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Maurício Castro

Retorno à gravura

TEXTO Olivia de Souza

01 de Março de 2015

Gravuras do artista têm como base desenho sofisticado

Gravuras do artista têm como base desenho sofisticado

Imagem Maurício Castro/Reprodução

Imagem obtida através de impressão em matriz artesanal, a gravura é uma técnica tradicional, empregada por muitos artistas para terem suas obras de arte reproduzidas em larga escala. Isso se dá tanto em sua forma mais antiga, a xilogravura – em que a matriz é escavada em madeira –, como na gravura em metal, na litografia (em pedra) e em técnicas mais modernas, como a serigrafia e a gravura em linóleo (lineografia). Esta última se assemelha à xilografia, mas, ao invés da base de madeira, uma placa de linóleo – material impermeável semelhante à borracha – recebe a tinta nas partes em relevo, sendo em seguida transferida para o papel.


Trabalhos dos anos 1980 apontam demanda crítica de sua obra.
Imagens: Maurício Castro/Reprodução

Assim como está presente nas mais remotas manifestações artísticas ocidentais e orientais, a gravura pontua diversos momentos da vida de Maurício Castro, artista plástico e cenógrafo pernambucano, que, desde a década de 1980, vem participando do cenário artístico, integrando coletivos e realizando exposições no Brasil e no exterior.

Depois de trabalhar por quase 10 anos com objetos de ferro relacionados à criação de esculturas e engenhocas para o cinema e teatro, hoje ele se dedica ao desenho, à pintura, e à gravura. Seu primeiro contato com a técnica se deu ainda no curso de Arquitetura, no ateliê de José de Barros, no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, onde encontros com vários futuros amigos resultaram na criação de ateliês pelo Recife.


Os cortes da matriz se destacam nesta obra.
Imagem: Maurício Castro/Reprodução

“Na universidade, eu trabalhava com José de Barros fazendo gravuras em metal. Coincidiu com um período em que, de certa forma, já estava em crise com a arquitetura, querendo pintar e fazer coisas relacionadas às artes plásticas. Então, eu, José Paulo e Ronaldo Câmara montamos um ateliê, que funcionava no primeiro andar do escritório de arquitetura do meu pai”, lembra. Enriquecedoras também foram as experimentações no Coletivo Aurora, fundado em 1983 por Cavani Rosas, Petrônio Cunha, Antônio José do Amaral e Álvaro Vieira. Além das aulas, Castro ajudava Cavani nas modelagens de esculturas em concreto.


O ateliê do qual Castro faz parte funciona na galeria Maumau.
Imagem: Maurício Castro/Reprodução

Em 1989, antes da revitalização do Recife Antigo, Maurício Castro fundou, junto com José Paulo, o Quarta Zona de Arte. O espaço foi montado num casarão comprido e de pé direito alto, o que possibilitou aos artistas ali reunidos trabalharem com obras em grande formato. “Foi um momento muito rico, tanto de produção quanto de intercâmbio, e uma época em que todo mundo estava pintando quadros enormes. Não só o Quarta Zona, como outros ateliês que posteriormente se instalaram lá no bairro. Também houve uma boa retomada das gravuras, compramos uma prensa e começamos a trabalhar em linóleo e metal”, situa.


Em 2014, o artista plástico lançou exposição individual n'ACasa
do Cachorro Preto. Imagem: Maurício Castro/Reprodução

Depois de morar em Barcelona, onde teve contato com novas técnicas e suportes, Castro desenvolveu uma percepção singular de arte, que definiu os moldes do que viria a criar na década seguinte. Na Espanha, fundou o ateliê Torre de Papel e se envolveu com o coletivo Drap-Art, plataforma de artistas que utilizam objetos encontrados no lixo como suporte artístico. De volta ao Brasil, em 2001, Castro fundou o Submarino (inicialmente com Isabella Stampanoni, Juliana Notari, Jacaré e Fernando Augusto), ateliê no qual pôde criar objetos com ferro e sucatas de eletrodomésticos, material que despertou seu interesse no contato com os trabalhos do Drap-Art.

A partir dessa experiência, ele passou a trabalhar com cenografia para teatro e cinema, o que incluiu criações para a microssérie televisiva A pedra do reino, de Luiz Fernando Carvalho, e a direção de arte de clipes da Mundo Livre S/A.


Embora menos frequente, a policromia aparece em suas gravuras.
Imagem: Maurício Castro/Reprodução

O retorno de Maurício Castro à gravura ocorreu no Ateliê Peligro, após a oficina de fabricação de papel Papelombra. “Vivemos um tempo horrível, de urgências, cobranças e estresses. Tenho procurado meios de desacelerar minha vida, de depender dos meus próprios processos. Esse é um dos motores da minha retomada da pintura, do desenho e da gravura. Além, é claro, da saudade mesmo.”

Da necessidade de “desacelerar” surgiu a Gráfica Lenta, montada na Maumau, após residência artística de outro Maurício, o Silva, que ministrou durante um mês uma oficina de gravura no local, que funciona no Espinheiro, como residência, ateliê e galeria. O coletivo adota o lema “a prensa é inimiga da perfeição” e preza pelo respeito ao tempo e à individualidade de cada artista – num método de criação mais devagar e humano. A Gráfica é utilizada de segunda a sexta-feira e, às terças, abre para o público conferir de perto os processos artísticos, aprender as técnicas e fazer suas próprias obras.


Obras pessoais como Eu Hamster trazem marcas da vida contemporânea.
Imagem: Maurício Castro/Reprodução

Uma síntese da produção recente de Castro pôde ser conferida em agosto de 2014, em mostra individual n’A Casa do Cachorro Preto, em Olinda. Lá foram expostos trabalhos tanto do período em Barcelona quanto os mais recentes, realizados no Peligro e na Maumau. “Gosto de fazer desenhos como se fossem histórias em quadrinhos. Questionamentos do cotidiano, a complexidade e os problemas da vida, do tempo. Isso é o que tem me instigado a fazer gravuras, essa coisa sempre muito presente e cíclica na minha vida. Sempre volto para ela.” 

OLIVIA DE SOUZA, editora da Continente Online.

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