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Bibliofilia: Um (quase) aterrador amor aos livros

A paixão dos bibliófilos, cujo interesse vai muito além da posse do objeto, é peça fundamental para que os livros continuem sendo, hoje, referência no processo de documentar o conhecimento

TEXTO Priscilla Campos

01 de Novembro de 2015

Foto Wikipedia

Existe uma imagem extrema que ilustra o conceito de bibliofilia de maneira inquietante: livros raros, unidades de uma vasta biblioteca particular, consumidos como tijolos numa casa rodeada por água salgada. Páginas e mais páginas do melhor que há na história da literatura ocidental engolidas pelo cimento, pelas ondas, tempestades, ventanias. Isso não é uma metáfora inventada aqui, muito menos figura estética construída para romantizar um termo já tão imerso nos mais diversos imaginários. O recorte visual faz parte de A casa de papel, livro assinado pelo argentino Carlos María Domínguez e com recente tradução pela Realejo Livros.

Na loucura de Carlos Brauer, personagem que, de certa forma, norteia toda a narrativa, encontramos as três principais características de um bibliófilo – compulsão, avidez pela pesquisa e alerta aos níveis de investimento – elevadas ao seu máximo grau de compressão. Brauer, de acordo com o que nos conta o narrador (personalizado na voz do próprio María Domínguez), resolveu morar, em meio a um surto que envolve isolamento e mistério, na cidade balneária de La Paloma, no Uruguai. Ali, a contínua busca pela memória vegetal empreendida pelo bibliófilo pôde, enfim, cessar.

Descreve María Domínguez ao chegar na casa de papel, naquela altura dos acontecimentos, já abandonada por Brauer: “Esparramados ao redor de portas e janelas, semienterrados na areia, encontrei Huidobro, Neruda e Bartolomé de las Casas; grudados a um duro tijolo, Lawrence com Marosa de Giorgio, um resto de Eliot, outro de Lorca, o Renascimento, de Burckhardt, incrustado de pequenos caracóis, um Pallière irreconhecível e asfaltado”. Ao construir essa habitação distópica e absurda, Brauer atrela à bibliofilia uma simetria do transtorno, mas não só isso: o seu colecionismo convertido em abrigo é, também, um meio de incorporação completa de tal prática secular.


Umberto Eco dedicou-se ao tema na obra A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia. Foto: Divulgação

De acordo com Umberto Eco, no texto de abertura do livro A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia, entre nós e a literatura acontece uma espécie de incorporação que se dá, claramente, através da leitura. Afirma o italiano que “O ritmo da leitura acompanha o do corpo, o ritmo do corpo acompanha o da leitura. Não se lê apenas com o cérebro, lê-se com o corpo inteiro, e por isso sobre um livro nós choramos, e rimos, e lendo um livro de terror se nos eriçam os cabelos na cabeça. Porque, mesmo quando parece falar só de ideias, um livro nos fala sempre de outras emoções, e de experiências de outros corpos”. Nos muros de páginas encontrados em La Paloma, podemos observar essa fusão de corpos e de memórias em um único espaço – a biblioteca. A concepção de um lar absoluto para o que restou da leitura aparece, enfim, como a essência de qualquer sujeito que exerça a atividade bibliófila com o máximo afinco.

COLEÇÕES E MEMÓRIAS
De antemão, adianto aos leitores algumas informações objetivas sobre a bibliofilia. Uma delas é a sua vertente de colecionismo. Eco – um de nossos guias neste texto – defende que o “verdadeiro tormento” de colecionadores de livros raros é que as visitas, em sua maioria, não ficam empolgadas com seus acervos. Um misto de distração e desprezo, por parte de, respectivamente, não bibliófilos e bibliófilos, é o que tende a acontecer durante esse contato – muitas vezes distante, por conta das circunstâncias que envolvem o armazenamento dos livros e o manuseio de cada um. Neste ponto, podemos observar uma frustração contígua a todo bibliófilo: talvez, sejam poucas as pessoas a quem eles podem, de fato, surpreender.

