Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

À espera do escritor das mazelas da cidade

“Vítima” de uma reformulação urbana por conta de megaeventos, o Rio de Janeiro não encontra hoje um autor que expresse criticamente seu estado atual

TEXTO Bolívar Torres

01 de Janeiro de 2016

Em 'Se essa vila não fosse minha', Felipe Sena registra remoção dos moradores da Vila Autódromo

Em 'Se essa vila não fosse minha', Felipe Sena registra remoção dos moradores da Vila Autódromo

Foto Reprodução

Desde o anúncio de que seria sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro virou uma grande obra aberta. Na preparação para receber megaeventos – incluindo a Copa do Mundo de 2014 – a cidade iniciou uma série de transformações que afetaram intensamente a vida de seus moradores. Empreendimentos urbanos, bolha imobiliária, descaracterização, trânsito infernal, aumento do custo de vida e fechamento de comércios tradicionais são alguns de seus efeitos colaterais mais comuns. Outros, ainda mais controversos, atingiram em cheio as camadas mais pobres da população, a exemplo das centenas de pessoas removidas à força de suas casas em comunidades como a Vila Autódromo.

O impacto social, humano e econômico das alterações urbanas costuma render boas histórias. No início do século passado, as reformas do prefeito Francisco Pereira Passos, que entre 1902 e 1906 realizou uma série de modernizações na cidade, inspiraram diversos autores do período – o mais emblemático deles, Lima Barreto, denunciou o caráter excludente de algumas dessas medidas. O Lima Barreto dos dias atuais, porém, ainda não deu as caras. A julgar pelos lançamentos dos últimos anos, a produção literária contemporânea tem feito um registro tímido das transformações da Cidade Olímpica.

Tanto que o mais recente e – até o momento – o mais contundente romance sobre o assunto ainda não foi publicado no Brasil. Lançado em outubro de 2015 em Portugal, e com previsão de lançamento apenas para março deste ano por aqui, Descobri que estava morto, de João Paulo Cuenca, retrata um Rio em pleno frenesi pré-Olimpíadas: favelas pacificadas, remoções agressivas e obras megalomaníacas servem de pano de fundo para uma morte dupla: a da literatura e a da cidade. Ao mesmo tempo em que escrevia o livro, o autor dirigiu o longa A morte de JP Cuenca, uma mistura de ficção e documentário que estreou no Festival do Rio, em outubro do ano passado.


João Paulo Cuenca. Foto: Divulgação

“Fico esperando o Lima Barreto deste século 21 como alguém que espera São Sebastião”, diz Cuenca. “É difícil não olhar para essa crise de identidade do Rio e todas as suas transformações. Mas eu tenho a impressão de que essas questões poderiam ser melhor exploradas, sinto falta de vê-las na literatura, no cinema… Talvez isso aconteça porque ainda estamos vivendo o momento. Tem uma coisa de tirar a tampa do liquidificador com ele ligado, as pessoas têm um pouco de medo disso, de lidar com um contemporâneo tão presente.”

O livro de Cuenca nasceu de um episódio kafkiano, mas real. Em 2008, um cadáver foi encontrado em um prédio abandonado na Lapa, bairro boêmio do Rio, e identificado pela polícia como João Paulo Cuenca. Confrontado com o próprio óbito, o escritor sai à procura de informações sobre o homem que morreu em seu lugar. À busca pela identidade se junta a crise de identidade geral – uma desconstrução de uma cidade em construção.

“Todo o episódio da minha morte é uma desculpa para questionar essas identidades e valores do Rio, que estão sendo construídos e destruídos todos os dias. Mas o projeto só faz sentido por causa do lugar em que eu morri: o esqueleto de um prédio na Rua da Relação, na Lapa, onde seria construído o Soul da Lapa (um condomínio de flats que sintetiza o processo de gentrificação do bairro histórico). É tipo um epicentro do recente processo de reinvenção urbana da cidade, uma espécie de aleph das fronteiras da cidade, que roubou minha identidade no coração da crise de identidade do Rio.”

CRÍTICAS INDIRETAS
Além de Descobri que estava morto, outras ficções recentes refletem as transformações do Rio de forma mais indireta. É o caso do recém-lançado O ano em que vivi de literatura (Foz), de Paulo Scott, uma sátira aos círculos literários e suas bolhas, ou ainda de O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer, com publicação prevista para maio, que descreve as transformações de um bairro fictício entre o Andaraí e o Engenho Novo, na zona norte da cidade. Já a especulação imobiliária, que tomou o Rio de assalto nos últimos anos, foi tema do romance de Marcelo Backes, Um dia a casa cai (Companhia das Letras), publicado em 2015.


