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Instrumental: A “cozinha” mostra sua força

A percussão erudita vem ganhando mais espaço nas obras do gênero e inspirando músicos de variados estilos musicais

TEXTO AD Luna

01 de Junho de 2015

Baterista da extinta banda The Police, Stewart Copeland compõe para orquestras, óperas, balés e filmes

Baterista da extinta banda The Police, Stewart Copeland compõe para orquestras, óperas, balés e filmes

Foto David Polston/Divulgação

Início do século passado. Escrita por encomenda e de maneira despretensiosa pelo autor, uma determinada peça erudita viria a se tornar um hit planetário. São cerca de 17 minutos, nos quais um único padrão rítmico se repete (ostinato, em linguagem técnica), exigindo grande concentração dos percussionistas. A caixa clara – tambor de tonalidade mais aguda, presente nas modernas baterias de bandas de jazz, rock, pop, entre outros estilos contemporâneos – dá início ao tema, com uma intensidade levíssima. Instrumentos de sopro entram e, daí em diante, em meio a poucas variações, a dinâmica segue num crescendo arrebatador, hipnótico. Há quem sinta um misto de sensações contraditórias, como desespero e alívio, ao ter contato com a composição mais famosa do autor francês Maurice Ravel (1875-1937): Bolero.

Diversas obras de mestres mais antigos, a exemplo de Beethoven, Mozart, Bach, já contavam com intervenções percussivas. Porém, ainda pouco ostensivas. O russo Igor Stravinsky coloriu sua grandiloquente Sagração da primavera (1913) com o som de tambores, pratos e outros efeitos. “Mas é com o Bolero de Ravel que a percussão assume, pela primeira vez, o papel de protagonista em uma composição erudita”, pontua Marlos Nobre, o renomado compositor e atual maestro da Orquestra Sinfônica do Recife (OSR). Criada a pedido da dançarina Ida Rubinstein, a peça estreou em 22 de novembro de 1928, na Ópera Garnier, em Paris.

Durante o desenrolar do século 20, ocorreu o que Nobre chama de “explosão da percussão”. Pouco a pouco, mais compositores foram acrescentando instrumentos percussivos em suas obras, tornando-os elementos essenciais em conjuntos eruditos. Dentre os europeus, Marlos Nobre destaca os franceses Darius Milhaud e Pierre Bouliz – o qual, inclusive, completou 90 anos no dia 26 de março. As percussões africanas, trazidas pelos escravos, influenciaram composições dos norte-americanos George Gershwin, Leonard Bernstein e Aaron Copland. Este último, apesar da semelhança do sobrenome, não tem ligações com o baterista da banda inglesa The Police. No entanto, é possível afirmar que os dois mantêm, sim, algum nível de parentesco, só que musical; visto que Stewart Copeland também compõe peças eruditas para orquestra, ópera, balé, além de trilhas sonoras para filmes.


Ex-baterista de Frank Zappa, Terry Bozzio se apresenta apenas com bateria incrementada com instrumentos eruditos. Foto: Terunobu Ohata/Divulgação

São dele as criações musicais que permeiam as cenas de O selvagem da motocicleta (1983) e Wall Street (1987), ambos de Francis Ford Coppola. Dentre seus trabalhos eruditos mais impressionantes, destaca-se justamente um dos mais recentes. Stewart Copeland escreveu concerto baseado no filme épico e silencioso Ben Hur: a tale of the Christ, dirigido pelo norte-americano Fred Niblo e lançado em 1925. A execução que marcou a estreia do concerto aconteceu em 19 de abril do ano passado, durante o Virginia Arts Festival in Norfolk, nos Estados Unidos. Na ocasião, o clássico do cinema mudo foi exibido em uma versão editada de 90 minutos (a original tem 143), com uma orquestra conduzida pelo maestro Richard Kaufman. Como é natural inferir, a peça contém grande espaço para instrumentos percussivos tradicionais, além da bateria. Copeland participou da première internacional tocando tanto bateria quanto os tradicionais instrumentos percussivos.

