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Museu do Amanhã: para fruir ciência e tecnologia

Foi inaugurado equipamento cultural no contexto do centro histórico do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, com projeto de Santiago Calatrava

TEXTO Luciana Veras

01 de Janeiro de 2016

Museu do Amanhã

Museu do Amanhã

Foto Bernard Lessa/Divulgação

De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Indagações existenciais, tão antigas quanto a própria vida, conectam-se a informações e dados científicos para erigir a experiência sensorial no Museu do Amanhã, em funcionamento desde o final de dezembro na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro. Não existe hoje, no Brasil, uma proposta museológica que se equipare ao que este equipamento cultural oferece ao público. Não há um parâmetro para o cotejamento, inclusive no que alude ao projeto arquitetônico criado por Santiago Calatrava – o que torna a visita ainda mais singular.

O Museu do Amanhã é, a rigor, um museu de ciência e tecnologia, ancorado na ideia de propor uma reflexão sobre o homem e a Era do Antropoceno. Para tanto, opera com imersões em meios audiovisuais e instalações interativas. “Um ambiente de ideias, explorações e perguntas sobre a época de grandes mudanças em que vivemos e os diferentes caminhos que se abrem para o futuro. O Amanhã não é uma data no calendário, não é um lugar aonde vamos chegar. É uma construção da qual participamos todos, como pessoas, cidadãos, membros da espécie humana”, resume o texto de apresentação estampado na parede do átrio principal.

É, também, a concretização de uma parceria estabelecida entre a Prefeitura do Rio e a Fundação Roberto Marinho, tendo como mantenedor o Banco Santander, que investiu R$ 65 milhões e garantiu o apoio à instituição até 2023. Números são superlativos: o museu fica numa área de 5 milhões de metros quadrados que, desde 2010, vem passando por um intenso processo de redesenho e requalificação. É a porção do centro do Rio que compreende a operação urbana Porto Maravilha, na qual serão despejados, até 2026, R$ 8 bilhões. E é, também, a menina dos olhos da antiga capital do Brasil, com obras que abrangem mobilidade, habitação e cultura.

É um alento constatar que os esforços financeiros da gestão do Rio, sede dos Jogos Olímpicos deste ano, atingem o âmbito cultural. E que o fazem em uma área de uma certa forma negligenciada ao longo de várias décadas. Em 2013, a Praça Mauá já havia se reinserido no circuito artístico com a inauguração do Museu de Arte do Rio/MAR.

Santiago Calatrava, o mesmo arquiteto que desenhou o complexo olímpico de Atenas, aliou organicidade e arrojo ao conceber a estrutura, cuja cobertura metálica pesa 3,8 toneladas e é dotada de 5,5 mil placas voltaicas para a captação de energia solar. Foi divulgado que a inspiração de Calatrava veio das bromélias do Jardim Botânico do Rio. O balé das formas se assemelha a outros projetos seus, como a estação do TGV em Liège, a Turning Torso, na cidade sueca de Malmo, e mesmo ao hub de transporte que funcionará no novo World Trade Center, em Nova York.

O curioso é que o píer onde se ergueu o museu ainda não havia sido utilizado. “Foi construído como um atracadouro em 1940 e nunca funcionou como tal”, observa Alberto Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro/Cedurp, o braço da prefeitura encarregado das obras do Porto Maravilha. “O Museu do Amanhã dá uma nova paisagem ao Rio e consolida o processo de requalificação da Praça Mauá, fazendo parte de uma rede de 25 equipamentos culturais nos arredores. Nosso objetivo agora é trabalhar para que o Cais do Valongo, que foi o maior cais de desembarque de escravos da humanidade, seja reconhecido como patrimônio pela Unesco”, completa Silva.

