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“O homem enfrenta a natureza para se abrigar”

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha defende que profissionais do campo não enxerguem o meio ambiente como paisagem, mas como um conjunto de fenômenos a serem contornados

TEXTO Josias Teófilo

01 de Junho de 2015

Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes da Rocha

Foto Josias Teófilo

Paulo Mendes da Rocha, arquiteto, 87 anos, trabalha num ambiente bastante característico: seu escritório fica no quarto andar da sede paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil, com uma série de janelas em fita, maquetes, uma vasta biblioteca, mesa retangular e um quadro-negro esverdeado. Este cenário, frequente em fotografias e entrevistas filmadas desde muitos anos, já se incorporou à sua imagem pública. Ele conta que veio trabalhar no local há pelo menos 27 anos, seu antigo escritório funcionava no Conjunto Nacional, um lugar muito movimentado, que o obrigava a se identificar sempre que entrava no edifício.

“Arquiteto vira duas, três noites sem dormir fazendo projeto. Eu não queria nem tinha tempo para passar por seguranças, apresentar-me, bater cartão”, afirmou. Foi quando surgiu a oportunidade de comprar a sala no IAB, em que podia entrar e sair quando quisesse. Ali perto, dominante na paisagem, fica uma obra exemplar da arquitetura moderna, o Edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, edificação cara ao pensamento de Paulo Mendes da Rocha. Para ele, o Copan “é a casa do homem, a casa contemporânea”, porque “não é feita para esse ou para aquele, mas é feita para qualquer um de nós”. Ali, num dos elegantes bares embaixo do Copan, é possível encontrar o arquiteto nascido em 1928 num fim de tarde, tomando uísque, provavelmente sem ser reconhecido.

Paulo Mendes da Rocha compartilha com Oscar Niemeyer o maior prêmio da arquitetura mundial, o Pritzker, sendo o único brasileiro vivo com tal honraria. Niemeyer recebeu o prêmio em 1988, junto com o americano Gordon Bunshaft, na única edição do prêmio dada a dois arquitetos ao mesmo tempo; Rocha, em 2006, o que trouxe grande interesse internacional para a sua obra e para a arquitetura brasileira. Na cerimônia de entrega do prêmio – realizada no histórico Palácio Dolmabahçe, antigo centro administrativo do Império Otomano em Istambul –, interrompida logo no começo por um canto vindo de uma mesquita próxima ao palácio, ele falou do desastre que é a cidade do homem de hoje e da grande questão da arquitetura de absorver a experiência humana continuamente.

Para a Continente, Paulo Mendes da Rocha falou da sua vocação inconsciente para a arquitetura, nascida da observação dos trabalhos do porto na infância, da cidade como abrigo contra o inferno que é a natureza e outros temas.


Foto: Divulgação

CONTINENTE Quantas obras o senhor projetou?
PAULO MENDES DA ROCHA Não tenho ideia. Muitas. É uma questão interessante tanto para a arquitetura como para outras formas de discurso. As obras que os outros conhecem são as construídas. E mesmo cada uma delas é fruto de muitos projetos. Na minha opinião, a arquitetura é uma das linguagens fundamentais da nossa existência, porque aparece quando o homem aparece no planeta. Ele enfrenta a natureza para se abrigar. A grande questão, portanto, é a cidade na arquitetura, e não o edifício como fato isolado. É só remeter ao nosso querido Luís Nunes, para lembrar que a Caixa D’água de Olinda não tem nada a ver com um recipiente, é uma cidade! Sem a água, não há cidade. E a água flui, ela precisa estar submetida a uma energia que é feita pela altura em que você põe uma certa reserva para alimentar uma cidade. Enfim, o tema, a convocação da arquitetura, é a habitabilidade do planeta. O arquiteto vê a natureza não como paisagem, mas como um conjunto de fenômenos.

