou que Brian estava comandando uma equipe de músicos experientes, formados em conservatório, que gravaram com todo mundo, de Elvis a Sinatra, inclusive com o ídolo do beach boy e surpreendeu o rapaz de 23 anos: “Phil Spector não é nada perto de você”. 

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da Revista Continente.

 

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