Ao mesmo tempo em que escrevi Descobri que estava mortoautor filmava A morte de JP Cuenca. Foto: Divulgação

Em A vez de morrer (Companhia das Letras), Simone Campos mostrou os efeitos dos altos preços na vida dos jovens cariocas. A personagem principal é uma designer que volta para o Rio depois de uma temporada no exterior e, em função da alta dos aluguéis, é forçada a morar junto com a mãe, com quem não se dá muito bem. Ela acaba migrando para o sítio do falecido avô, em Araras, na região serrana do estado, e lá se depara com fortes contrastes, inclusive de mentalidade.

“Acho que todo mundo está sendo afetado pelas mudanças, mesmo o autor mais abastado que perde a livraria preferida”, diz Simone. “Eu sou classe média e morei a vida inteira em Botafogo, eu vivo aquilo de que estou tratando. Já perdi tantos lugares queridos, e agora meus amigos todos estão morando em outros bairros, cidades e até países mais baratos. O shopping que eu frequentava na época da escola, onde eu ia ao cinema e almoçava um PF por R$ 5, virou gourmet… A pressão das contas subiu muito, então estou tendo que trabalhar bem mais para obter o mesmo padrão de vida. É claro que, para alguém cuja casa é removida, simplesmente limada, com uma indenização patética, a situação é mais penosa.”

A nova lógica do Rio Olímpico tem levado muitos autores a deixar a cidade. A rota de fuga preferida dos exilados é São Paulo. Victor Heringer migrou para a capital paulista em 2013, e não planeja voltar, assim como Cuenca. Os que permanecem em sua cidade natal, por sua vez, sofrem muitas vezes com a inadequação.

“Tenho me sentido estrangeiro no Rio. Até porque o Rio virou uma cidade para estrangeiros”, lamenta Gregório Duvivier, para quem São Paulo está mais próxima do que ele deseja em uma cidade contemporânea. “Sendo local, me sinto estrangeiro. É um paradoxo. Tenho escrito sobre isso, sobre essa sensação de a cidade não nos pertencer.” Recentemente, o autor publicou uma crônica controversa em que criticava o Rio e elogiava São Paulo.


Autora de A vez de morrer, Simone Campos discute migrações. 
Foto: Divulgação

As reações furiosas ao texto podem explicar, em parte, o déficit de representação do momento crítico vivido pela cidade. “Talvez a pior faceta do carioca seja essa: um orgulho desmedido que nos cega para nossas mazelas”, diz Duvivier. “Por isso costuma vencer a continuidade na prefeitura: o carioca acha sempre que está tudo bem.”

Há, porém, outras razões. O crítico e cineasta Daniel Caetano, codiretor do documentário Rio em chamas, vê um cansaço e uma desmobilização da classe artística depois das derrotas das Jornadas de Junho, que acabaram não levando adiante as pautas dos protestos. O pesquisador e ensaísta Fred Coelho lembra a dependência dos artistas da prefeitura, que foi hábil, segundo ele, em abrir novos editais e espaços culturais.

“Os artistas ficam oscilando entre posturas críticas frontais ao projeto de cidade-espetáculo da prefeitura e os laços fortes criados com a mesma prefeitura”, observa Coelho. No entanto, o ensaísta reconhece que existe liberdade para todos os artistas, independentemente de eles receberem patrocínio público ou se envolverem na discussão de políticas com a prefeitura.


Gegrório Duvivier se sente estrangeiro na própria cidade e vive atualmente em São Paulo. Foto: Divulgação

“Não é porque você participa do debate oficial que fica impedido de fazer críticas”, garante. “Eu mesmo conheço muitos projetos que criticam abertamente a política da cidade e que, mesmo assim, venceram editais.”

TEMPO DE RESPOSTA
Entre as dificuldades de retratar o momento atual, os escritores citam o tempo de resposta do romance, que não é tão ágil quanto o das artes plásticas, das intervenções urbanas ou do documentário – para mencionar apenas algumas das expressões artísticas que refletiram com mais ênfase sobre as mudanças da cidade. O processo da escrita é longo e, muitas vezes, os narradores se veem ultrapassados pelos fatos, tamanha a rapidez das transformações.

O escritor Felipe Pena, por exemplo, recorreu ao documentário para denunciar a política de remoções da prefeitura. Em Se essa vila não fosse minha, de 2014, ele colhe o depoimento dos moradores da Vila Autódromo, que está sendo removida para a construção do Parque Olímpico Rio 2016.


Para criticar com agilidade, escritor Felipe Pena recorreu ao documentário.
Foto: Divulgação

“Nesse caso, o documentário é mais contundente do que a literatura, porque as imagens são contundentes”, diz o autor. “São imagens de famílias sendo expulsas do lugar onde moram há 40 anos e dos resistentes vivendo entre escombros, num cenário de guerra. Visto do alto, parece que o lugar foi bombardeado. E, de certa forma, foi mesmo. Cortar a infraestrutura é a bomba de covardia que a prefeitura jogou sobre os moradores que resistem.”