CONTINENTE O senhor lembra o primeiro contato que teve com a arquitetura enquanto linguagem?
PAULO MENDES DA ROCHA Existem muitas circunstâncias em que um jovem pode se interessar por arquitetura. Mas precisa primeiro saber que existe esse universo em que você é capaz de ser na sociedade um arquiteto. Eu tenho muita sorte na minha peculiar existência. Meu pai era um grande engenheiro numa área muito ampla da engenharia, tornou-se professor da Escola Politécnica, justamente na disciplina de navegação interior, portos, rios e canais. Formou-se nos anos 1920, nasceu no século 19. Sempre trabalhou muito, inclusive como consultor de uma empresa muito importante que tinha como especialidade fazer fundações no mar para portos. Meu pai me levava para ver aquilo tudo sem explicar nada. Eu nasci em Vitória, que é um porto de mar, e fui educado a prestar atenção nos trabalhos do mar: navios, flutuação, navegação. E, com isso, foram se formando no meu inconsciente imagens que contam a história do êxito do homem frente à natureza para realizar aquilo que deseja. Episódios que são extraordinários do ponto de vista literário. Por exemplo, nada mais capaz de representar um tesouro, uma fortuna material, do que um navio. Não só ele mesmo, como a mercadoria que está ali dentro. E um porto recebe navios de todos os cantos. Ali em Vitória do Espírito Santo, apareciam navios italianos, russos, gregos. Como o canal de entrada do porto é estreito e caprichoso, sempre me impressionou muito uma coisa: o navio parava lá fora, havia uma pequena lancha do prático – um homem do povo –, à sua espera, o comandante de todo aquele tesouro flutuante entregava o navio para o capixaba e ele punha o navio para dentro e o tirava. Essa ideia da confiança dos homens uns nos outros em relação a um peculiar saber é talvez o primeiro aprendizado que leva alguém em direção à engenharia, à arquitetura. Então, quando eu decidi o que faria na vida, acabei utilizando um saber que não conhecia, um saber inconsciente.

CONTINENTE A figura do navio é muito paradigmática na arquitetura moderna, não é? Le Corbusier falou muito nisso.
PAULO MENDES DA ROCHA Le Corbusier falou disso do ponto de vista da técnica e forma. Uma certa arquitetura naval. Principalmente aquilo que se chama “as obras mortas dos navios”, os alojamentos. Num cargueiro vermelho e preto, lá atrás, tem um castelinho todo branco. Mas, de qualquer maneira, a ideia de uma construção naval, um navio, é muito interessante, porque esse navio, se você põe no seco, ele se desmantela. Faz parte dele estar flutuando, estar submetido a um conjunto de forças internas, externas. O equilibro é uma questão interessante do ponto de vista da arquitetura, porque, vulgarmente, a arquitetura está associada ao aspecto externo – uma visão formalista que não é desprezível, mas não é fundamental. O fundamental da arquitetura é resolver problemas humanos e tornar a natureza habitável, porque por si ela não é. A natureza é um inferno.

CONTINENTE Ter vindo morar em São Paulo influenciou na forma de ver a arquitetura?
PAULO MENDES DA ROCHA Provavelmente. Você viu que eu falei das coisas do mar como fenômenos incríveis, a existência de um porto. Mas você avalia isso tudo melhor quando se distancia. Quem sai da beira-mar para São Paulo. Eu fui educado até cinco, seis anos de idade praticamente na praia, em Vitória, terra da família da minha mãe, onde eu nasci. Mas eu morei um tempo na casa do meu avô paterno, ainda com três anos de idade, na Ilha de Paquetá. Fui destinado à beira-mar, à canoa de pescador. Conviver com pesca, pescador, pipas, papagaios feitos de papel de seda. Aliás, todo menino de beira-mar é assim. E nós viemos por razões de família, a crise de 1929. Em 1932, ele se enfiou na revolução aqui em São Paulo e a família ficou em Vitória. Lá pelas tantas, ele mandou nos buscar e resolveu ficar em São Paulo, e, de fato, daqui não saiu mais. Mas eu sempre voltei para esse universo da beira-mar. Minha família ficou lá, meus primos. Isso tudo teve muita influência na minha formação.