INFLUÊNCIAS NEGRAS
Assim como nos EUA, a ancestralidade africana é responsável em boa medida pela evolução da percussão da música sinfônica na América Latina. Do México, destacam-se nomes como Carlos Chávez e Silvestre Revueltas. O argentino Alberto Ginastera chegou a estudar com o citado Aaron Copland. No Brasil, não se pode deixar de fora o carioca Heitor Villa-Lobos, o paulista Camargo Guarnieri e o próprio Marlos Nobre, autor de composições com ênfase na percussão e no ritmo, a exemplo de Rhytmetron Op. 27 e Kaballah para Orquestra, Opus 96. Esta fez parte do concerto inaugural da temporada 2014 da OSR, realizado em março, no Teatro de Santa Isabel, centro do Recife.

Como o próprio nome indica, Kaballah é inspirada na tradição espiritual de origem judaica homônima. “Não sou judeu, mas tenho uma admiração muito grande pela filosofia”, destaca o maestro. A peça tem cerca de 10 minutos de duração, escrita em dois movimentos (Luz e Energia), e foi encomendada a Nobre em 2004, durante a realização do 35º Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão (SP). “Apliquei nessa obra a ideia fundamental de que certas ideias musicais podem ajudar os ouvintes a expandir a consciência, a atingir regiões mentais mais avançadas”, discorre o maestro, com perceptível empolgação no falar. “É uma peça complexa, com compassos em 7/8, 8/8… No início, foi difícil para os músicos compreender e executar, pois é preciso raciocinar muito rapidamente”, explica. Além da participação de seis percussionistas, Kaballah conta com instrumentistas responsáveis pelas seções de metais e madeiras.

Atualmente, é grande o número de composições com forte presença da percussão. Ainda assim, há quem a entenda como algo “menor” dentro de uma orquestra.

Para o paulista Irineu Perpétuo, jornalista especializado em música erudita, essa percepção não chega a surpreender. Ele lembra que, na tradição ocidental, a prioridade sempre recaiu na melodia e no desenvolvimento da linguagem harmônica. A pesquisa rítmica ficou relegada a segundo plano por centenas de anos. “Nesse aspecto, os povos africanos e de algumas partes do continente asiático desenvolveram uma música bem mais interessante e sofisticada. Com a abertura dos ouvidos europeus, no século 20, para as linguagens musicais de outros continentes, os compositores começaram a incorporar toda essa riqueza rítmica a sua música, e daí a percussão erudita pôde florescer em sua plenitude”, explica.

GRUPO PERCUSSIVO
Com passagens pela Sinfônica do Recife, na qual atuou entre 1984 e 2010, orquestras sinfônicas da Paraíba, Rio Grande do Norte, de Aracaju, de São Paulo, além da Orquestra Tonhalle (Zurique, Suíça) e Orquestra Virtuosi, Antonio Barreto vem desenvolvendo trabalho no qual tenta, justamente, difundir a percussão erudita. Percussionista e professor do bacharelado em Música da Universidade Federal de Pernambuco, ele fundou, em 1997, o Grupo de Percussão do Nordeste, junto com os colegas Germanna Cunha, Francisco Xavier, Vanildo Marinho e Glauco Andreza.


Éder "O" Rocha, que integrou o Mestre Ambrósio, dedica-se,
há duas décadas, à execução e ao ensino de ritmos populares.
Foto: Germana Heibe/Divulgação

“É um trabalho inteiramente ideológico. O retorno financeiro não recompensa as despesas e o tempo investido, porém, nós nos satisfazemos com os aplausos do público. Sempre me perguntam quando nos apresentaremos novamente e isso é gratificante! É o reconhecimento e, ao mesmo tempo, a percepção de uma carência por esse tipo de espetáculo e informação”, expõe o também integrante do grupo SaGrama.

