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Sebos: adoráveis prateleiras de memória coletiva

TEXTO Priscilla Campos

01 de Novembro de 2015

Sebo da Torre

Sebo da Torre

Foto Divulgação

Os sebos também são dimensões de prósperas trocas entre escritor e leitor. No geral, eles são organizados por alguém que possui uma história de aproximação elevada com a literatura e, assim como os proprietários de grandes acervos, convive desde muito cedo com esses poderosos objetos de papel. É o caso do jornalista Ricardo Lombardi, dono do Desculpe a Poeira, sebo inaugurado em 2013 no Bairro de Pinheiros, em São Paulo. “Desde muito pequeno, meus pais me ensinaram que a leitura era algo muito importante. Li desde Lobato até clássicos da literatura infantojuvenil como Vinte mil léguas submarinas. Na fase adulta, fui montando uma biblioteca bem boa. Eu era muito apegado, mas acabei colocando quase tudo aqui na loja. Minha relação com os livros mudou: sempre que aparece um bom, eu separo, leio e depois coloco na prateleira para poder vender”, conta Lombardi.

Algumas raridades, como a coleção completa e encadernada das revistas Piauí e Playboy (esta, herdada de seu pai), por enquanto, não estão à venda. Lombardi lembra que a ideia de abrir o Desculpe a Poeira surgiu durante uma viagem. “Me hospedei ao lado de um simpático sebo em Buenos Aires e percebi que seria possível criar algo do gênero aqui em São Paulo. Outra coisa que pensei: desde 2007, eu tenho um blog homônimo, no qual indico leituras. Achei que o sebo físico deveria ser assim, só os livros que eu poderia indicar. Ou seja, há uma decisão editorial – e não apenas comercial – na hora de colocarmos um livro na prateleira”, pondera.

RECIFE
Localizado na Rua José Bonifácio, o Sebo da Torre é um dos mais famosos pontos de garimpos literários do Recife. O paulistano Seu Amauri chegou à cidade há 10 anos. Há 18 trabalha com livros. “Na universidade, estudei Letras e sempre mantive uma relação com os livros. Mas, para trabalhar com eles, é preciso ter um desprendimento. Aqui, é meu meio de vida. Compro e vendo exemplares para sobreviver”, relata. Livros que são referência em áreas como sociologia e filosofia, e possuem poucas tiragens (por isso, considerados raros), podem ser encontrados no acervo de Seu Amauri. “A procura dos leitores pela raridade pode passar também por elementos como as dedicatórias, ou no achado repentino de uma informação preciosa no meio de um livro ou, ainda, na presença do ex-líbris.

Mais uma vez, os encontros e o câmbio de informações aparecem como um dos pontos mais interessantes num espaço dedicado ao livro. Lombardi afirma que as histórias dos clientes chegam, de forma natural, até ele. “Conquistei novos amigos, conheci muita gente do bairro. Sempre penso que essas conversas formam uma espécie de teia, como se os moradores fossem tecendo uma história oral do bairro. Uma vizinha se ofereceu para fazer o meu mapa astral. Fiz, foi ótimo, viramos amigos.”

Entre as lembranças de Seu Amauri está um visitante que nunca mais apareceu em seu sebo. “Ele só comprava livros sublinhados. Tinha interesse de fazer a leitura da leitura. A narrativa grifada é o que era importante. Esse cliente era rígido, escolhia a dedo os grifos que levaria para casa. Acho que era o passatempo dele.” E, neste instante, algum dos fantasmas de Mário de Andrade espera, pacientemente, para atravessar qualquer faixa de pedestre da Rua José Bonifácio, no Bairro da Torre. 

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