CONTINENTE E qual foi a influência de Vilanova Artigas na sua formação?
PAULO MENDES DA ROCHA Bem, eu já tinha terminado meus estudos. Nunca fui muito erudito, muito estudioso, mas fui convidado inesperadamente pelo Artigas para ser assistente dele na FAU-USP. Eu fiz um novo curso de arquitetura enquanto assistente dele. A Faculdade de Arquitetura da USP era um curso da Escola Politécnica. Num certo momento, tornou-se autônomo, como uma faculdade, tendo que se reestruturar, e Artigas foi fundamental nessa reestruturação. Ele saiu de dentro da Escola Politécnica para se tornar um tanto independente. Com isso, criou-se uma das melhores faculdades de Arquitetura do mundo, na minha opinião, e da América, sem dúvida alguma.


Foto: Arquivo pessoal prof. Arigas/Divulgação

CONTINENTE O senhor começou a lecionar primeiro ou a realizar arquitetura?
PAULO MENDES DA ROCHA Não, ao contrário. Eu fui convidado por Artigas, entre outras coisas, porque os mais velhos se obrigaram a olhar para mim, sabe por quê? Aqui foi feito um concurso de arquitetura pelo IAB por um clube muito eminente, para o qual se inscreveram os maiores arquitetos da época. E eu, como não tinha muito o que fazer e estava formado há dois, três anos, resolvi fazer esse concurso com muita alegria, porque eu poderia publicar, uma vez que era o concurso público e eu tinha que entregar o resultado, e o faria com toda liberdade. Fiz um projeto que simplesmente ganhou o concurso – tendo no júri Rino Levi e Plínio Croce, que eram alguns dos melhores arquitetos do Brasil. E ainda ganhei o Grande Prêmio Internacional Presidência da República. Bem, Artigas me convidou para assistente dele. Frequentando as aulas desse brilhante professor e arquiteto, João Batista Vilanova Artigas, meus horizontes se abriram ainda mais porque estavam para mim no âmbito da questão mesma da arquitetura, principalmente na dimensão de interesse da sociedade, uma arquitetura atual. Todo esse panegírico do que é e o que não é moderno para mim está completamente desmistificado. A arquitetura está condenada a ser moderna sempre, não é feita para se repetir. Mas para enfrentar os novos tempos. É como se disséssemos: até hoje, nós não construímos a arquitetura atual, com luz elétrica, com a consciência do que seja uma rede de esgoto, de luz, o que seja o transporte público, efetivamente. Nós transformamos ruas para carroças em ruas para automóveis, o que é uma estupidez. Inclusive uma das coisas mais interessantes que já li, ainda na minha juventude, foi o famoso estudo de Josué de Castro, chamado A cidade do Recife: ensaios de geografia urbana.

CONTINENTE Ele se tornou uma influência no seu pensamento?
PAULO MENDES DA ROCHA Foi uma das primeiras coisas que eu li. Quando eu vi as palavras urbana e geografia na vitrine, comprei o livrinho, que é um ensaio sobre o Recife – um ensaio de geografia urbana. Portanto essa associação entre arquitetura e geografia, cidade e geografia, é muito importante na minha formação. A cidade existe antes que se construa. Você chega num lugar e diz: aqui vamos ficar, por isso e isso. Há um porto abrigado para os navios. A minha Vitória do Espírito Santo foi feita assim. Aqueles navios tinham que fundear, não havia cais de atracação, como na Bahia, Angra dos Reis, Guanabara. Há um discurso indignado de Padre Vieira porque da porta da igreja se via, na Bahia, 600 navios. Você imaginou o que é uma frota de 600 navios, que riqueza aquilo representava?

CONTINENTE A dialética marxista foi muito importante na sua formação?
PAULO MENDES DA ROCHA A questão é que o raciocínio só pode ser dialético. A questão fundamental na arquitetura, porque você nunca sabe o que fazer, mas pode saber com muita precisão o que não deve fazer. Portanto, nós podemos dizer que a arquitetura está aí para evitar o desastre.