Outro conhecimento importante para a temática gira em torno de como são dispostas tais bibliotecas gigantescas, tanto na questão espacial, quanto no que se refere à ordem dos títulos. Em Fantasmas na biblioteca – A arte de viver entre livros, o bibliófilo Jacques Bonnet narra o seu encontro com o escritor e crítico italiano Giuseppe Pontiggia. Na conversa entabulada com Pontiggia, o francês relembra: “Cheguei a ter um banheiro com as paredes atapetadas de prateleiras, o que impedia o uso do chuveiro e obrigava a tomar banho com a janela aberta por causa da condensação; e também em minha cozinha, o que proibia certo número de alimentos com cheiro particularmente impregnante”.


O bibliófilo francês Jaques Bonnet chegou a ter livros no banheiro e na cozinha. Foto: Divulgação

E continua, com algumas indagações: “A classificação da biblioteca deve ser alfabética, por gênero, por língua, cronológica ou, por que não, segundo uma rede invisível de afinidades, no gênero de Warburg, ignorado por todos, fora o interessado?”. O escritor Georges Perec foi um dos que tentaram enumerar as possíveis classificações de uma biblioteca. O francês chegou a 12 opções (entre elas: por continente e países; por cores; por datas de aquisição), mas sabia que “nenhuma dessas classificações é satisfatória em si mesma”. A impressão é de que, após realizar uma procura, um tanto quanto exaustiva, por determinada obra, o bibliófilo ainda necessita de disciplina e certo aparato estrutural, arquitetônico, que não é fácil de colocar em pleno funcionamento – mesmo para os mais ricos, por exemplo.

Quando falamos da compulsão, da pesquisa que não finda e dos pormenores de investimento, não podemos esquecer que o cuidado com as publicações raras, muitas vezes feito com a ajuda de outras pessoas, é um aspecto perpassante de toda a ação bibliófila. Esse empenho em manter uma biblioteca preservada seria o ponto de confluência entre todos os colecionadores de livros raros; e o coletivo, a vontade de perpetuação que retira, em certo grau, a prática do colecionismo de seu lugar inalcançável. Nessa troca, encontramos algo como a mágica da bibliofilia: o poder de reunir, ao redor das letras, gravuras, mapas e ilustrações, pessoas com o simples intuito de não destruir a literatura.

Avançamos, então, para a ideia da memória. De volta às representações visuais, evocamos uma litografia de Daumier, intitulada Un bouquiniste dans l’ivresse (Um rato de sebo em êxtase, de 1844). Aqui, ela será a ponte que liga as breves reflexões acerca do colecionismo à consciência da biblioteca como espaço recordativo. Na gravura, vemos um homem folheando uma pequena publicação. Ele diz, entusiasmado, a outro indivíduo: “Nada se compara à minha alegria… acabo de encontrar, por 50 escudos, um Horácio impresso em Amsterdã em 1780… essa edição é excessivamente preciosa, cada página é repleta de erros!”. Na cena, o livro é, ao mesmo tempo, objeto de desejo material e lugar de memória de um tempo antigo – outro século, outro país, tantos erros.


Em Un bouquiniste dans l'ivresse (1814), Daumier ironiza as manias e o detalhismo dos colecionadores de obras raras. Imagem: Reprodução

Em A imagem de Proust, Walter Benjamin declara: “(…) um acontecimento vivido é finito, ou, pelo menos, encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento rememorado é sem limites, pois é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois”. Se encararmos todo tipo de narrativa como repositório da lembrança, ou seja, algo como uma caixa desses “acontecimentos rememorados”, a bibliofilia seria a área na qual infinitos tipos de memórias armazenadas estariam disponíveis ao leitor. Não só pela quantidade, variedade de autores em uma coleção, mas, em especial, pelos elementos e histórias que acompanham a aquisição de cada obra. Um bibliófilo é, sobretudo, alguém que guarda, além da voz da escrita, os múltiplos fragmentos presentes em toda origem de um livro, suas cronologias e processos gráficos.

