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Arquivo

Recife retrato

TEXTO José Cláudio

01 de Junho de 2015

Imagens Divulgação

Fui dominado pelo quadro que vi na parede de Plínio Santos, entre outros de alunos seus, Capibaribe vermelho, quadro-mãe, que gerou toda uma belíssima exposição. “Gostaria que o leitor ao abrir esta página, sofresse, deparando-se com a reprodução acima, o mesmo impacto que me causou o quadro pessoalmente. ‘Pessoalmente’ sim, como se diante de uma pessoa viva, viva e com voz.” (Terra Magazine, nov/2013, Só isso, p 109).

Estivemos brincando, um dia desses, de achar a palavra exata para designar o que havia acontecido comigo: se eu tinha sido dominado, convertido, convencido, impregnado, cooptado, que diabo tinha acontecido, fisgado, o fato é que fiquei totalmente enfeitiçado, palavra de que não gosto porque dá ideia de iludido quando se trata aqui de uma evidência. Na minha maneira de ver, claro. E penso que vejo claro, a essa altura, vivendo nisso há muito tempo, não dado à prática de caçar talentos; pelo contrário, dificilmente poderia ser tirado de um certo torpor que a idade nos traz, e eu mesmo me surpreendi com o surto de entusiasmo que esse quadro me causou.

Quando vi na parede o quadro Capibaribe vermelho, me deu aquele vexame, como se urgisse fazer alguma coisa, dar um alerta, gritar “Terra à vista!”; como se o próprio quadro, dali do seu muro, se investisse de poderes, me ungisse e me incumbisse de sair pelo mundo anunciando “Nasceu um pintor!”. Digo “o próprio quadro” porque até então nenhuma informação possuía sobre o autor. Continuei olhando os outros quadros, de outros autores, “esforçando-me para olhá-los”, melhor seria dizer, mas meu espaço mental já tinha sido tomado totalmente, com essa exclusividade, como diz a palavra, que excluía de minha capacidade de ver, de apreciar, qualquer outra obra naquela ocasião. Coincidentemente, Plínio Santos, ao falar-lhe eu da minha admiração pelo quadro, ou talvez a amiga Patrícia Lima, também aluna de Plínio, me comunicaram da aquisição do mesmo pelo ministrador do curso, como se também este tivesse sido “vítima” do quadro em questão, ia dizer “do atentado”: sim, talvez a melhor palavra seja “atentado”, como se um coquetel Molotov nos tivesse atingido bem no meio do peito, bem no coração.

Sem aviso, sem plataforma, sem fazer parte de nenhum movimento que a gente conheça, quando todas as modas já nos parecem esgotadas e a própria ideia de pintura pintada para muitos poderia parecer obsoleta, destaboca na nossa cara, e agora me vem uma poesia de um poeta náuatle: “um jaguar/milenar/me ruge/na cara//eu começo/a cantar/todo tipo/de flores”.

Não é que a pintora — depois foi que eu soube que se tratava de uma pintora, Ana Catarina, e jovem, inicial (mas parecendo “milenar”), primeira exposição — não é que somente nos “ruja na cara” mas nos recria, nos vira a cabeça, nos vira para ela, nos bota “a cantar todo tipo de flores”. Dali para a frente, tudo o que sair do seu estro já traz essa força a que não podemos resistir, não existindo quadros maiores ou menores, melhores nem piores, tudo fazendo parte do mesmo grito, o mesmo vagido do nascido que alardeia sua chegada com todo vigor, carregando toda uma ancestralidade.

Com quatro anos de idade, até os nove, seu avô materno andava a pé com ela por todo o Recife, sendo essa a maior referência de sua vida. A maior alegria era seu avô ir buscá-la e saírem os dois andando pelo Recife, a pé, ela vendo tudo, andando pelo centro, no meio do formigueiro de gente, Mercado de São José, “pisando em frutas podres” como ela disse, a onipresença das águas de rio e de mar, os saltos surpreendentes das pontes, a irrupção dos edifícios qual animais fantásticos, grupos de edifícios longínquos como miragens tremeluzentes, naves de dimensões colossais, personagem-prédio-falo decepado, de beleza iridescente, mensagens hieroglíficas dolorosamente sepultadas, grafismos que se superpõem ou convivem na promiscuidade de alegrias e crucificações a modo de inscrições gravadas na tinta fresca com cabo de pincel onde você poderá reconhecer o risco de um edifício, casas e ruas e subentender mil outros acontecimentos, rastros prateados das unhas dos caranguejos na lama do mangue ou as atas de todos os crimes memoráveis e dos anônimos sepultados no chão do Recife ou soterrados no fundo do Capibaribe. É ata e é ode. É choro e é cântico. É fuzilamento de Frei Caneca e é frevo e maracatu.

Com toda liberdade em matéria de espaço, ela nunca perde o foco do Recife, protagonista de seus quadros e, não importa o devaneio geométrico, jamais resvala para a pintura abstrata, chegando até em algumas ocasiões a nos lembrar disso com intervenções drasticamente realistas de ruas, prédios, crepúsculos, horizontes e perspectivas, descrições de bairros incorporados a trechos mais herméticos ou subjetivos, como a dizer “isso fique bem claro”, não haja dúvidas sobre seus propósitos. Pode passar de um único pano de cor monocromático para uma algaravia de grafismos no branco da tela, de extraordinária expressividade, como se não tivesse medo de acabar com tudo. Como se não tivesse medo de suicidar-se.

É possível notar, aqui e ali, lembranças, ecos, preferências, citações, não sei até que ponto conscientes, nesse afã, também não sei se consciente ou não, de todo artista, de reescrever a história da arte a seu modo a partir do zero sem nada omitir, e ao mesmo tempo tomando como seu tudo o que foi feito no mundo desde o tempo das cavernas, desde a pedra da Roseta aos relógios moles de Salvador Dali, da simplificação do cubismo sintético à minúcia do rendado como coisa à parte ao sabor do capricho, sílabas ou glifos de sua linguagem pictográfica ou criptográfica.

Recife Retrato é o nome que Ana Catarina deu à exposição, feita no Espaço Vitrúvio, Rua Antônio Vitrúvio, 71, Poço da Panela (início 23/04/15). 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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