CONTINENTE Vi nas suas obras, principalmente na Capela de São Pedro Apóstolo, em Campos do Jordão, uma integração muito forte com a paisagem, e também na Praça do Patriarca, onde se faz uma espécie de moldura… Esse é objetivo do programa das suas obras?
PAULO MENDES DA ROCHA Bem, no caso da Praça do Patriarca não é bem uma moldura. Havia de se cobrir a entrada para a passagem do Vale do Anhangabaú, que faz parte do projeto inaugural do próprio viaduto. O Viaduto do Chá foi objeto de um concurso, inclusive quem ganhou o concurso do viaduto foi meu professor na faculdade. E fazia parte do projeto a passagem que descia ali no centro da Praça do Patriarca, coberta a escada – para você não sair assim desamparado no tempo – por uma breve marquise, uma coisa que foi mexida, deformada, com o passar do tempo. E resolveram me chamar – não foi concurso – para fazer outra cobertura. Portanto, cobertura, seja qual for, tem que ser amparada por um pilar. Você pode hoje, com os técnicos que estão aí, utilizar um só pilar central. Mas um pilar central ficaria exatamente no meio da escada. Portanto, aparecem os dois como mínimo. Aquela viga apoiada em dois pilares. A ideia de estrutura metálica me ocorreu logo, pela facilidade de montagem e por uma certa exibição. Era oportuna, na minha opinião, sendo São Paulo uma cidade industrial, daquilo que se via como a virtude da construção metálica, mas tinha passado para os dias de hoje como valor arquitetônico. A construção metálica. Por outro lado, as plataformas da Petrobras são feitas, por exemplo, com uma grande excelência técnica. E eu lembrei que poderia fazer aqui uma plataforma metálica leve como uma asa de avião. Principalmente porque você pode colocar onde quiser, dentro de certos limites, quando ali embaixo é um inferno, porque tem as galerias de São Paulo, de telefonia, de energia, de água, você tinha que procurar o lugar para o pilar. E, fazendo aquele engenho mecânico, tudo pesaria 80 toneladas, ou seja, 40 toneladas em cada pata. Basta uma fundação muito simples, uma sapata horizontal. E daí por diante eu fiz uns modelos, e construímos.

CONTINENTE Mas na capela de Campos de Jordão existe a abertura para a paisagem.
PAULO MENDES DA ROCHA Você sabe como surgiu aquela ideia? Primeiro, estava previsto no projeto do Palácio (Boa Vista) uma capela, mas o projeto não dizia onde. Inclusive, eu tive a liberdade para escolher, naquele jardim, onde pôr a pequena capela. Mas a figura do anexo em arquitetura é muito forte, não seria uma coisa perdida naquele jardim. A Torre de Pizza é o batistério anexo da igreja. Talvez o anexo mais lindo e mais intrigante de que eu tenha notícia tenha sido feito por Niemeyer na sede da Mondadori, em Milão. Há um anexo lá adiante que é uma beleza, porque você vê refletido no espelho d’agua o outro lado prédio. A ideia do anexo é a seguinte: quando você constrói uma obra, de qualquer janela dessa construção você só vê os outros, não vê a si mesmo. Quando vê a si mesmo, é estabelecido um contraponto. A ideia do anexo é muito linda em arquitetura. Tanto que, quando eu fiz o Pavilhão do Brasil, em Osaka, fiz a parte que estava difícil de resolver do programa, porque era exigido um posto avançado do Banco do Brasil e outras instituições, a própria administração do pavilhão, e eu resolvi pôr num anexo que um vê o outro, subterrâneo, para não ofender aquela delicada figura que eu imaginei. Portanto, eu logo pensei que a capela deveria ser junto do palácio como anexo, mas a minha sorte é que eu já conhecia aquele palácio e sabia que ele tem um subsolo. Ele é construído junto a uma falésia, junto a um muro de arrimo. Imediatamente, imaginei que podia ligar aquilo com uma sacristia dentro do muro e fazer a capela fora. E, ao mesmo tempo, imaginei essa capela – você sabe, na história dessas pequenas igrejinhas a importância do vitral – com a vista monumental do Vale do Paraíba. Então, achei que o vitral seria a própria paisagem e, se eu fizesse os vidros quebrados, essa própria paisagem produziria reflexão, refração e os fenômenos óticos que equivalem ao vitral. É o vitral como a própria paisagem, enquanto contemplação da dimensão monumental daquilo tudo. Aí, para você fazer isso só de cristal, no envoltório, e no artefato em si mesmo, como dimensão, basta um pilar. E fiz o batistério lá embaixo, porque associei a São Pedro, às águas. As coisas vão assim na nossa imaginação, não é? “Pedro, tu és pedra e sobre a tua pedra edificarei a minha igreja.” Apesar de eu não ser religioso, essas coisas estão na cultura popular.