Um dos argumentos apresentados por Eco em seus estudos sobre o tema é a relação entre memória e escrita. O crítico italiano escolhe o Fedro, de Platão, para ilustrar o obsoleto pensamento de que o ato de escrever poderia aniquilar o exercício da rememoração. A partir dessa referência ao faraó Thamus e seu medo às letras no papel, Eco explana: “A escrita não só não eliminou a memória, como também a potencializou. Nasceu uma escrita da memória e nasceu a memória dos escritos. Nossa memória se fortalece recordando os livros e fazendo-os falar entre si”. Essa última frase, em conjunto com o pensamento benjaminiano ligado à prática das coleções, permite um modo de elucidação da bibliofilia que resgata algo que supera conceitos técnicos e históricos. Algo como essa fantástica chave “para tudo que veio antes e depois”, da qual nos fala o filósofo alemão.

ALGUMAS DEFINIÇÕES
Registros contemplam a presença do que chamaríamos de bibliofilia ainda no final do século 14. Com a invenção do primeiro sistema ocidental de tipos móveis, criado por Gutemberg, o livro passa a ser um objeto mais próximo da população e difundido com maior prontidão nas cidades. Segundo Roger Chartier, em A aventura do livro – Do leitor ao navegador, o início oficial da prática, nos meios financeiros, data do fim do século 17 e começo do 18. Nessa época, supostamente, foi delimitado o universo do colecionável. Chartier conta: “Podem ser todos os livros impressos antes de certa data, ou todos os livros que têm o mesmo suporte material, rico e luxoso, ou todos os livros saídos da mesma oficina tipográfica etc. (…) Progressivamente, o gosto desses colecionadores será conduzido com mais facilidade (mas não necessariamente) para os objetos mais custosos, fazendo do livro raro um investimento”.


A invenção do primeiro sistema ocidental de tipos móveis, por Gutemberg, tornou o livro um objeto mais próximo da população. Imagem: Reprodução

Num prospecto contemporâneo do que foi descrito pelo historiador francês, o doutor em Editoração pela Universidade de São Paulo (USP), professor e diretor-presidente da Edusp, Plínio Martins, afirma que a dedicação dos bibliófilos permite, ainda hoje, a difusão de obras centenárias para pesquisa e apreciação de todos. “Mas a bibliofilia não se restringe ao aspecto material, da posse do objeto: o estudo da arte do livro, a paixão pela descoberta das formas mais inventivas e elegantes de editá-lo, criaram todo um corpo de conhecimento que acompanhou e estimulou a própria evolução do suporte, num processo que continua acontecendo. Se o livro ainda hoje é a tecnologia mais eficiente e confiável de transmitir e armazenar conhecimento, isso se deve também a séculos de estudo e paixão dos bibliófilos”, reflete Martins, em entrevista concedida à Continente.

Nesse (vasto) universo da história do livro, alguns significados podem tornar-se confusos, como, por exemplo, as peculiaridades de bibliofilia e bibliomania. O escritor e bibliotecário francês Charles Nodier defende que o primeiro “aprecia o livro, enquanto que o bibliomaníaco o pesa e mede”. A bibliomania tem uma forte característica de consumismo. Nesse caso, não importam os elementos históricos, gráficos, narrativos, mas, sim, a acumulação de livros e a possibilidade de compra – ou roubo – desenfreadas dos mesmos. Em A memória vegetal, Eco relembra um sujeito que poderia ser denominado pelos dois termos: um matemático italiano do século 19, chamado Guglielmo Libri. No total, ele roubou 40 mil textos antigos, entre manuscritos e livros raríssimos.

Discutir a bibliofilia é como entrar, sem previsão de saída, na Biblioteca de Babel. Ao refletir sobre os vários tópicos que nos conduzem a essa loucura literária das mais seculares estamos caminhando por dentro das galerias hexagonais de Borges e, a cada instante, a literatura se confunde com o mundo. Qualquer coisa de metafísica permanece nos detalhes e histórias de um cotidiano – o dos bibliófilos –, do qual não temos muita certeza de como se faz presente a realidade. Uma rotina que pode nos espantar em ato contínuo, exatamente como aquela casa de papel engolida pelo Oceano Atlântico. 

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