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Tapetes Casa Caiada

Perfeição entre um ponto e outro

TEXTO MARIANA OLIVEIRA
FOTOS FLÁVIO LAMENHA

01 de Setembro de 2014

O acabamento cuidadoso e a uniformidade dos pontos são características marcantes

O acabamento cuidadoso e a uniformidade dos pontos são características marcantes

Foto Flávio Lamenha

Era 1966, quando Maria Digna Pessoa de Queiroz e sua tia Edith Pessoa de Queiroz deram início à empresa de Tapetes Casa Caiada, agora prestes a completar 50 anos.Tudo começou informalmente, com o objetivo de encontrar uma atividade que desse prazer, pudesse ocupar o tempo livre e, ao mesmo tempo, ajudasse donas de casa ociosas do município de Camaragibe – artesãs nas quais tia e sobrinha viam um grande potencial.

No início, a produção era pequena e as peças eram comercializadas entre amigos e conhecidos. O sucesso logo veio, junto com a fama local e nacional de tapetes feitos com maestria e acabamento exemplar. No auge, elas chegaram a produzir cerca de mil metros de tapete num mês. Tonaram-se a primeira empresa de tapeçaria profissional do país, e uma das mais tradicionais, tendo sido chamada de “persa brasileiro”. Um dos primeiros, vendido ao empresário Ricardo Brennand, foi exibido em exposição realizada no Museu do Estado de Pernambuco, em 2012, em comemoração aos 47 anos da tapeçaria.


As linhas mais vendidas no exterior são as que trazem elementos da fauna e da flora brasileira

Até hoje, os Tapetes Casa Caiada são associados à perfeição e durabilidade. Todos são bordados à mão, em pura lã, utilizando um ponto especial – intitulado casa caiada, uma variação do ponto de cruz, criado e patenteado por suas fundadoras. Em cada metro quadrado produzido, são bordados cerca de 5.000 pontos sobre tela de linho e algodão. Os desenhos são planejados e pensados para os variados formatos e tamanhos, com uma especial atenção para as combinações de cores.


A combinação harmônica entre elas é algo fundamental na peça

“Não vejo o nosso trabalho como arte. Na verdade, o que fazemos é um trabalho meticuloso, com alto grau de perícia, perfeição e alto controle de qualidade”, pontua Maria Digna Pessoa de Queiroz, que assumiu, junto com as filhas, o comando do grupo após a saída de Edith. Em peças grandes, trabalham até seis artesãs e é difícil manter a uniformidade dos pontos de todas. “Damos uma grande atenção a esses detalhes”, diz Patrícia Pessoa de Queiroz, filha da fundadora.


Os primeiros tapetes do grupo foram inspirados nos desenhos dos azulejos portugueses

As primeiras peças produzidas pelo grupo eram inspiradas na azulejaria portuguesa dos séculos 17 e 18. A partir de uma matriz, as empresárias adaptavam as imagens à tapeçaria. “Quando era criança, meu pai me levava para passear pelas igrejas do centro do Recife e por alguns prédios históricos. Em muitos deles, nós observávamos a azulejaria completamente dilapidada, destruída. Anos depois, quando inciamos a Casa Caiada, vi a oportunidade de resgatar esses traçados tão belos, clássicos e sofisticados”, explica Maria Digna.


Os desenhos nos tapetes se modernizaram para acompanhar as tendências da decoração

Com o passar dos anos e as mudanças no ramo da decoração, o grupo viu que precisava diversificar as temáticas. Foi aí que a produção, antes voltada para imagens clássicas e sóbrias, incluiu desenhos geométricos e óticos. Hoje, as linhas se diversificaram e as artesãs e artesãos não têm problemas em bordar tapetes modernos ou mesmo aqueles desenhados e idealizados por arquitetos e clientes. “Quando alguém traz a ideia de um desenho específico, nós avaliamos e damos sugestões. Já temos conhecimento daquilo que combina ou não, quais as cores que casam bem. Existem coisas que imaginamos no papel, mas que, quando executadas, não ficam legais”, conta Patrícia, destacando que, para ela, a definição das combinações de cores é o mais importante. A empresa mantém catálogo em que se registra a cartela de cores, com lãs tingidas sob encomenda.

Entre as principais linhas desenvolvidas pelo grupo estão: Azulejaria Portuguesa, Tropical, Moderna, Geométrica, Safári, Marajoara e Infantil. “Precisamos acompanhar as tendências da decoração, caso contrário, perderíamos muito”, afirma Maria Digna, lembrando que, nesses quase 50 anos, passaram por diversas crises. A abertura para os produtos importados, nos anos 1990, por exemplo, impactou negativamente os seus negócios.


Em cada metro quadrado produzido são bordados cerca de 5.000 pontos

Hoje, o grupo produz entre 100 e 150 metros de tapetes por mês, sendo grande fração para o exterior. A maior parte da produção segue para os EUA, onde elas mantêm uma representante. Lá, fazem sucesso as linhas com características bem brasileiras, que exploram a fauna e a flora locais. Segundo Maria Digna, desde 2000, os Tapetes Casa Caiada passaram a funcionar como uma instituição sem fins lucrativos para seus administradores. Apenas as artesãs e artesãos (cerca de 80 pessoas, espalhadas por diversos municípios) seguem ganhando a vida através dos tapetes que produzem – formaram a Associação das Artesãs em Tapeçaria Casa Caiada. Maria Digna e sua família fazem a ponte entre os artesãos e o mercado da decoração, atualizando-os com as tendências e facilitando o processo de exportação. O que certamente não mudou foi a qualidade do produto. 

MARIANA OLIVEIRA, editora-assistente da revista Continente.

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