Imagem: Divulgação

CONTINENTE Fazendo uma analogia, a obra de Niemeyer se caracteriza pela sua esculturalidade, ou seja, a obra dele é excessivamente destacada, de uma forma nítida, monumental e tudo mais. A sua tem essa maior integração com a paisagem, a sua obra é menos centrada em si mesma, e mais ligada à geografia. Concorda com essa visão?
PAULO MENDES DA ROCHA Eu acho que esse tipo de coisa quem tem que falar são os outros, não tenho muita coragem de falar das coisas que eu faço.

CONTINENTE É verdade que o senhor não gosta de projetar casas?
PAULO MENDES DA ROCHA O problema é o seguinte: habitação, você só pode imaginar hoje em dia no âmbito de uma cidade. E, numa cidade, seja ela qual for, você não vai fazer uma casa como fato isolado posta num terreno, isso não dá mais. Portanto, eu acho um tanto anacrônica a ideia de você fazer uma casa num terreninho. É desagradável, não tem estímulo nenhum. A não ser numa dimensão de muita fantasia. Por outro lado, essa casa que se faz, que seria a casa contemporânea, que está no Copan, por exemplo – essa é a casa do homem. Não é feita para esse ou aquele, mas para qualquer um de nós. O caráter particular da sua casa você dá com os trens que leva lá para dentro, mas não é mais aquela feita especialmente para essa figura ou aquela.

CONTINENTE A atividade do arquiteto é enriquecida pela do professor e do conferencista internacional?
PAULO MENDES DA ROCHA Eu acho que não, eu não gosto de fazer isso. Mas, naturalmente, você é muito convocado, e isso lhe obriga a uma certa consciência sobre o que está dizendo e fazendo, mas é muito absurda a ideia de conferência etc.

CONTINENTE Como o senhor vê a questão da conservação da arquitetura moderna, o senhor acha que já existe a consciência da preservação na população em geral?
PAULO MENDES DA ROCHA Eu não sei o que a população pensa hoje. A grande obra de arquitetura hoje em dia é o sistema de transporte público. De qualquer maneira, essa ideia de conservação cultural, como exemplo, você não pode evitar que se cultive. Você não pode imaginar destruir algumas das pirâmides do Cairo, ou o Taj Mahal. Porque são construções que, num certo momento, descreveram a formação da consciência sobre a cidade, sobre a importância do lugar.

CONTINENTE Como é que o senhor vê a importância da arquitetura moderna brasileira no contexto mundial? Esse momento da arquitetura moderna é o de formação de uma identidade nacional?
PAULO MENDES DA ROCHA A questão da arquitetura não é nunca essa ou aquela arquitetura. A arquitetura moderna no Brasil chamou a atenção da cultura erudita mundial pelo emprego que fazia dos seus princípios para realizar a cidade atual, que não existia. Portanto, as obras de um (Affonso Eduardo) Reidy, por exemplo, os aterros no Rio de Janeiro – você imaginar o desmonte do Morro do Castelo feito a jarro d’água, cuja lama era desembocada numa contenção de um certo recinto no mar, e lá se construir aquela grande esplanada que é o Aeroporto Santos Dumont dentro da cidade, com o capricho de manter Villegnon como ilha, porque era onde estava instalada a Escola Naval. Tudo isso mostra uma grande capacidade de transformação no Brasil, que revelou ao mundo novas dimensões do que se chama o poder da arquitetura, ou mesmo o destino da arquitetura. É nessa medida que ela é moderna, na verdade seria uma réplica contra a pura e simples política colonial. Você estava fundando, na verdade, um lugar para ficar – que é onde se desenvolve o discurso da civilização pelo discurso da cidade. 

JOSIÁS TEÓFILO, jornalista, mestre em Filosofia pela UnB e autor do livro Cinema sonhado.

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