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Minha 'Ode marítima'

TEXTO José Cláudio

01 de Janeiro de 2016

'Ode marítima', acrílico sobre tela, 1,5m x 1,5 m, 2015

'Ode marítima', acrílico sobre tela, 1,5m x 1,5 m, 2015

Imagem José Cláudio

Quanto tive a honra de ser convidado por José Paulo Cavalcanti Filho para participar da exposição sobre o grande poeta português Fernando Pessoa, me perguntei se fazia jus ao convite, se me sentia à altura, porque certamente o mais velho dos convidados, mais idoso dos expositores, não poderia comparecer com nada que não fosse condizente com a minha estatura pelo menos em anos. Contava com essa expectativa a meu respeito por parte dos numerosos admiradores não somente do poeta como do autor do Fernando Pessoa/uma quase autobiografia, livro premiado, traduzido até em romeno e hebraico, mas principalmente devendo corresponder à expectativa do público recifense: com esse é que eu ia topar de frente; em todos os sentidos, o mais significativo para mim. Nascido aqui perto, em Ipojuca, por mais que tenha andado mundo afora, o Recife sempre foi minha Grécia e à gente daqui é que devo satisfação. E mais, estar à altura do valor que me dá o próprio Zé Paulinho, de longa data, não podendo mandar para a mostra um trabalho que não se destacasse.

E foi lá, na própria residência de Zé Paulinho, que me surgiu a ideia de me apropriar, de me apossar, de transformá-lo em meu, trecho da Ode Marítima que ficara ecoando em minha cabeça, ou melhor seja dito, reverberando na minha memória visual, aquele poema à parte, desde que o li, ou vi, e lá se vão não sei quantas décadas. A poética ali dependia menos da leitura propriamente dita do que da organização de letras mas como sinais ou estampas despregados do compromisso linguístico: não sou de falar difícil mas é a maneira mais simples que me ocorre de relatar o fato. O quadro exposto é uma das mil recriações possíveis: poderia fazer uma exposição inteira somente com esse trecho da Ode Marítima.

Sabia que nem todos apreciariam esse trabalho, esse quadro, também por ter ligação com um meu lado pouco conhecido, uma parte menos divulgada da minha obra, digamos assim. A única pessoa que percebeu essa ligação, assim que viu o quadro, bateu o olho e sacou na hora, foi meu filho Mané Tatu. Olhou e disse: “Carimbinhos”.

E de onde vêm esses “carimbinhos”? Eu trabalhava como ajudante de desenhista, não era nem desenhista, na Sudene onde fiquei mais de dez anos, triste fim de quem tinha ganho prêmio na Bienal de São Paulo, passado um ano na Itália estudando arte, visto museus na França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, Suiça, Espanha e Portugal, quase se dando comigo o que se deu com o protagonista do conto Um escritor fracassado de Máximo Gorki. Minha seção na Sudene devia apresentar uns mapas de plantações do Projeto de Morada Nova, Ceará, o tempo curto para fazer centenas ou milhares de desenhinhos representando tipos de árvores e me lembrei de uns carimbinhos que recortava com a gilete na escola tempo de menino e saíamos carimbando nos cadernos, geralmente nossas iniciais, não sem a repreensão de pais e professoras. Melávamos na tinta azul de escrever à pena, agora substituída pelo nanquim de desenho. Deu certo. Era para apresentar ao embaixador do Israel. Depois disso, em casa, fiz outros carimbinhos e continuei, por puro deleite, a experimentá-los em diversos tipos de papéis. Fui surpreendido em pleno ato por Jomard Muniz de Britto e Moacy Cirne, norte-riograndense radicado no Rio de Janeiro, dizendo-me este, muito admirado, que eu estava fazendo poema-processo, coisa de que nunca tinha ouvido falar. Foi assim que entrei em contato com o poema-processo. Comecei a receber publicações de todo o Brasil principalmente do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Cheguei a produzir alguns livrinhos usando os carimbinhos como tipografia, o que encantou Paulo Bruscky. Isso era 1968. O grande desenhista paulista Arnaldo Pedroso d’Horta gostou muito desses meus desenhos de carimbos e patrocinou uma exposição dos mesmos na Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna, em São Paulo, cujo único êxito, para mim muito gratificante, consistiu no fato da sua boa acolhida, ele que era extraordinariamente exigente. Paulo Bruscky aliás comparece à bela exposição Pernambuco Experimental do Museu de Arte do Rio, MAR, 10/10/2013 a 30/03/2014, organizada por Clarissa Diniz, que peço licença para chamar de intrépida, brilhante, coisas desse tipo, além de grande trabalhadora, séria, estudiosa, e parabéns a Paulo Herkenhoff pelo belíssimo catálogo, precioso documento sobre a arte de Pernambuco no século 20: fazer parte da exposição, ter os desenhos de carimbos e outras obras estampadas no catálogo, vale por uma consagração.

Em relação especificamente à arte-processo, ao poema-processo, há uma publicação dessas que vez por outra reacendem a nossa fé no Brasil: a coleção em seis volumes Poetas do modernismo, Instituto Nacional do Livro, 1972, em comemoração ao cinquentenário da Semana de Arte Moderna. No sexto volume, o último capítulo é dedicado ao poema-processo, muito competente, com estudos críticos, entrevistas, manifestos e uma antologia com comentário poema por poema. Os principais nomes, os mais assíduos e combativos, estão ali representados ora como teóricos, ora através de suas obras como poetas: Álvaro de Sá, falecido em 2011, que lamento não ter conhecido pessoalmente, Vlademir Dias Pino, Antônio Sérgio Mendonça, José Nêumane Pinto, Hugo Mund Junior, bem uns trinta.

Por isso, Zé Paulinho, esse quadro, me deu grande alegria tê-lo parido, um gesto de juventude, como bem avaliou um visitante da sua exposição, o escritor Sidney Rocha, dizendo que era o único quadro jovem; coincidindo com o que disse a diretora do Museu do Estado, Margot Monteiro, que os jovens fazem fila diante dele.

Nasci para musa inspiradora, privilégio do qual, apesar de octogenário, não abdico. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

 

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