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Macuca: A festa de Zé

Fazenda situada em Correntes abriga, há mais de duas décadas, festival de música que remonta aos ideais hippies de uma vida amigável, pacata e campestre

TEXTO PETHRUS TIBÚRCIO
FOTOS LAÍS ARAÚJO

01 de Março de 2015

Foto Laís Araújo

Um dia antes do início do Festival Macuca Jazz & Improviso, a fazenda que abriga o evento se apresenta assim: ao descer a primeira ladeira, na saída da rodovia que liga Garanhuns a Correntes, no agreste pernambucano, os visitantes encontram uma casinha charmosa, construída para servir de pousada. Na frente, um salão ao ar livre guarda mesas e cadeiras de plástico, apoio do restaurante montado para alimentar o público e a equipe organizadora. Em frente ao refeitório, um enorme terreno gramado – espaço destinado à armação das barracas de acampamento, onde fica a maioria dos visitantes. Lá embaixo, perto do riacho, um grupo trabalha na montagem do palco, que receberá os shows de maior porte. Ao longe, num terreno um pouco mais elevado, fica a sede da fazenda, onde mora José de Oliveira, o Zé da Macuca.


Roda de poesia realizada na varanda de casa

Ainda na BR temos a primeira visão dessa sede. Com as janelas do carro abertas, é possível identificar a entrada somente pela calma música que toma conta da fazenda inteira. De dentro da casa, o dono da festa manuseia uma vitrola que sonoriza todos os ambientes do festival nos poucos momentos em que os palcos estão vazios. A construção branca de detalhes azuis e amarelos vivos, cercada por pequenos jardins, foi o lugar onde, há mais de 26 anos, Zé da Macuca decidiu morar e onde, na mesma época, aconteceu o primeiro festival, com não mais do que 30 pessoas. Hoje, o evento costuma receber uma média de 250 barracas ou mil pessoas por final de semana. “Se vierem duas mil, serão bem-vindas”, diz Dênis Leão, integrante da produção que acompanha o festival há mais de duas décadas, desde sua terceira edição. Ele consegue apontar as mudanças que foram feitas na fazenda, para ficar mais confortável e receber mais visitantes.


Cômodos são decorados com objetos antigos, fotos e brinquedos da
cultura popular


Na entrada da propriedade, onde antes havia uma estrada para carros, hoje está o espaço em que são guardadas as barracas. A sede possui energia elétrica para geladeira e carregadores de celular, por exemplo, mas a iluminação ainda é toda feita a candeeiro. No terraço, um batente mais elevado improvisa um palco no qual acontecem os espetáculos teatrais da programação. Ali também se deposita parte do acervo do evento: um estandarte antigo (Movimento Anárquico Cultural da Macuca está escrito, em letras douradas), peças da fantasia de boi e uma sanfona surrada. José de Oliveira não sabe ao certo quanto tempo a fazenda – que antes era do seu pai – tem, mas diz que já encontrou lá uma moeda de 1869, querendo atestar a sua velhice. Em um quarto da casa alpendrada, um pequeno mural de fotos faz uma linha do tempo não cronológica do Macuca. Apesar disso, o dono da festa lembra bem os anos que aquelas imagens registram, identifica pessoas – dizendo, sempre, como elas estão hoje – e qualquer episódio daqueles dias.


Cada edição do festival reúne cerca de mil participantes em 200 barracas

A história do Boi da Macuca começou depois que José de Oliveira, que não morava no local, realizou seu aniversário com amigos na fazenda do pai. Lá, decidiram aprender a cuidar da terra, largar seus empregos e irem morar em Correntes, onde hoje acontece o festival. “Só eu fiquei”, conta ele, que há muito é chamado simplesmente de Zé. Foi então que descobriu, nas comunidades ao redor, a figura mítica do bumba meu boi. Típico do Maranhão, o boi-bumbá aparece em diversas outras localidades brasileiras, com variações; às vezes, como folguedo de data fixa no calendário anual, ou como manifestação do ano inteiro, tradicionalmente profano, mas também de caráter religioso. Com origem nas tradições culturais ibéricas, a brincadeira incorporou elementos africanos e indígenas: foi chamado de boi de mamão ou boi de mourão, em Santa Catarina e no Paraná; bumba ou folguedo do boi, em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé; boi de reis, no Espírito Santo, ou, ainda, dança do boi, boi de jacá, boi surubim e boi zumbi.



Desde que colocou seu boi na rua, em 1989, Zé da Macuca tornou-se corporificação dessa tradição para as comunidades locais, seja no cortejo que percorre as vias das redondezas, ou quando os vizinhos sobem para a fazenda. O envolvimento começa já na produção do festival, que é formada por uma equipe de 50 pessoas, a maioria vinda das comunidades de Baixa Grande e Poço Comprido, mas que pode vir de Garanhuns, Maceió e Aracaju. Muitas delas começaram a frequentar a fazenda lá no início, ou são filhas de pessoas dedicadas ao brinquedo há muito tempo. Um dia antes da sexta que inicia o festival, elas riem do que chamam de “famosas lendas do Macuca”. Uma delas, a Morena do Lago, que tradicionalmente sai, inteiramente nua, do lago da fazenda, correndo para o mato, onde nunca é encontrada. Lembram, ainda, os muitos “filhos do Macuca”. É que, segundo contam, um número considerável de crianças foi gerado nas festas ali realizadas. No grupo ouvido pela Continente, um disse que era pai de três filhos, todos “do Macuca”. Outro gritou de lá: “Eita Macuca esculhambado! Ninguém mais anda nu por aqui!”


Cortejo do Boi da Macuca começa na fazenda e segue pelos distritos de Correntes

Rotineiramente, Zé da Macuca pega um cavalo e desce para o povoado de Baixa Grande, a dois quilômetros de distância da fazenda, para beber com os amigos. Vez ou outra, conta uma história sobre a passagem do boi por lá, atestando o envolvimento da comunidade com a festa. Em uma dessas idas, fez um acordo com um amigo, Luiz Lucas, que o último a morrer beberia ao corpo de quem fosse primeiro. Por três vezes, segundo Zé, Luiz Lucas esteve muito próximo da morte. O ritual seria o que acontece quando alguém morre naquela região: as mulheres fazem sentinela e os homens bebem cachaça, contando boas histórias sobre o doente.


Zé Pereba costuma  participar do cortejo como Mateus

Assim que chegou em casa, recebeu a notícia de que o amigo tinha morrido. “Aí, a família chamou o Boi, e veio o corpo no caixão, que foi acompanhado de uma música bonita.” Era véspera da Festa de São Conrado, quando o Boi da Macuca corteja até o local de adoração ao santo para celebrá-lo. Então, Zé desceu com o boi e fez uma festa em homenagem à vida de Luiz Lucas. “E não tem uma foto disso porque não tinha uma câmera fotográfica. Ficou na memória da comunidade”, conta.


Boi da Macuca dá continuidade ao brinquedo que ganha várias
denominações no Brasil

No domingo que era o do encerramento da edição do festival que acompanhamos, em novembro de 2014, os remanescentes de uma roda de poesia acontecida pela manhã se reuniram à mesa, colocada na porta da casa, ora soltando um verso improvisado, ora cantando, como quem não consegue se despedir direito, numa pequena saudação ao dono da casa:

Macuca, macuca
O que é que você tem?
A casa do Macuca é um barato
Todo mundo lhe quer bem. 

PETHRUS TIBÚRCIO, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.
LAÍS ARAÚJO, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

Leia também:
O dono da casa

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