Em junho de 2014, o Grupo de Percussão lançou seu primeiro CD, Território XXI, com uma cativante apresentação no Teatro de Santa Isabel, no Recife. Com a voz embargada, Barreto quase não conseguiu proferir seu discurso de agradecimento. O álbum duplo, com textos em inglês e português, teve aprovação do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) e foi gravado no Estúdio Carranca, na capital do Estado. É composto por obras de autores pernambucanos, paraibanos e paulistas. Circuloníricos (Silvia de Lucca), Aboio e embolada (Dierson Torres), Rosa branca ou o percurso alheio (Paulo Lima), Ori (Nelson Almeida) e Hiper-ritmo (Nilson Lopes) foram criadas especialmente para o projeto fonográfico. Completam o repertório as tradicionais Movementes, de Vanildo Marinho; Rhythmetron Op. 27, de Marlos Nobre; Ensaio 79, quinteto para piano e tambores, de Mario Ficarelli; e Três estudos para percussão, de Osvaldo Lacerda.

Marlos Nobre escreveu Rhythmetron para a Companhia Brasileira de Ballet do Rio de Janeiro, que a apresentou, pela primeira vez, em 1968, no Teatro Novo do Rio de Janeiro. Elementos de maracatu e samba integram o tecido sonoro da obra, a qual se divide em três movimentos: A preparação, A escolhida (momento em que instrumentos melódicos de percussão aparecem) e Ritual. Rhythmetron já foi interpretada por diversas orquestras e grupos do Brasil e do mundo.

NAS ALTURAS
Como já apontado, a passagem do tempo e os intercâmbios culturais contribuíram com a maior e crescente diversidade da instrumentação percussiva. Os instrumentos percussivos são divididos entre os de alturas definidas, ou seja, que podem ser afinados, como a marimba, o xilofone e o vibrafone; e os de alturas indefinidas. Nesse caso, aqueles que não podem ser melodicamente afinados, como caixa clara, castanhola, chicote, tom-tom, entre outros. Ainda assim, há diversos casos em que autores, maestros e músicos usam notas melódicas para timbrar sons de tambores. Mesmo no jazz, no rock, no pop, não é difícil encontrar bateristas que empregam esse recurso na hora de afinar suas ferramentas de expressão artística, além de se utilizar de instrumentos e técnicas de execução eruditas para tocá-los. É o caso de músicos como Neil Peart (Rush), Carl Palmer (Mike Oldfield, Emerson, Lake & Palmer, Atomic Rooster) e Terry Bozzio.

Natural de San Francisco, Califórnia, Bozzio estudou percussão erudita no início de sua carreira. Tocou e gravou com Frank Zappa & The Mothers of Invention, Jeff Beck, Missing Persons (banda new wave dos anos 1980), Fantômas (projeto de Mike Patton, vocalista do Faith no More, que mistura punk rock, metal, jazz e arranjos inspirados em trilhas sonoras de filmes), entre vários outros artistas. A partir do início dos anos 1990, iniciou projeto solo no qual grava vídeos e se apresenta com uma enorme bateria incrementada com diversos instrumentos percussivos eruditos. Ele criou algo que pode ser chamado de “concerto percussivo de um homem só”. Há inúmeros vídeos de suas performances no YouTube.

Ex-integrante do extinto Mestre Ambrósio, o percussionista e compositor Eder O Rocha tem se dedicado, há mais de 20 anos, ao estudo, execução e ensino de ritmos populares. O pernambucano mora em São Paulo, onde mantém a Prego Batido – Escola de Percussão e Bateria Brasileira, localizada no bairro do Sumaré, zona oeste da cidade.

Eder estudou percussão erudita no antigo Centro Profissionalizante de Criatividade Musical do Recife. Hoje chamada de Escola Técnica Estadual de Criatividade Musical, instalada na Rua da Aurora, no centro da capital. O músico passou pela Orquestra Jovem de Olinda, sinfônicas do Rio Grande do Norte e Recife.

“Minha rotina era estudar de quatro a oito horas por dia, ensaiar três horas, diariamente, e me apresentar quatro vezes por mês, em média”, relembra. “Isso foi essencial para a minha formação. Hoje, tenho um método de zabumba (Zabumba Moderno) e um bom desempenho profissional por ter tido a base no estudo da percussão erudita”, complementa. Além dos ambrósios, Eder O Rocha chegou a trabalhar com Monjolo, Silvério Pessoa, Instituto, DJ Dolores, Mutrib, BiD, DJ Marky, Velho Maza, entre outros. 

AD LUNA, jornalista.

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