Felipe Pena, porém, admite que, quando se chega à esfera literária, há poucos autores interessados em temas como especulação imobiliária e remoções. Ele diz esperar por um Os bestializados, volume 2 – ou seja, uma continuação da obra de José Murilo de Carvalho – para contar o que está acontecendo. Mas é possível que, se tivesse lançado seu livro em 2015, Murilo de Carvalho – um historiador e cientista político da Academia Brasileira de Letras – sofresse com acusações de “roubo de protagonismo”. Segundo o editor Sergio Cohn, da Azougue, esse tipo de crítica vem inibindo escritores oriundos de determinadas classes sociais de falarem sobre problemas que não os afetam diretamente.

“Não foram poucos os escritores, humoristas ou cronistas acusados de roubo de protagonismo por buscar retratar e se posicionar em favor da luta de minorias nos últimos tempos”, conta o editor. “Tenho visto amigos meus preocupados com isso e linchamento virtual de quem tenta falar sem ter uma aproximação identitária muito próxima do objeto. É uma questão delicada, mas vivemos um momento de disputa de vozes, em que escritores podem se sentir inibidos em trabalhar com uma representação direta de questões às quais não sejam publicamente identificados.”


Para Meijueiro, melhores narrações sobre a cidade estão em meios digitais. Foto: Divulgação

É importante lembrar que as narrativas de uma cidade vão além do recorte das editoras, e muitos escritores trabalham fora do radar da mídia. Como lembra João Paulo Cuenca, há uma ampla produção textual que não encontra fim editorial: são as vozes marginalizadas, que “não fazem parte do centrinho literário intelectual ou das artes do Rio”, segundo ele.

Cocurador da Festa Literária das Periferias (Flupp) e morador da Favela do Vidigal, o jornalista e escritor Júlio Ludemir tem contato com diversos escritores das zonas periféricas. Ele cita nomes como Tainá Rei, Marcio Januari e Giovanni Martins – todos jovens ainda não publicados – e Enrique Coimbra – autor dos livros Sobre um garoto que beija garotos e Um gay suicida em Shangri-la – como exemplos de vozes que refletem a realidade de onde vivem. Através das redes sociais, falam sobre novas tensões em suas comunidades, jogando luz sobre questões geracionais (primeiros filhos da família a ir para a universidade) ou sexuais (a vida como homossexual na periferia).

NOVA PERIFERIA
“Ainda não existe um grande romance, uma obra de fôlego que fale sobre esse Rio de Janeiro dos Jogos Olímpicos, até porque o mercado editorial está parado, não está pronto para absorvê-la”, argumenta Ludemir. “Mas há novos personagens pela nova cidade, por essa nova periferia, com sensibilidade para entender o seu entorno, com jogo de cintura para dialogar com as redes sociais. Na favela, não existe baixinho sem Facebook, é a primeira estética da era digital.”

Uma série de escritores se expressa em novos formatos, que vão muito além dos livros. Integrante do coletivo Norte Comum, que realiza projetos em espaços carentes de ações culturais, como a Zona Norte e a Baixada, o escritor e produtor Carlos Meijueiro acredita que as narrações mais interessantes sobre a cidade vêm hoje do YouTube, Facebook, e dos posts de smartphones. Em seus textos na internet, ele lembra os espaços afetivos que acabam por ser engolidos pelas modernizações.


Morador da Favela do Vidigal, Julio Ludemir fez curadoria de autores das zonas periféricas. Foto: Divulgação

“É a cidade que some por trás dos tapumes, são as memórias que desaparecem por conta das revitalizações” – diz ele. “Estão transformando praças no que eu chamo de praçagens: praças só para passar, e não para se estar. Tudo cinza, imenso rebatedor de luz branca, sem árvores e sem bancos. Parecem feitas para conflitos de guerra. Em Curicica, um lugar que frequento desde a infância, um campo de futebol que era o centro de convivência comunitário virou estacionamento para obra da Transolímpica.”

Meijueiro acredita que, mesmo com as reformas, a prefeitura continua pensando o urbanismo em função da zona sul, a área nobre da cidade. Um dos projetos do seu coletivo zona norte, o Ágora Carioca registra as histórias dos bairros menos privilegiados contadas pelos próprios moradores, principalmente os mais velhos, adaptados às oralidades.

“Estão faltando relatos a partir de outros pontos de vistas, de outras vivências. Quem domina a narração ainda é a elite”, critica Meijueiro. “As publicações da academia, dos jornais, dos livros, das livrarias são destinadas a essa elite cultural. Acho que os escritores, os que se assumem como tal, acabam se comunicando só com uma camada da população que se considera consumidora de literatura. E como estamos falando de consumo, tem gente que não quer gastar dinheiro para ler críticas a respeito das escolhas que fizeram para as suas vidas. Talvez seja isso que esteja acontecendo.” 

BOLÍVAR TORRES, jornalista e escritor, autor do romance Não muito (7Letras).

Publicidade

veja também

Vulcões: Pelos caminhos do Chile e da Bolívia

Streaming: Quadrinhos na tela

Baralho: um curinga ao longo do tempo