Ao adentrar o Museu do Amanhã, a primeira surpresa é com uma esfera de LED de 4 metros de diâmetro, suspensa no teto, que emite os sinais vitais do planeta – tsunamis, queimadas, furacões, nevascas. É como se fosse uma tomografia da Terra. À direita, funciona o Laboratório de Atividades do Amanhã, para o qual serão lançados editais com o intuito de financiar inovação. “Qualquer projeto, seja um protótipo, uma exposição, uma performance ou mesmo um jogo, poderá ser submetido. A ideia é que a galeria tenha grande flexibilidade. Nesse primeiro momento, foi convidado o coletivo dinamarquês Superflex, que trouxe os trabalhos Copy light factory e a Free beer, na perspectiva do open source, o código aberto”, explica o físico Luiz Alberto Oliveira, curador do Museu do Amanhã.

Ainda no primeiro pavimento, o visitante se depara com a instalação Perimetral, construída e assinada por Vik Muniz, Andrucha Waddington e pelo estúdio de design e tecnologia carioca SuperUber a partir das imagens da explosão do elevado que se sobrepunha à Praça Mauá. Também, com um impressionante espelho d’água de 9.200 metros quadrados, sobre o qual se impõe uma escultura do artista norte-americano Frank Stella (três toneladas de alumínio em forma de uma estrela), que parece desembocar na Baía de Guanabara. Segundo Luiz Alberto Oliveira, o espelho d’água foi idealizado por Santiago Calatrava para gerar uma espécie de microclima: “Ele usa a água para que a temperatura caia cerca de 1,5 ou 2 graus”.

O curador do Museu do Amanhã relata que, em um dos encontros que teve com o arquiteto espanhol, ouviu dele a seguinte definição: “Um museu do século 21 tem que ser como as catedrais medievais dos séculos 13 e 14. A pessoa que nele entrar deve ter uma sensação de arrebatamento”. Ao subir as escadas e se aproximar da exposição permanente, compreende-se melhor as palavras de Calatrava. O espectador é levado a passear por um percurso narrativo que espelha as indagações existenciais trazidas no início deste texto, através dos segmentos Cosmos, Terra, Antropoceno, Amanhãs e Nós.

Em Cosmos, a tríade que ampara conceitualmente o museu – filosofia, ciência e arte – traduz-se num mergulho audiovisual pela história da Terra. Em um domo preto de 360º, a proposta é entrar e deitar no chão ou apoiar-se em um suporte inclinado de madeira para acompanhar as projeções que se estendem por todo o teto. No ambiente Terra, três cubos de 7 m x 7 m redimensionam a ideia de “matéria”, “vida” e “pensamento”.

Quando se chega ao lugar em que se problematiza o Antropoceno, seis totens de LED anestesiam o visitante com imagens e informações sobre a ação do homem no planeta que habita. “Como queremos viver?” é a pergunta-chave. 25% dos mamíferos entraram em extinção, 19% dos corais marinhos morreram, 24 dos 33 maiores deltas fluviais afundaram… Os resultados da conduta humana são mostrados com ímpeto, de modo a provocar o espectador. O mesmo se dá nos dois últimos passos do percurso narrativo – Amanhãs e Nós. Vários jogos interativos e um acúmulo de perguntas elaboradas com o auxílio da equipe consultiva se apresentam e convidam o visitante a conjecturar a respeito de como será o futuro.

A única peça física do Museu do Amanhã é o churinga, objeto da cultura aborígene da Austrália que se posiciona ao centro de uma oca criada com estrutura de madeira. Para falar do Nós, recorreu-se a um ambiente em que luz e som se imbricam para forjar uma ode ao conhecimento, à memória e ao porvir. “O churinga costura o passado e o futuro, isso é o propósito do museu. Em algum lugar do mundo, o sol já está nascendo e já é o amanhã”, resume Oliveira.

Por fim, um trecho de Atlas, conto do escritor argentino Jorge Luis Borges, relaciona o gesto de jogar um punhado de areia ao vento a transformar o deserto do Saara. Para a construção do futuro, o clichê é verdadeiro: cada pequenino grão de areia tem seu papel. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

A jornalista viajou a convite do Santander.

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