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Amigo Arthur Carvalho

TEXTO José Cláudio

01 de Outubro de 2014

Propaganda que eu via na farmácia de seu Zé Uz, Ipojuca, décadas de 1930 ou 1940

Propaganda que eu via na farmácia de seu Zé Uz, Ipojuca, décadas de 1930 ou 1940

Imagem Reprodução

De fato não se tratava dos dez livros mais importantes da literatura mundial, como você bem lembrou (não tenho o artigo em mãos; carrego essa bondade comigo, a de só guardar o que não interessa; o que interessa, ou não guardo, ou guardo tão bem guardado que não acho mais nunca, ou acho quando não mais preciso e nem lembro por que guardei; seguindo, de princípio, a ideia de um tio meu, tio Mané, Manoel de Albuquerque Pinto, em homenagem a quem botei o nome de meu filho Manuel, que virou Cláudio Manuel por imposição de minha mulher, que queria porque queria botar o nome de Cláudio, mais conhecido hoje como Mané Tatu, botado por quem, não sei, e por ele adotado, como assina nos quadros, mas dizia Manoel meu tio: “o que não presta guardo um ano”). Como você bem me lembrou, dizia eu, me dando o maior apreço, desperdiçando o espaço de sua crônica semanal às quartas-feiras do Jornal do Commercio com minhas bobagens. Sempre ia lhe escrever mas não encontrava o tom, nem sua crônica. Continuo sem encontrá-los.

Você transcrever meu bilhete, me deu uma alegria ímpar (gostou?), e como disse, guardei tão bem guardado que não sei onde botei, além de no imo do peito (e agora?): deve estar num bauzão de sucupira, feito em Ipojuca por Mestre Ribeiro, que herdei da loja de meu pai, onde se guardava camisa-feita, feita de linho-de-camisa, um pano barato de algodão, muitas vezes fui levar na casa da costureira Dna. Marocas na Rua d’Água, os cortes de pano e os carretéis de linha Bispo 60, e calça feita de mescla, azul ou preta, o melhor era o Alvorada, cujo rótulo gostaria de rever, taí uma coisa que queria ter guardado, um belo galo de asas abertas, o sol nascendo por trás de suas asas, muito alaranjado e vermelho, devia haver um museu de rótulos, como aquele da cara de um cara de olhos arregalados engolindo uma cabeça de boi, ou o homem coçando as costas com uma bengala enfiada pelo colarinho na nuca (Mitigal?).

Não eram os livros mais importantes do mundo e sim os dez livros que tiveram maior importância na vida de cada um dos amigos consultados, e lamentei nenhum desses seus amigos tivesse citado o Confissões de Santo Agostinho. Aliás também li A Cidade de Deus, um portento, e aqui para a novela, porque precisa uma explicação para leituras tão pretenciosas. Tenho sempre em mente, além das lições do meu tio Manoel, o verso de Castro Alves (Salve a Bahia, Senhor! como no samba de Geraldo Pereira): “Eu que sou fraco mas só fito os fortes/que sou pequeno mas só fito os Andes”.

Eu andava desesperado por não ter um livro em português para ler, isso em Roma, deve ter sido princípios de 1958, meses jejuno de língua portuguesa, mal trocando algumas palavras com Isaac Gondim na hora do almoço na mensa da Via della Scrofa (rua da porca), onde hoje só tem rico, segundo o amigo romano Mario Delli Colli. Bati tudo que foi livraria e não encontrei um livro em português. Qualquer assunto servia. Acho que foi o próprio Isaac quem sugeriu a livraria do Vaticano. Pelo menos a Bíblia devia ter. Acredite se quiser: não tinha. A própria freira que atendia ficou desesperada: “É um absurdo, o maior pais católico!” Acho que muita gente na Itália só tomaria conhecimento da existência do Brasil logo alguns meses depois quando ganhamos a Copa do Mundo na Suécia. Aliás na Alemanha também passaria por esse aperto em Munique onde tive de me contentar, na falta de livro em português, com espanhol, El Cristo de Velázquez de Miguel de Unamuno. A freirinha, voltando a Roma, tornou com um livro cuja escrita parecia mais uns garranchos, explicando ter sido aquele alfabeto recém-criado pelo Vaticano para imprimir a Bíblia na língua falada naquele país, não lembro qual, que não tinha escrita. Para ver o cuidado que o Vaticano tinha com essas coisas.

Pediu que esperasse. E logo apareceu um padre, ainda jovem mas de cabelo levemente grisalho, óculos, batina preta, boa estatura, português, que me perguntou se eu poderia procurá-lo no dia seguinte na igreja onde morava no centro de Roma. Lembro-me de ele ter vindo até fora da igreja me entregando através da grade do adro a brochura Confissões, edição portuguesa que até hoje guardo como relíquia. Foi assim, pois, amigo Arthur, premido pelas circunstâncias, que encarei a leitura desse livro: como gostaria de agradecer a esse padre, cujo nome também não lembro, nem o dele nem o da igreja, e que se tornou um grande acontecimento na minha vida: se eu fosse crente, veria aí o dedo de Deus, como aconteceu com o próprio Santo Agostinho no episódio Tolle, lege (toma, lê), ponto decisivo na sua conversão (Livro VIII, cap. 12).

Seria muita pretensão citar Confissões como livro predileto, ou As confissões, como traduziu Frederico Ozanam Pessoa de Barros, Editora das Américas, 1961, capa de Fernando Lemos. Foi Fernando Lemos, com quem fora agraciado com um prêmio ex-aequo de desenho anos antes (Prêmio Leirner de Arte Contemporânea, distribuído pela Folha de S. Paulo) quem me presenteou também A Cidade de Deus da mesma editora. A edição mais recente que li agora é da Nova Cultural, 2000. Seria muita pretensão, Arthur, porque exige do leitor alto nível de concentração, alcance, cultura, muito acima das qualidades deste seu amigo zé claudinho da silva, e isso quero agradecer aos tradutores como os desta última leitura, J. Oliveira Santos, S. J. e A. Ambrósio de Pina, S. J., que nos vão amparando, mostrando as belezas que poderiam passar despercebidas, explicando as razões de determinadas maneiras de dizer ou baseadas em que, até reescrevendo trechos, por sintéticos, talvez de difícil apreensão ou nos informando sobre desdobramentos de que dificilmente saberíamos ou não nos ocorreriam.

P.S. Agradeço à vereadora Priscila Krause o gesto simpático da transcrição nos Anais da Casa do meu artiguete Fica, Santander, publicado em 4 de maio no Jornal do Commercio. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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